quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O INCOMODO do Teatro Afro Centrado.

Para cada ação há uma reação. Para cada cena/texto/espetáculo/filme com temática afro centrada existe um incomodo que se manifesta de forma avassaladora. Nos últimos anos, aumentou o número de espetáculos teatrais que exploram a temática negra em suas várias vertentes. Nada de muito avassalador não. Infelizmente ainda andamos a passos curtos, mas que o movimento cresceu disso sem duvidas. Tem grupo que enfoca no lado político (e em tudo que esta palavra pode englobar), gente que desenvolve técnica a partir do candomblé, gente que a partir do corpo negro desenvolve sua forma nova de extrair teatralidade, Cias que se concentram no teatro “popular” – na verdade popular aqui na Bahia é quase congruente a negro. Existem várias formas sendo aos poucos desenvolvidas na cidade, muitas diferentes entre si, já que a cultura negra é vasta, mas para todas existe uma barreira: o incomodo que a temática negra exerce em uma cidade altamente racista como Salvador.
E Salvador é como toda cidade no Brasil, no mundo, sei lá. A idéia deste post veio durante uma conversa sobre um novo espetáculo centrado na temática negra aqui na cidade. “Você vai?”, dizia eu. “Não.”, a outra pessoa retrucava. “Por que?” (eu ainda cutuco cobra com vara curta...), “Ah! Não gosto de peça com essa temática do candomblé não!”, “Por que?” eu devolvia e ela dizia “Por que não gosto. Sei lá. E a diretora tem que tomar cuidado, pois ela já fez peça nessa temática, agora retorna com essa coisa. Tem que tomar cuidado pra não ficar visada, né?”. Não entendo esse tipo de fenômeno. A diretora ficaria visada por que???? Ouço com mais freqüência, que meu ouvido nada seletivo pode agüentar, frases como “Agora tudo é África!”, “Negro está na moda!”, “Eu não posso mais falar nada!”, “Agora tudo é negro!”... Você também já deve ter ouvido coisas do tipo.
Mas é curioso reparar no fenômeno ao contrário. Alguns anos antes, tudo, EU DISSE TUDO, era Europa e as pessoas estavam tão condicionadas à temática eurocentrada que ninguém se incomodava. Era branco no comercial de TV, no outdoor no centro da cidade, na revista como o belo da capa, nos filmes, em tudo. A temática negra posta à luz do dia revelou também outras temáticas que necessitavam de seu espaço, como a indígena por exemplo. Mas uma temática indígena, negra, cigana evidenciada pelo ponto de vista daqueles que pertencem diretamente do lugar. A negritude também revelou que os sentimentos não são universais, o corpo negro se movimenta de forma diferente, o indígena de outra forma e assim por diante. A música para os africanos/afro diaspóricos tem outro sentido. E como explorar isso no teatro? Esses novos espetáculos trazem isso.
Trazem uma nova África, mista, no caso do Bando de Teatro Olodum e seu Áfricas, uma mulher que fica pirada por conta do racismo em A Casa dos Espectros e o diretor Ângelo Flávio propõe ao público que viaje pela cabeça desta mulher, o mesmo diretor e seu Coletivo Abdias do Nascimento problematizam o dia após a abolição dos escravos em O Dia 14!, Shirê Obá e Ogum Deus e Homem da diretora Fernanda Julia traz aos palcos a vasta cultura das religiões de matriz africana. Recentemente Mia Couto foi montado pela Outra Cia de Teatro, A Comida de Nzinga fez bastante sucesso (e polemica!) no teatro XVIII, Se Acaso Você Chegasse, sobre a vida de Elza Soares, bomba até hoje nos palcos pela cidade. São alguns exemplos. Mas mesmo todos não são muitos.
Mas o movimento de falar de si, com autoridade, com muita pesquisa, técnica impecável, profissionalismo, sem deixar brechas para o outro, isso incomoda, a meu ver. O que não incomoda é ver o negro como coitadinho na hora que achar conveniente, ou ele como vilão na hora que bem quiser e entender. E só. Ou uma vitima imbecil ou um vilão em potencial. Nada mais. Os estereótipos prevalecem e que o é vasto se perde.
Lembro até hoje da fala de Zezé Motta problematizando sobre a entrada de novos talentos negros na cena teatral, na TV, nos filmes no Brasil. Ela dizia que para o Negro ser visto de outra forma o próprio negro tem que tomar os espaços de poder. Ser o roteirista/dramaturgo, diretor, produtor, ou seja, ser quem manda na história, quem bota a mão no dinheiro, quem decide quem contratar etc. Até por que quem tem verba dá o verbo! Concordo com ela. Diretores brancos sempre parecem ver com um olhar paternalista distante seus atores negros. Não é só não fazer o papel do empregado. Do que adianta fazer um advogado que aparece de vez em quando e nem tem família, nem um passado coerente? Recentemente ouvi uma pessoa dizer “Lázaro Ramos não faz papel de escravo! Isso é bom”. Não importa isso. O real problema é o negro escravizado ser colocado como vitima passiva. Chega a ser ridículo.
E quer saber de uma? Adoro ver que estamos incomodando com nossa historia sendo contada pelos nossos com tanta maestria. Gosto muito de saber que nós incomodamos e que de certa forma o debate se abre, as verdades são reveladas, as feridas são expostas. Poderemos até ser reconhecidos como “visados”, mas o importante é que falamos de nós mesmos. Mas existem Cia.s que trabalham diretamente com os chamados clássicos universais, ou somente com Shakespeare e ninguém tá nem aí em os chamar de visados, ou estereotipados. Então por que nosso teatro, nossa cultura é tida como tendenciosa? Por que eim, cara pálida?!!!

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