segunda-feira, 2 de novembro de 2015

5 Canais Negros Pra Você SAIR da Tv...

A vida mudou de cabeça pra baixo nos últimos meses, por isso parei de escrever. Mas é bom voltar. É preciso voltar. Então chego logo com uma postagem sobre o trabalho alheio, de irmãos que você deveria acompanhar. Gente preta, que utiliza as redes sociais pra disseminar a boa, ops, BOA informação. Todo mundo sabe que o You Tube é uma ótima ferramenta para construir conteúdos que a tv, paga ou não, nem de longe entrega. Quando o assunto é negritude então, fudeu né?! Mas se na tv você não se encontra, com pautas realmente interessantes ou  simplesmente por representatividade, no You Tube o bicho pega, com gente que faz caminhos um pouco diferentes...
Querido leitor, apresento pretinhos e pretinhas que deram cara a tapa e tão ai falando. Nem todos os canais são inteiramente contra o racismo, ou sobre cultura negra, mas você sabe MUITO BEM que o fato de um negro apresentar simplesmente um programa muda muita coisa. O porque? Por que o nosso corpo não é um corpo comum nas redes sociais, na tv, nos ramais da representatividade brasileira. Nossa imagem é política. Vendo eles, até deu vontade de transformar o Película em um canal hauahuuha. Quem sabe um dia! rs

Negritude Gringa:


Derivado de um blog (muitas vezes o caminho é esse), o canal do Rodrigo H, English Black Friday, é recente, mas com vídeos MUITO interessantes. Pra você que se interessa por cultura negra estadunidense é um prato cheio. Ainda mais com o ponto de vista brasileiro negro. Parece lugar comum né? Não é não! Do que chega de informação de cultura negra veiculada por brancos aqui no Brasil é de sobrar exemplos. Faz diferença ele ser preto? Claro que faz! Muito! E dentro de uma país onde a visão de latinidade é muito mais forte que a cultura negra fora dos espaços deles, aí o buraco é mais embaixo. A visão de um negão é primordial pra entender nossos irmãos de lá sem estereotipos, ou decifrando os mesmos... Dá uma olhada no trabalho do negão.



Cabelo Bom? Cabelo ÓTIMO!


Quer abandonar o barbeiro que corta o seu cabelo num corte quase rapando sua cabeça? Quer colocar seu cabelo pra cima? Não sabe quais cuidados tomar? Ô ninho, seus problemas A-CA-BA-RAM! Conheça Phils Monteiro, seu canal Fells Black e suas dicas sobre cabelo crespo. Sobre coroas crespas lindas! Na verdade minha relação vendo o canal do cara é de puro recalque. Essa minha calvice maldita que não me deixa ter meu black de volta aff. Fico vendo, maravilhado, mas desejando ter meu cabelo lindo grande de novo. rsrs Mas sobre seu canal, Phil é muito prático, direto, testa a eficacia dos produtos, preços, fala sobre saúde capilar, cortes, penteados. Tudo de muito bom gosto e feito com bastante cuidado. Dá uma olhada ae:


Cinefilia!!!



O Nego Nerd é um canal de crítica de cinema com um apresentador negro. Simples assim. Geralmente o Hudson faz críticas aos arrasa quarteirões que chegam aos cinemas brasileiros. Destaque para a parte técnica do canal. O cara realmente capricha viu! É divertido, carismático. A abertura mesmo, sempre um primor. Curto o nego nerd, pois ele não tá nem ai. Taca o pau nos filmes e não é daquele tipo de achar tudo lindo e muito bom só por ser Hollywood. Mas quando o produto é bom - ao seu ver - ele elogia de boa. rs



Poder de Preta!



Empoderada é a palavra do momento né? Nas universidades e nos meios de movimentos sociais é a palavra que domina. Já teve o tempo do "pós moderno", ou "contemporâneo", agora o negócio é empoderar! Então que a gente tenha poder mesmo. Principalmente as mulheres negras. O canal é voltado para o empreendimento de negras pelo Brasil e feito pelas negonas Loyce Prado e Renata Martins duas cineastas. É também um canal novo, mas desde já, o primor técnico é também um diferencial. Na verdade Empoderadas é uma web série que esta apenas na sua primeira temporada. Como o poder de um dá abertura para o poder de muitos, o canal visa mostrar mulheres negras que são exemplo para outras e abrir o debate sobre feminilidade e negritude no Brasil.



O Sonho Dela É Nosso Também!



Ana Paula Xongani está aqui depois das Empoderadas de propósito ok?! Por que? Para provar que de um bom canal, pode te ajudar a conhecer outras coisas boas. O Empoderadas me levou a conhecer a Xongani. Veja bem, esse sorriso largo dessa mulher da foto, veja essa energia que emana a imagem estática... É essa boa energia que você verá em seus vídeos, sobre muitos assuntos ligados a nossa negritude. Ela senta em frente a câmera e fala e fala e fala e acredite, tudo o que ela fala é importante e fundamental. E lindo. E bom. E positivo. A Xongani é uma marca estética, mas seu canal vai além da mostragem de seus ótimos produtos.


domingo, 17 de maio de 2015

Percepções sobre Velhices e Negritudes...



Eu - E ai minha mãe, gostou da médica?
Minha mãe - Gostei sim! Ela é pretinha que nem a gente né? Entende de nossos problemas...

Minha mãe voltou a morar comigo. Anos atrás deu um surto - merecido - de liberdade e voltou para o interior, fugindo da capital e do furdunço da cidade grande. Foi parar em uma cidade com pouco mais de 30.000 habitantes. Vida tranquila, qualidade nos alimentos, na diversão, na tranquilidade, foi ter a vida que sempre sonhou. O filho estava criado, formado, com emprego. Na cabeça dela, a parte dela ela tinha feito. E na minha cabeça, a parte dela ela fez mais que bem feita. Viveu na sua terra natal por um bom tempo com sua cachorrinha, rodeada de plantas, numa boa casa. Parentes por perto. De uns tempos pra cá, a diabete e a hipertensão começaram a pegar mais pesado e resolvi chamar ela para ter minha cia novamente. Ou seja, atualmente ela mora comigo e estou cuidando de minha mãe. O filho virou um pai chato e auto protetor - coisa que minha mãe nunca foi comigo rs. Eu que queria uma filha, ganhei logo uma com mais de 60 anos... Mas o que isso tem a ver com o assunto do meu blog?
Minha mãe é preta ué... E não pude fechar os olhos para o novo mundo da terceira idade. Sendo minha mãe uma mulher negra e agora velha (eu não tenho problema algum com o termo, nem ela, você tem?...), o mundo racista apresenta algumas configurações próprias. Não, ela não sofreu discriminação, e espero que nunca passe por isso depois de idosa, mas arquétipos do racismo sobrevoam feito urubus o novo mundo que a mim se apresenta. Impossível não reparar...
Primeiro, ao acompanhar minha mãe aos médicos, reparo que 90% deles são brancos. Sempre que falo a minha profissão e a de minha mãe, não conseguem esconder a forma pitoresca que nos tratam. Primeiro, a pena social. Nos aliam logo a periferia. Ok, venho da periferia. Mas qual o estigma que carrego pra ser aliado logo a essa parte da cidade? Ganha um doce quem descobrir! Pois os brancos sabem onde moramos não é?... Segundo, eles nos olham, não sabem bairro, nada, nao perguntam, nem olham a ficha direito, só veem nossa cara e pimba: o SUS e remédios mais baratos são logo colocados na mesa, como caridade. Eu dou risada, um sorriso misto de sem jeito e raiva e digo que minha mãe tem plano. ELA TEM?? Sim, sou professora aposentada! AH É? Diz o médico que dentro da sua cabeça faz um esforço enorme para não divulgar a idiotice que fez até então, mas... tarde demais! Imediatamente os remédios começam a subir, o numero, o preço, tudo! E o tratamento é outro! Mesmo que por vezes o estranhamento venha mesmo assim...
Segundo: na sala de espera, como minha mãe é atendida em clinicas dispostas em bairros nobres da cidade, todos os clientes são brancos, principalmente se determinada especialidade médica não for contemplada pelo plano e preciso ir para um particular. Fico pensando sempre, no posto medico do governo, perto de casa e suas intermináveis filas, com gente negra debaixo de chuva, de madrugada pra pegar uma ficha pra ser atendida por um médico que nem sabe se vem pela tarde ainda... Bem diferente do endocrinologista e seu consultório com ar condicionado, tela plana, wifi para clientes, poltronas confortáveis... O mundo é outro meu caro...
Terceiro: o mundo da velhice é um mundo de solidão absurda. Sempre sou chamado a atenção por médicos, recepcionistas e pelos próprios pacientes, que como filho, faço aquilo que muitos, muitos mesmo, não se dão ao trabalho de fazer. Cuidar e acompanhar o pai ou a mãe. Comecei a achar, no alto da minha frieza que "velho é tudo carente", pensei assim dessa forma diabólica! Mas depois, o filme de terror das clinicas começou a me perseguir. Gente que precisa de ajuda pra se locomover sozinha, homens e mulheres extremamente frágeis dependendo da ajuda de estranhos na rua, nos consultórios, preocupados com a própria saúde, pois os parentes não tão nem ai pra eles... Tem gente com 4, 5 filhos que mais parece ter nenhum! E as acompanhantes são muitas vezes as únicas Cias dessas pessoas.
Quarto: Voltando ao inicio da postagem, Um médico preto faz diferença sim. Ao menos um médico preto com vergonha na cara. A tal médica de minha mãe, soube levar ela a um bom estado e coloca-la a vontade. É uma das poucas que minha mãe sorri antes de ir ao consultório. Não é só educação formal... Vai além sim!... É identificação! É uma médica onde a angustia dela vais er levada a sério. O tratamento biológico fica até mais fácil. Não digo, médico negros para negros. O que eu digo é a sensibilidade de um ou uma que saiba de quem ele está tratando. A população negra passa por coisas que outras não passam... Mas nem todos tem sensibilidade para enxergar!...
Minha mãe, aviso logo, nunca militou em qualquer área que seja. Nada de ongs, nada de movimentos, NADA! Não conhece quem é Bell Hooks, nem Angela Davis, Sueli Carneiro, nada, mas é uma das feministas mais bem estruturadas que conheço e uma guerreira contra o racismo.
A boa educação dessa médica negra, contrasta com o total despreparo da médica que atendeu minha mãe no tal posto médico em uma das emergências que passei com ela. O vocabulário, a forma como atendia sem chegar junto a minha mãe, a forma como não se importava com as pessoas... Sim ela era branca! E não é uma característica própria dos brancos tratar mal gente preta, mas a maioria absoluta dos pacientes do subúrbio são negros... e aí, como não pensar em despreparo desse povo? Estou falando dos médicos!...
Quando passo para ir ao trabalho, vejo a  conversa dos estagiários médicos (quase todos brancos) e enfermeiros do posto. Que o povo é sujo, que eles não querem ficar no serviço publico, das noitadas do fim de semana e da nefasta obrigação do trabalho... Por isso o povo da minha rua se mata de trabalhar, mas no tal posto fazem um esforço ENORME para não ir...
E quinto: pessoas velhas transformam o pouco ou muito carinho que você entregar a elas em um tesouro formidável. Muitos deles são abafados em todos os lugares que estão. São lentos sim, se pensam diferente, o corpo é outro ué, mesmo as vezes pertencendo a chamada terceira idade ativa. Nosso mundo não se acostumou com a ideia que um dia vai envelhecer. E sai atropelando tudo e todos diferentes a eles. Por isso, um que construa um sorriso sincero, uma ajuda na rua, ao abrir uma porta pesada, a pegar algo do chão, a tentar parar o carro pra mesmo, em sinal aberto, deixar o senhor ou senhora passar... Eles vão transformar vc em herói do dia! E ajudar esse povo é legal! Sim, alguns deles são rabugentos rsrsrsrs, mas fazer o que né?! Idosos são gente com defeitos e qualidades, não vá pensando que os defeitos somem conforme a idade avança...
Essas percepções me chocam. Nosso mundo é acelerado demais, injusto demais, frio demais, louco demais... E os velhos como estão nesse mundo tão rápido? E os velhos negros? Por que se o racismo não te atingiu "ainda" uma hora você pode acordar... Mesmo que seja depois de velho... Se tem uma chance de começar a cuidar de sua velhice, como ouvia minha mãe dizendo anos atrás, faça desde agora Porque o futuro pra quem é preto e pobre, ou pra quem é simplesmente preto não é nada fácil... Mas juntos ficamos mais fortes! Um confortando o outro. Pois velhice não é atraso. É persistência, é guerrilha, é história... é AMOR!

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Voz Talismã - Ao Vivo por Margareth Menezes

Muito se fala da injustiça do mundo do entretenimento brasileiro com Margareth Menezes. Muito se diz que se fosse em outras partes do mundo, até partes dominadas por brancos, o talento dessa formidável cantora seria reconhecido. Sim, o bom e velho racismo que nos incomoda e chega também ao mundo da música. Para Margareth o caminho parece difícil, mesmo vendo que em 25 anos de carreira ela é dona de uma voz marcante, sucessos estrondosos e é uma artista múltipla. Atriz, cantora, produtora, Maga, como é chamada aqui em Salvador, é uma cantora que rema contra a maré. Acho que todas as artistas negras são assim aqui no Brasil. Mas no caso da Sra Menezes sua carreira é símbolo da persistência perante o desgaste do axé burro, do sertenejo que invadiu as rádios da Bahia e do pagodão dominado por homens e que faz da mulher puro objeto sexual. Nesse DVD Voz de Talismã – Ao Vivo, construído a partir de sua concepção, todas as referencias de Maga em seus 25 anos se encontram em um só trabalho.
Um só trabalho dividido em 3 partes:  A primeira, o show na Sala Principal do Teatro Castro Alves, reduto tradicional da arte soteropolitana, Maga entrega nesse show sua faceta “intimista”. Vê-se uma cantora mais “calma” no palco, arrancando suspiros do púbico ao entrar da plateia cantando Cordeiro de Nanã e logo depois passeando seja por clássicos da MPB como Fé Cega Faca Amolada/ Escritos nas Estrelas/ Toda Menina Baiana, ou entoando seus próprios clássicos como a canção Marmelada e sua crítica ao mito da democracia racial, Vou Mandar e a reinvenção de Alegria da Cidade. Neste meio tempo, Maga mistura Emboladas de domínio Público e arrasa na sua roupagem para Coco do M. Fora o ápice do show quando ela interpreta Acará e explica a origem e a feitura do bolinho mais famoso da Bahia: o acarajé.
Na Segunda parte, estranhamente disposta no DVD como bônus... Vemos a Maga dos hits Dandalunda, Faraó, Selei meu Cavalo Selei, Toté de Maianga e Elegibô, todos interpretados com força na Concha Acustica do Teatro Castro Alves, onde se pode fazer o clima de carnaval perfeito para este tipo de identidade da cantora. Mesmo não sendo intimistas, os hits de Maga são canções fortes, de letras extremamente contundentes, difíceis até de cantar, mas que todos em Salvador sabem a letra. Duvida? Então acompanhe o publico cantando trechos que embolam a língua dos desavisados, com incrível facilidade. Destaque para o hino soteropolitano Faraó Divindade do Egito...
A terceira e ultima parte mostra o mini documentário, onde, no mesmo show da Concha Acústica, os artistas convidados (Paula Lima, Ile Aye, Filhos de Gandhi, Cortejo Afro, Gilberto Gil, Elba Ramalho e Daniela Mercury) falam sobre Margareth. Cenas dos bastidores e do publico ainda enchendo a Concha são vistas em contraponto ao depoimento e a chegada dos artistas. É justamente aí que se enxerga o único defeito do DVD, não incluir suas atrações no repertório oficial. Uma pena, pois canções que já nasceram clássicas como Oya Por Nós – parceria de Maga e a Rainha Má – ficam de fora sem motivo aparente...
Do mais, a concepção impecável do dvd dá destaque ao publico também como artista. Por que Margareth convida com sua voz, o publico a dançar com seus ancestrais. E com sua voz, todos se contagiam, quem está no show por pura diversão e também os que lá estão a trabalho. Entre uma cerveja e outra servida, entre uma pipoca e outra dada à cliente, as câmeras mostram os trabalhadores se divertindo e se contagiando com a voz inconfundível de Maga.

Sim, ela merecia mais. Muito mais! Mas tem um publico fiel. Forte, igual a sua voz. Que reconhece seu talento e seus anos e anos de carreira. Eu sou um deles. Tenho este dvd e não me arrependo, pois é um trabalho primoroso. Vida longa a música e ao axé da Senhora Menezes.

segunda-feira, 23 de março de 2015

APERTE O PLAY: Titica: Você Me Manda Fogo

Titica retorna da forma mais sensual possível. A presença e o sucesso cada vez mais crescente de Titica no cenário da musica africana e mundial é de uma importância tão grande que acho que nem ela se dá conta disso!
Esse clip não tem muito o que falar não. Só ver e ficar chocado com o crescimento artístico da artista e também pela sua coragem. Porque toda diva sensualiza, então ela que é uma também tem seu direito...


domingo, 8 de março de 2015

Sobre quem está começando...

ps: esse post não foi feito para agradar...

Dia desses, acabei cruzando com um amigo militante dos mov negros, um pouco mais velho que eu, ele já estava meio nervoso quando o avistei pela caminhada, parou, falou comigo, desatou a falar sobre o que o afligia naquele momento.
Um novo militante novo, “quebrando o pau” com ele em um debate dentro da universidade sobre cultura negra, apropriação cultural etc etc. O negocio ficou ainda mais acirrado quando, o tal menino de cabelo black quis dar um belo sermão nele, pois este meu amigo a tempos não deixava o cabelo crescer. Depois de tudo, de explicar todo o processo da criatura, de como entrou, de como se comporta, de como coloca seus conceitos... ele olhou pra mim, querendo uma resposta. Eu não pude infelizmente dizer outra coisa que não fosse: “Ô amigo, isso é super normal! Relaxe!”
Super normal o processo de violência. Eu era assim, você era assim. Muitos quando “acordaram da matrix” eram assim. Você se reconhece como negro, muitas vezes tendo passado por um processo de invisibilidade fenotípica, vê o processo que passou e agora quer falar, seja de que forma for... Nunca se reconheceu como branco, mas negava sua negritude, ou de uma forma silenciosa ou negando abertamente. Ou se considerava negro, mas não ligava para o racismo. Sei lá, cada um tem a sua história. O importante é que ele acordou  agora quer falar...
Também há a explosão de conteúdos negros do sujeito em redes sociais, ou sobre o que ele lê. Estamos na geração do compartilhamento. Descobri quero mostrar. Mesmo que isso seja apenas, “quero mostrar que li também”. sua time line vai ser inundada pelo novo militante, de conteúdos sobre negritude. Muita coisa você já leu, você já sabe, não é de hoje, mas ele não ué. Se voce for na time do sujeito, ao que parece ele só lê sobre isso. E muitas vezes ele se restringe a esse ponto, pois o mundo que ele agora quer conhecer é vasto demais... E a geração nova é pior que a minha, quer tudo ao mesmo tempo agora...
Seguindo, tem uma coisa que eu acho muito, mas MUITO engraçada. O sujeito acha tudo o máximo. Lê um texto e posta que o escritor “brocou”, “sambou”, “arrasou”, usando os adjetivos que geralmente eu vejo nos posts, muitas vezes o argumento é batido, ou repetitivo, ou 8000 pessoas já pesquisaram sobre aquilo... Tem o processo da descoberta, que não se tem um arquivo de leituras grande, ou médio que seja, mas há um defeito ai. A nova geração lê pouco. Prefere ler artigos a ler livros. Na minha os professores já reclamavam disso, imagine hoje... Voce lê um capitulo, fica longe de ler monografias, teses, dissertações, livros. Lê-se muito os títulos e não as reportagens inteiras, abre 3, 4 5 janelas de textos as vezes muito complicados e não se concentram em nada.
O ataque ao branco é um ponto forte que vejo. Isso não tem nada a ver com racismo ao contrario. Tem a ver com o massacre que até agora veio a mim e que agora eu destino ao outro como resposta. Muitas vezes, vejo em posts e em grupos que participo discussões acirradas sobre o branco, ou brancos amigos que não são racistas, ou todos os brancos são racistas. E aí começa o quebra pau entre negros por conta da branquidade alheia. Fico me perguntando o que eu faço para tirar o branco racista dentro de mim? eu ataco meu amigo, pois nele enxergo algo meu, não consigo trabalhar em mim e entrego a ele minhas frustrações para ele também resolver? Isso faz de mim militante de que?...
É inevitável o confronto com as gerações mais velhas. Com os trintões ou com os quarentões, que seja. São formas diferentes de ver a negritude, são racismos diferentes experimentados. Esse confronto sempre acontece, inerente ao posicionamento racial/social. Isso acontece dentro de casa, na universidade, no trabalho etc...
Com o tempo, as coisas vão abrandando. O sujeito vai se descobrindo. O que é ser negro pra ele? Todos os negros são iguais? Experimentam de coisas iguais? Como é o processo da diferença dentro da diferença? E as minhas referencias brancas? Eu as tenho? O que faço com elas? Todas as referencias negras me representam? Se não, o por que isso? E o que fazer com o sexismo negro, com a homofobia negra, com o machismo negro? Afinal de contas todos temos PRE-conceitos ué, somos humanos... E o meu racismo interno? O que faço? Como se dá o processo da minha desconrrução? Por que construir e fazer discurso todos sabem, desconstrução é um outro processo que nem todo mundo está preparado para passar... Uma das coisas que vejo também, é a descoberta e consequente decepção, que nem todo mundo é tão santinho quanto parece. Aquele cara dono do artigo “brocante”, na verdade é um escroto com a namorada. Ou o militante de cultura negra, critico de relações inter raciais alheias, mas pouco resistente quando o assunto é branco na cama dele...
Feita essas e outras perguntas, respondidas algumas outras não, o sujeito começa a mudar. A se reformular. Ao invés de militar por tudo, pega foco em uma área. Começa a ver outros mundos, ou se aprofunda em sua cultura, mas de uma forma mais solta. Passa a ver que nem todo mundo vai pensar igual a você, mas pode lutar de uma forma diferente. E uma coisa importante: passa a ter humor! A negritude não é apenas sinônimo de racismo, de ataque ao branco, é também, amor, alegria, sorrisos, abraços, fortaleza.
Meu amigo olhou pra mim, se viu em muitas coisas que disse. Ele era assim. Eu era assim. Voce provavelmente também, ou conhece alguém que fez isso... Com o tempo a gente vai se encontrando. Eu mesmo me encontrei a partir da decepção de gente que desistiu. Militante fervoroso que não aguentou o rojão e simplesmente virou as costas pra tudo que acreditava. Por uma série de motivos. Mas desistiram. Ou enlouqueceram, ficaram doentes pelas mazelas da militância. Não queria isso comigo. Isso significa que sou superior a alguém? NOT! Rs Isso quer dizer uma coisa só: em-ve-lhe-ci! E olha que estou longe de ter 40 e poucos viu...
O racismo vai acabar por conta de que cresci? Não também! só vou reparar nele de formas diferentes. Hoje sei que não devo falar em determinados lugares, com determinadas pessoas, algumas delas negras e tal, por que o movimento será contraproducente. E desgastante. Isso não me afasta de dar de vez em quando um chega pra lá, “me respeite”, em certos colegas, mas minha visão vai para outras instancias. Ignore, melhor que encher o bucho de losartana potássica por conta do nervosismo rs...
Tem gente por ai com muito mais preparo que eu! Estou em um tempo de minha vida que reconheço muito mais luta contra o racismo fora da academia que dentro. Moro em uma favela e vejo meus vizinhos que nunca ouviram falar de Fanon lutando para desconstruir a cabeça do filho, o educando e preparando seus pimpolhos para o mundo.  Fui educado por mãe que nunca leu Alice Walker, mas os conceitos que ela desenvolve em seus livros minha mae fazia direitinho. Reação em cadeia? Não sei... O nome disso é o sentimento negro solidário brotando em si!!!
Nem todo militante novo é assim. Friso também que a palavra novo, nao necessariamente pode ser atribuída aqui a pessoas de menos idade. Pode ser um novo quarentão etc...

Despedi do meu amigo, antes disso vi um sorriso brotando do rosto dele. Ele se reconheceu no menino que o atacara. Ele também já foi daquele jeito, e as vezes até é com gente mais velha que nós. O conflito existe. Sempre vai existir. São visões diferentes sobre o racismo, ele se transforma, da forma mais inteligente e diabólica possível. Nós que muitas vezes paramos no tempo. Pois é cômodo sermos senhores. Mas é melhor baixar a cabeça... para que o racismo não seja os senhor do nosso tempo!...

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Selma, por Ava DuVernay

Luther King sempre foi evidenciado como pacifista. Sempre! Principalmente em relação a seu opositor ideológico Malcolm X. Sempre que Malcolm é citado como errado, equivocado, Luther “surgia/surge” como a solução para todos os problemas. Luther é o homem que luta, mas pacificamente, sem armas, sem incitar a violência, sem meter medo nos brancos, sem ameaça-los. E o melhor, Luther King sempre é evidenciado por lutar ao lado dos brancos e ser um líder cristão.
Sempre desconfiei dessa imagem. Pois a luta contra o racismo é algo extremamente violento. Psicologica ou fisicamente, é violência pura. Para mim, infelizmente não há como escapar. E também desconfiava que essa imagem de eterno pacifista passivo era uma imagem branca. Quando comecei a ler mais sobre a história de ícones negros, me identifiquei com Malcolm e deixei King de lado... Como muitos que seguem King deixam seu “rival” também para escanteio... Aos poucos, King e sua imagem passiva foram destruídas. Um texto daqui, um argumento de lá...
Até que chego em Selma, produção que esse ano concorre aos Oscar de melhor filme, e minhas suspeitas sobre King se confirmam. A luta contra o racismo é sim algo extremamente violento. Seja ela feita pela paz, ou pela força...
Selma é o nome de uma cidade, do interior do EUA. Pequena, mas com cidadãos negros querendo exercer seu direito de votar. O ato simples é orquestrado com a perfeita cena de abertura em que uma mulher, vivida pela produtora do filme Oprah Winfrey, tenta tirar o que seria o “título de eleitor” e também uma permissão para o voto negro. A cena, pontuada por um silencio insuportável e planos extremamente fechados, detalha bem a angustia motivada pela humilhação!
Luther King vê em Selma um ponto crucial para a aprovação da ementa que faria negr@s cidadãos plenos em direitos. Sabemos que em uma República o ato de votar posiciona o homem ou mulher como cidadãos perante a sociedade. É justamente o ato de votar que tiraria o negro do ostracismo, acredita King. Para isso, o pastor se encarrega de fazer pequenas marchas pela cidade e também para a capital do estado do Alabama.

A politica estadunidense, branca e racista em seu cerne, tenta evitar – inclusive usando o FBI – a formação ou avanço das marchas de King. Mas o que eles não contavam é que todo homem pacífico é antes de tudo um grande estrategista. E King era inteligente o suficiente para edificar tudo a seu favor.
É aí que volto ao ponto inicial do texto, quando falo que minha desconfiança com King é comprovada em Selma. O pastor poderia ser pacífico, mas a violência era algo forte que cercava ele por TODOS os lados! Uma das cenas exemplo, é o resultado da primeira marcha que vai até o tribunal da cidadezinha. Luther em pé, quieto e o pau comendo. O racismo incita raiva, ódio, traumas, revolta... E muitas vezes isso ele não poderia controlar...
A condução desses momentos tensos e de cenas de extrema leveza são feitos com mãos firmes da diretora Ava DuVerney (condutora de episódios da série Scandal na terceira temporada), indicada merecidamente ao Globo de Ouro de Melhor Direção. Ava pega um recuso bastante usado no cinema, a violência explicita em câmera lenta e reconstrói a sua forma. Ela arrasta o movimento, mas não o esmiúça. Foca, em pontos que outros diretores não dariam atenção. Isso se vê em momentos da explosão numa casa onde crianças negras conversam sobre cabelo, ou no massacre na ponte, ou na morte dos brancos apoiadores de King. Ela mostra a violência de forma singular. Compreende que a violência que cerca King e Malcolm são diferentes. Outro fator peculiar é, Selma ser um filme de homens. A politica, principalmente a do século passado, foi um ato cercado de masculinidade. E Ava conduz o testosterona da forma precisa. As contradições masculinas são jogadas na tela sem desvios.
O que me incomoda em Selma é justamente culpa da diretora espetacular. Centrou-se em seu ator principal, nos registros do FBI sobre King para pontuar a história com veracidade e se esqueceu do elenco masculino branco... Ok, esquecer é um verbo forte, mas me incomoda muito essa coisa de filmes históricos falando sobre racismo ainda deixarem os personagens brancos racistas serem interpretados de forma caricata. Como se dissesse “Olha, estou dizendo coisas ruins, fazendo coisas ruins, olha como sou mal”. Se apresenta as contradições negras com maestria que tomasse cuidado com os personagens brancos, aqui separados – novamente – em bons e demônios.
O único que se salva dessa papagaiada é Tom Wilkinson fazendo o presidente Lyndon B. Johnson. Seu trabalho é minucioso, mostrando a incoerência de um homem branco passando por um processo anti racista dentro da sua consciência. Perfeito! E a forma como ele conduz a politica a favor dos negros, mas tirando ele da reta, é um ponto impar no filme.

Carmem Ejogo, ou Coretta Scot King, faz de seus momentos algo grandioso. Adoro isso no cinema! Duas cenas suas chamam atenção; o encontro com Malcolm X e a descoberta das traições de King com outras mulheres... Ponto forte do filme. King tinha defeitos. Seu social e o humano tinham falhas. O filme passa e não passa por cima disso, só vendo para entender...
Mas o filme é mesmo de David Oyelowo. Protagonista! Contido! Ele nunca deixa King crescer mais que o texto, mais que a câmera, mais que a grandiosidade das marchas. E se torna gigante justamente por isso!

Selma é antes de tudo um filme sobre violência. E de como vencer os caminhos violentos, usando de várias armas... A estratégia é uma arma. A calma também. a analise é uma arma. A diplomacia outra. A paz pode ser uma bomba de proporções gigantescas, mas acima de tudo, ela não é um ato passivo. E nunca será!


quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Us³ em Elefante por Max Goggino

O rap/hip hop não tem humor! Pouquíssimas vezes vi um exemplar com espírito mais despretensioso no sons pela cidade ou pelo país. Os ritmos são muito ligados a seriedade, ao protesto. Quando poucas vezes pretende sorrir é para ostentar. Não que isso torne o rap ou o hip hop algo chato de ser ouvido, muito pelo contrário, a seriedade foi quem os fez crescer e tornarem-se o que são hoje! Mas é uma constatação, muitas vezes não há espaço para o humor nesses ritmos. Com a chegada das mulheres o rap ficou mais leve e mais precisamente com as novas gerações o que interessa ao Mcs vai além do protesto, ou o protesto pode ser feito de infinitas formas...
Para o Us³ (banda soteropolitana formada pelos músicos Sr, Ranneo, Mc Kdu, D. M Jay), o hip hop tem sim humor. Bom humor! Um humor tipicamente baiano. Mas que pode muito bem ser compreendido pelos que curtem hip hop pelo país. Max Goggino dirige e muito bem a história do cara fracassado que vê sua vida desmoronando até quando confessa sua sofrencia para os amigos. As imagens vão além de ilustrar a letra despretensiosa do Us³. Elas acrescentam, arredondando o personagem para quem vê o clip e assim diverte o espectador.
Outro ponto, que não deve-se deixar de lado é a produção do clip que é muito bem feita. Já vi muito clip de rap ou hip hop ruim de doer com produção requintada. Com Elefante, o Us³ acerta logo em seu primeiro clip, mostrando identidade, aliada ao humor, sem perder a veia e a batida do som que estão dispostos a fazer.
Leandro Rocha (do espetáculo Negreiros 2) faz o papel do tal Elefante, cidadão que tenta acertar na vida e nada, NADA dá certo no seu caminho. O clip conta com participações de Evana Jeyssan ( que concorre ao Brasken deste ano como Atriz Revelação por As Confrarias) e Marcos Oliveira (diretor de Domingo no Parque).
Confira o clip abaixo:




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segunda-feira, 8 de dezembro de 2014

Cumbe, por Marcelo D'Salete

Na livraria, uma revista em quadrinhos me chama atenção. Estava com Persépolis na mão, decido a ir embora com somente a HQ de Marjane Satrapi, até que vi, em cima de uma pilha de outras quadrinhos, uma revista amarelada com nome Cumbe em destaque. Fiquei em dúvida se comprava. Não pela qualidade do desenho, abri e achei muito bom, mas sim pelo tema e como a história seria tratada principalmente. Procurei pelo autor, referencias básicas e fui na biografia usada para pesquisa da temática da história. Um alívio: ele não usou nem Gilberto Freyre nem João José Reis. Sorri “aliviado”. Ok. vou comprar. Comprei!
Cumbe, de Marcelo D’Salete, conta basicamente a história de negros escravizados que lutam pela liberdade. Sem o clichê dos abolicionistas brancos bonzinhos, nem os senhores bem feitores. Aliás, em Cumbe, assim como no filme 12 Anos de Escravidão, não existe lugar para brancos bons no período colonial! A faceta não muito explorada atualmente no Brasil aqui é colocada com ferocidade. Quem está em primeiro plano são os negros que lutam de todas as formas pela liberdade, nem que ela venha através da morte.
Cumbe é dramática, forte, (muito) violenta e estilosa!  A HQ chama atenção em vários sentidos. Primeiro pela carga dramática de seus desenhos, da forma como enquadra as imagens, de repetir o mesmo quadro para ressaltar pontos diferentes. Na mesma figura perspectivas opostas sobre a situação, ou os sentimentos dos personagens. A forma como a pesquisa histórica é jogada em forma de roteiro é aprimoradíssima. O silencio também é uma característica forte da obra, realçando o suspense, a tensão das invasões, as reações na calada da noite, os segredos, tudo feito e ressaltado com um traço forte, que arrisca e acerta.
Todo em preto e branco, o traço de Marcelo nunca se perde, preenchendo momentos chave da trama com uma dessas cores quase que total à página. Lindo de ver. Além disso, o material da HQ é bastante aprimorado. São 175 páginas distribuídas em um papel de excelente qualidade, com direito a glossário e índice de referencias no final da história. O projeto da HQ foi feito com apoio do Governo do Estado de São Paulo através da Secretaria da Cultura e do Proac 2013.

Devorei o conteúdo em um dia. De quadrinho em quadrinho ia ficando tenso e curioso ao mesmo tempo. Cumbe merece destaque tanto por divertir como informar sobre o tema escravidão no Brasil de forma diferente. Personagens negros protagonistas, não só da trama, como da história e também no sentido de sua personificação... um personagem sujeito, não apenas objeto...

O autor, desenhista Marcelo D'Salete


A minha edição rsrs

Páginas abertas revelam o traço forte


quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Os Senhores do Orum, por Nisso Souza

Toda religião tem seus mitos. Sem eles, ela não sobreviveriam. Como mitos, são carregados no fantástico e por estarem no patamar do extraordinário sobrevivem a tantas mudanças de tempo, civilizações, revoluções... Estão lá para explicar o distante, o inacreditável. No Candomblé, religião de raiz africana, os mitos como todas as outras religiões são múltiplos. Mas cada Orixá possui versões diferentes a depender da nação, do lugar onde esteja sendo cultuado, do tempo, da missão dele no momento... Mitos/ lendas servem para arrumar esses serem enérgicos dentro da nossa cabeça, ainda pequena para tanto poder.
E o design Nisso Souza escolhe mais uma história contada para propagar os Orixás como tema de sua HQ virtual Os Senhores do Orum. Nisso colocou as mãos na massa e assina roteiro, desenhos, arte final e cor, ou seja carrega nas costas a responsabilidade de contar uma das muitas histórias dos deuses africanos. Nesse primeiro volume (em projeto com total de 3), Nanã é escolhida para ser a personagem chave da trama.
No primeiro capítulo, Ogum chega a terra da senhora das águas plácidas para invadi-la, como fez com tantas outras o Orixá guerreiro. Nessa primeira parte a revista se desenvolve através do confronto entre Ogum e Nanã protegendo sua terra. Logo no primeiro capítulo, um artifício inteligente do artista e muito simples também é evidenciado, a arte da HQ é toda em preto e branco, mas nos momentos chave de personagens ou histórias, a página fica colorida (sim, isso já foi usado, até em filme... O Mágico de Oz...), mas a forma como o artista faz, escolhendo os momentos chave da trama, torna a experiência bastante agradável. Nem sempre o momento de balanço na história é escolhido como momento para destaque, vemos a sensibilidade do artista que escolhe partes diferentes do esperado como “pontos chave”
No segundo capítulo, Ewa, a filha de Nanã, descobre que os homens de seu reino matam para desposa-la e como Xangô aparece em seu caminho para acabar com seu sofrimento. Iansã, a quem Xangô não consegue escapar, entra no terceiro e último capítulo, sendo o grande “empecilho” entre o amor de Ewa e o deus da justiça. O ultimo capítulo mostra o sacrifício de Ewa para o bem de todos no seu reino. É bom você mesmo descobrir as reviravoltas da história, caro leitor. Afinal de contas, contar tudo estraga a experiência.
Os Senhores de Orum tem um traço simples. Quadrinho algum aqui tem rebuscamento exagerado. O traço é direto e preciso. Mas muito caprichado quando a história requer erotismo. Aliás, o erotismo é um ponto forte quando o Candomblé é retratado por artistas de diversas áreas... Aqui não é diferente. E é um fator clichê na história. Somos cercados por uma cultura cristã e vemos no Candomblé outro sentido para todo o moralismo da Igreja Católica e Evangélica... Alguns artistas tomam cuidados, outros exageram na mão. Nisso fica no meio termo. Se exagera no começo – a cena do estupro de Nanã – acerta o tom precisamente no momento em que Ewa conhece Xangô. O texto, no começo é grandiloquente, faltou humanidade para retratar Nanã e Ogum, mas com o passar das páginas o roteiro fica mais fluido e o texto mais solto, não deixando de ser simples e direto como o traço da revista.

Para perpetuação de uma crença, da fé, do divino de um povo é preciso sim a assimilação das lendas dessa fé em outros meios além dos tradicionais. O cristianismo, não é de hoje, usou o cinema, o teatro, livros e também os HQ para reverberar suas ideias e seus ensinamentos. Apesar de essa ser mais uma lenda em meio a tantas no Candomblé, a história é bem contada por Nisso, é gostosa de ler e surpreende em alguns pontos. Que venha a segunda e a terceira parte das historias africanas escolhidas, pois o resultado da primeira anima.

LEIA A HQ OS SENHORES DE ORUM
CLICANDO

domingo, 9 de novembro de 2014

A Comida de Nzinga, por Rita Assemany

Fotos: Cleiton Lima

Assisti pela primeira vez A Comida de Nzinga na sua primeira temporada. No antigo Teatro XVIII, junto ao renascimento do Teatro Negro em Salvador. A peça me chamou atenção por vários motivos. Primeiro pelo conteúdo, tratando de uma rainha africana com influencia direta aqui no Brasil. Segundo pelo elenco jovem e vigoroso. Terceiro por ser uma peça onde o coro NÃO é feito para enfeitar, ou mais um personagem da peça, o coro É a peça. Quarto por a peça visualmente ser linda e simples. E quinto e último... A cena das batalhas feitas em sapateado. Tive vontade na época de gritar... e gritei no teatro! Era fantástico ver tudo.
A peça revolucionou pelo seu conteúdo e por ser um projeto com atores jovens que falava para todos. Era uma peça sobre o passado, de forma jovem, distribuindo grande energia pelo palco.
Sete anos depois, Nzinga retorna com reformulação do elenco e parte da equipe técnica. Passando pelos teatros da cidade em uma turnê que fez os 4 cantos de Salvador ver a história da Rainha do Ndongo. Estão lá o texto de Aninha Franco e Marcos Dias, que mescla o tom histórico com sua visão atual dos dilemas da mulher e também sobre racismo. A direção de Rita Assemany que mantém os dois personagens principais da peça (Nzinga e o Coro) unidos e fortes. A voz de Virginia Rodrigues em off belíssima como sempre. As coreógrafas Cibele Brandão (sapateado) e Ceiça do Amor Divino (preparação corporal e coreografias) que executam novamente um ótimo trabalho. O fabuloso e colorido figurino de Miguel Carvalho e o cenário de Hamilton Alves simples e com impacto impressionante. E é claro Clara Paixão que retorna ao papel título do espetáculo com força e brilho que a personagem precisa. Até quando sorri o movimento é carregado de força!


A reformulação total efetiva desta nova montagem é o coro da peça. Feito por jovens atores, mas quem acompanha a cena teatral de Salvador, já viu cada um deles em outras montagens. Ou seja, são jovens, mas experiência eles tem. Alguns, vasta experiência! Raimundo Moura Leo Santis (Gaiola O Caçador de Solidão), Guilherme Silva (Breve), Bruno Roma (Mar Morto), Daniele Anatólio (Ponto Negro em Tela Branca), Diogo Teixeira (Casulo), Fernanda Silva (Conspiração dos Alfaiates), Josi Acosta (A Conferencia), Kadu Fragoso (Engenho K), Pedro Albuquerque (Domingo No Parque), Miriam Sampaio (Opera do Malandro) e Nadja Occioly carregam o espetáculo narrando com maestria a história da grande rainha.
A experiência de ver A Comida de Nzinga no Espaço Cultural Barroquinha também deve ser ressaltada. O lugar é incrível para o espetáculo, por mais que o cenário pareça compresso no palco pequeno do teatro, a forma do espaço cultural, que é dentro do que foi as ruinas de uma igreja, acrescenta e muito o clima do texto. Principalmente quando Nzinga se “torna portuguesa” e católica. O impacto da história da igreja construída por negros escravizados e uma rainha africana “tornando-se” branca é muito forte. Fora que o espaço restaurado contribui e muito para a cenografia.


Escrito por Aninha Franco e Marcos Dias, o texto de A Comida de Nzinga é ágil. Mistura muito bem as referencias africanas e a baianidade nossa de cada dia em um só lugar. Os autores sabem que a diferença entre África e Bahia é quase nula e que a gente vista lá não é diferente do povo daqui. Apesar disso, o texto escorrega em um ponto: a forma como fala sobre a escravidão de negro para negro. De africano para africano.
Nzinga foi rainha de uma civilização grandiosa, toda civilização grandiosa antiga utilizou da escravidão. O problema é justamente o porque. Em um tempo onde AINDA se discute muito a “contradição” de negros que escravizaram outros negros, os autores, perderam oportunidade enorme de discutir isso pela primeira vez no teatro baiano de forma aprofundada. Digo isso, pois o texto é cheio de correlações entre a visão do passado “pelo passado” e a visão do mesmo por nós que estamos no presente.
Kia Mbandi é citado no texto pois “se aliou aos muzundu português pra trocar seus escravos por cachaça e fumos brasileiros” (Cena 8). Não é explicado no texto o por que isso. Por que um negro dava seu povo negro para outro fazer de escravo? Estamos falando de um texto em que, muito mais que se viva a situação, as personagens narram as histórias. Por que não responder essa pergunta de forma contundente, como o texto responde varias incógnitas na vida da Rainha? Porque foi uma escolha dos autores ué! Mas perderam uma oportunidade única de responder questionamentos como: Por que um negro escravizou outro negro? Por que eles entregavam o povo negro para o povo branco europeu? A escravidão africana compartilhava da mesma ideologia da europeia? Quais as diferenças? De africano para africano existia a coisificação do ser humano como na escravidão europeia?... Nzinga chama o irmão de fraco, logo depois ele não aguenta a força portuguesa indo pedir ajuda a ela e em seguida é relatado que ele ainda escraviza seus irmãos. As intenções dos personagens são históricas e pouco exploradas pelo texto. Fora que ela também é dona de atitudes discutíveis. Pois toda heroina/heroi é composta de contradições e é justamente isso que os humaniza. Nesse ponto o texto coloca os personagens no arquétipo bom/ruim. Desenvolver o tema, seria uma forma de “calar a boca” de muito liberal frustrado que insiste em dizer que escravidão é tudo a mesma coisa e que nós negros também castigamos nosso próprio povo...


E a cena do sapateado onde a batalha de Nzinga vs os Muzundu é mostrada continua impressionante e o ponto chave do espetáculo. Onde elenco se entrega por inteiro. As frases de efeito soltas por Nzinga e a movimentação do elenco... não tem como não se impressionar. Com certeza uma das soluções mais bem feitas do teatro baiano atual. E no tempo onde as soluções dos diretores são resumidas a projeções em telões, ver um teatro analogicamente criativo é um alivio!

Vale a pena ver Nzinga reinar! Junto a ela, reina o público pois aprende, compartilha sentimentos, vê a luta de si mostrada por um outro parecido nos palcos. Vê e sonha! Nzinga tem fome, mas a cada espetáculo nos dá muito que comer!







quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Power de Courtney Kemp Agboh

Se tem uma coisa que 50 Cent gosta de falar é sobre poder. Seus filmes, sua música, falam muito sobre este assunto. Nada de muito profundo. O rap do cantor não é do tipo que vai fazer o público transgredir. É fútil, esnobe, violento e faz sucesso! Não estranho nada o fato do assunto principal de uma série produzida por ele ser o poder a qualquer custo. E o produto final é bom.
Mas o trunfo da série não está no rapper, que faz um personagem na trama, mas está longe de pertencer ao núcleo principal. A forma como a roteirista Courtney Kemp Agboh conduz a história é que faz toda a diferença. Kemp pega elementos clichês e conduz isso num ritmo totalmente sedutor. O roteiro não mostra reviravoltas espetaculares, mas entrega informações que pouco a pouco vão conduzindo o espectador a perceber relações chaves na história.
Em Power, Omari Hardwick, vive o bem sucedido empresário James St Patrick, dono de uma das melhores boates da cidade de New York. Bonito, rico, elegante, chefe de uma família bem estruturada, James mantém por baixo dos panos outra vida. Uma carreira, também bem sucedida, no tráfico de drogas. Neste novo mundo ele é o traficante Ghost. Um negócio serve para acobertar o outro. Mas James, logo no começo da série, já demonstra sinais que para ele a carreira de traficante precisa chegar ao fim.
A cada capítulo vemos a tentativa de James se afastar do mundo do tráfico, que se intensifica com a chegada de um antigo amor, a latina Ângela. Ele não sabe, mas esse amor que chega (E claro, começam um caso! Rs) é na verdade agente da C.I.A e investiga uma organização de traficantes que age na cidade de New York controlando várias frentes do crime...
Ou seja, a velha história dos amantes que pertencem a mundos diferentes, não poderiam estar juntos, tudo pode acabar da pior forma possível, mas seguem firme e forte. A formula de manter essa historia aberta ao público desde o começo, instiga o espectador de ver o que acontecerá quando os dois souberem um do mundo do outro...
Mas não se engane com o romance... Ninguém, eu disse, ninguém presta nessa série. Brancos, negros, mulheres, homens, héteros, gays, ninguém vale nada e muitos são do pior escalão possível de periculosidade. Aliás, me surpreendi quando o pior de todos é um homem gay, efeminado, que é levado a sério e todo mundo se caga quando fala o nome dele...
Nature Noughton, bela interpretação e o
ator principal da série Omari Hardwick
Além do roteiro, que apesar de batido é bem conduzido, o elenco é bom também. Omari foi feito para fazer o tipo de homem que por mais que a situação tenha saído do controle, mantém a pose direitinho. Sabe o tipo, atormentado bonitão? Pois é! Esse tipo de papel ele faz muito bem. 50 Cent vive uma variação de si mesmo. Mas quem se destaca realmente, são Nature Naughton, atriz que vive a esposa e mãe dos dois filhos de James e o amigo e sócio dele, encarnado pelo ator Joseph Sikora. Os dois encarnam os melhores diálogos, as melhores performances e a construção dos personagens deles é milimétrica e crescente. Muitos atores começam e terminam a primeira temporada da mesma forma, mas esses dois atores, conduzem tudo num arco muito bem feito.
Bom frisar também sobre as cenas de sexo da série. Sem grandes moralismos. No começo fiquei me perguntando se era um artifício para conseguir audiência (e sim era!), mas depois vendo a primeira temporada toda e o desenvolvimento dos personagens, as cenas realmente cabiam. É bom notar como James faz sexo com cada mulher. Como ele começa de forma extremamente bruta com a esposa e depois com a amante. Nos outros capítulos, ele está presente na cama de forma diferente com cada uma e a forma também como é filmada as cenas de sexo vai mudando capitulo a capitulo. Essas cenas também desaparecem, conforme a história fica mais concisa. E sim, todo mundo nu!

A primeira temporada de Power teve 8 episódios. Cada um com pouco mais de 50 minutos. Tem seus altos e baixos na trama. Mas a boa condução fez com que a série fosse renovada para a segunda temporada, onde terá dois episódios a mais que a primeira. Mas só em 2015. Gostei de saber da renovação, pois o final deixa brechas grandes de todos os personagens, além da promessa do crescimento do personagem feito pelo seu principal e mais famoso produtor...

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

O Complexo (?) e as Nega...



Não era pra ser essa avalanche, mas foi. A série O Sexo e as Nega de Miguel Falabella, passou, da noite pro dia, de um mero produto global escapista e com pouca atenção, à série do momento, com direito a campanha avassaladora da emissora. A culpa de quem foi? Nossa! Simples assim.
Tenho um histórico com Miguel bastante curioso. Era fã de seu trabalho. Mesmo! Ele esteve muito presente como galã em novelas de sucesso como A Viagem e “interpretando” Caco Antibes no humorístico Sai de Baixo, além do clássico global As Noivas de Copa Copacabana. Aos poucos, com o passar dos anos, ao lado da sua companheira de ofício (até então) Maria Carmem Barbosa, Miguel foi construído uma solida carreira como autor com obras significantes como Tv Pirata, Delegacia de Mulheres e Salsa e Merengue. Sempre no clima escrachado, sempre com personagens pitorescos.
Até que um dia, influenciado por este histórico absurdamente divertido, comprei um livro, reunião de peças suas e de Carmem, chamado Querido Mundo e Outras Peças. As peças são ótimas, destaque para a que leva o título da coletânea e a última Síndromes (pequena obra prima), mas lendo os textos, reparei que aqui e ali Miguel utilizava de pequenas mostras de humor preconceituoso. Não é nada grave, que gere uma denuncia, mas desanimei bastante. A Lua Me Disse, depois, só veio para comprometer mais ainda minha admiração... Novela com personagens negros que dava vontade de vomitar quando via!...
A partir de 2008, Miguel fica só nas autorias de seus trabalhos e encarna o que eu acho sua fase não muito boa. Negocio da China, A Vida Alheia, Aquele Beijo, não são lá essas coca cola toda! Até que veio Pé na Cova (mistura descarada de A Família Adams e A Sete Palmos) e um novo autor ressurgiu. Pé na jaca assumidamente e incrivelmente bom! Os personagens são tão bizarros e são ótimos.
Aí chegamos em O Sexo e as Nega, mais uma serie de Miguel no subúrbio, mas agora ele resolve inovar e colocar 4 heroínas negras e divulga referencia direta com Sex and The City. Cheirei problema desde o início. Miguel nunca foi um exemplo em se tratar de negritude, não por falta de discurso, o liberal ele tem, mas é justamente esse o problema, seu discurso é liberal frustrado e cai sempre em aspectos clichês. Seus personagens negros são subalternos. Não no aspecto social, pois ele coloca negros ascendentes e ricos, mas racialmente falando eles são diminutos.
E a partir que a Globo solta a sinopse da série, começa uma enchente de vídeos, fotos em redes sociais diversas de pessoas protestando uma série que nem começou... Por que? Por conta do histórico do autor, seu tratamento com personagens negros, a abordagem que dava a negritude (quando dava...). A origem dos protestos era justamente ELE, não a série em si, pois ninguém tinha visto nada ué...
Começou então uma guerra. A então série desacreditada pela própria emissora, passou a ser um “carro chefe”, em uma esperta campanha de marketing feita para virar de cabeça pra baixo a imagem de um Miguel racista e coloca-lo como homem bom, melhor branco bom. A partir daí veio o clichê... Ele com carta aberta no Facebook dando uma de branco bom, ou Princesa Isabel, você escolhe. Gente da classe artística defendendo ele, negros da classe artística defendendo ele como se ele fosse uma Dona Benta moderna, sabe?! Aquela que dá emprego à pretinha, mas mantém a tal preta no “lugar dela”... Encheção de linguiça em programas da Globo dando ênfase a série e fazendo do protesto uma besteira sem limites...
Nisso, os pretos, antes todos unidos contra o racismo começaram a se dividir, brigando ou defendendo o tal do Miguellito. Nos textos, nos dizeres, palavras como CALMA, COMPLEXO, ou expressões como TUDO É RACISMO, ESSE POVO COMPLEXADO estavam lá presentes. O problema é nosso. As nega do seriado tem orgulho da sua negritude. Colocam o cabelo pra cima, sensualizam, são felizes morando na favela (ops, comunidade...), tem orgulho disso e você que não concorda, não concorda pois é complexada (o). o problema sempre é nosso, o passado de Miguel não conta e a tentativa dele se auto promover como homem bom foi engolida por muitos.
E aí a série estreia. Tarde da noite. Muita expectativa. Será que o produto era racista, ou íamos tomar na cara e a série seria um acontecimento na nova safra de séries globais?... O que se viu foi mais do mesmo:
1)      É sério que a tal comunidade começou daquela forma?... Historicamente é duvidoso que uma favela carioca, no início do século XX, foi construída por pessoas brancas...
2)      Todos os personagens são subalternos? É serio? Todos????? Brancos e negros não escapam do “favelismo” global...
3)      Soraia, a do black vermelho, é cozinheira. Usa aquele cabelo black e os patrões não falam NADA? Kkkkkkk Aí pecou pelo excesso. Rs Todo mundo sabe que negros que estão nesse tipo de emprego são levados a cortarem/alisarem os cabelos por desejos dos patrões ou para não “assustar” os clientes. Miguel quer ser politicamente correto, mas perdeu a oportunidade de falar sobre isso na tv... Mas aí é esperar demais...
4)      Mais cedo no Bahia Meio Dia, Miguel foi entrevistado pelo jornalista Jonhy Torres e disse que a série recebeu criticas de gente que queria as negras com empregos nobres. E que ele não fez isso, pois seria chato abordar esse tipo de coisa. Então Scandal é chato? Um Maluco no Pedaço é chato? Elas E Eu, é chato? Noah’s Arc é chato? Hum...
5)      Personagens favelados sem grau de instrução DE NOVO? Mais uma vez, na tv brasileira, preto não tem grau de instrução superior. E acredite, na favela, os pretinhos e as pretinhas são universitários, não só trabalham pra comprar lata velha...
6)      É serio que na comunidade todo mundo fica com todo mundo? Uma das frases ditas por uma das personagens em pleno metrô. Tipo, todo mundo se pega e você tem que fazer a fila andar Kkkkkkkkk... E aquele discurso de Miguel de falar sobre a sexualização do povo negro, fica nisso aí? Hum...
7)      Se é realmente inspirado em Sex And The City (que eu gostava e vi TODAS as temporadas)... Onde estão as cenas de sexo de cair o queixo? Onde está o feminismo fútil característica da série? Onde está o corpo masculino evidenciado como mero objeto sexual para o feminino?
8)      Ainda sobre Sex And The City... a série inspiração não tinha lugar pra homem. Eram protagonistas femininas, elas narravam TUDO, elas comandavam cada pedaço da série. Em O Sexo e as Nega os homens são o centro das atenções. Não por acaso um dos caras fala: no fundo elas querem homem... Série de protagonismo feminino onde os homens comandam... Hum tá rs!
9)      O texto me surpreendeu... Pela primeira vez vejo um trabalho de Miguel que não é engraçado. E a série foi vendida como divertida, mas é tudo menos isso. A única coisa boa é (PASMÉM) a gaúcha!!!!!!
No final de tanta polemica, vi uma série com piloto fraco. Miguel é bom (sim acho ele realmente bom) despirocando no texto, pirando mesmo, não sendo politicamente correto. Se você curtiu produtos negros globais como O Paí Ó se jogue, essa série foi feita pra você! Do contrário, assine uma Sky, Net, Netflix e se divirta com personagens negros estadunidenses. Por que os daqui... Nada de representação!!!!!!!!!
Agora é aguardar os próximos capítulos, com Miguel correndo atrás para dar um jeito no roteiro e finalizar a primeira temporada da série com o mínimo de dignidade, para ele é claro, se valendo de discursos clichês e evidenciando novamente uma negritude subalterna. Coisa que ele sabe bem fazer...

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

UMA LIÇÃO DE VIDA. Trailer



Filmes que propagam a "pedagogia do herói" não são do tipo que adoro propagar, mas esse parece ser diferente. Explico, filmes da pedagogia do herói, são aqueles filmes em que o professor encontra turma desajustada, geralmente em bairros pobres, todos grandes delinquentes. Depois de um grande conflito inicial, os alunos se rendem ao seu método revolucionário, acabam se ajustando e tomando jeito. Ou seja, o professor é um SUPER herói. Fazem parte desse "gênero", Mentes Perigosas, Mudança de Hábito 2, Ao Mestre Com Carinho... Sim, você já viu o mesmo filme um monte de vez...
Esse Uma Lição de Vida vai por um caminho diferente. Me parece, pelo trailer, que o ponto de vista principal é do aluno e não da professora...
Fica a dica! Vou ver. Espero que não seja igual aos outros...
O filme é baseado em história real, por isso acredito no potencial dele... Um senhor castigado nos tempos de segregação racial resolve voltar aos estudos, incitando a ira de muitas cabeças conservadoras... A produção é do diretor de Mandela - O Caminho Para  Liberdade, com Idris Elba. Veja o trailer.



sábado, 9 de agosto de 2014

Entrevista: Deo Cardoso. Um Guerreiro Cineasta!!!!!! Parte 1

Deo Cardoso é um homem de talento ímpar. Conheci seu trabalho através do You Tube e me emocionei bastante com o primeiro filme dele que vi; “Pode Me Chamar de Nadi” uma história de superação contada de forma singela. Emoção que te faz sorrir, sabe? Resolvi, na cara de pau (quem me conhece sabe que tenho e me orgulho disso!) pedir uma entrevista a ele ao meu humilde blog. E ele não deu uma entrevista... Mas sim uma aula sobre cinema!!! No meio da agenda corrida, por conta da preparação do seu próximo filme, ele arrumou um tempinho e respondeu a todas minhas perguntas. Não cortei nada, impossível cortar. Para que cortar? A gente já é silenciado demais... Então leia abaixo o que este cineasta de 37 anos (nem parece...), nascido em Madison EUA e que vive pertinho da gente em Fortaleza, tem a dizer sobre cinema, negritude, cinema, militância, rap e... cinema, é claro!

...



Existe uma nova leva de cineastas no Brasil, que falam de suas mazelas sociais. Uma parcela desses profissionais tem coragem de falar sobre racismo abertamente. Como você escolheu o discurso contra a discriminação para atuar junto a seu trabalho? Como é a “forma Deo Cardoso” de tratar o racismo no cinema?

Não considero bem uma escolha. Não acho que “escolhi” o que melhor me convém pra se falar da questão racial, e sim algo que é a nossa condição e vivência. Algo em primeira pessoa, entende? Mas entendo porque você usou esse verbo. Essa escolha, por assim dizer, se deu por uma questão existencial e política mesmo. Essa coisa de ter nascido nos Estados Unidos e de ter passado a infância entre o contexto de orgulho negro norte-americano e o “racismo cordial” brasileiro gerou em mim uma série de questionamentos desde que eu era pivete.

Eu perguntava pros meus pais (brasileiros) o porquê que, no Brasil, diziam que eu era moreno e nos Estados Unidos diziam que eu era “black”? Daí comecei a questionar porque que as pessoas mais escuras eram as mais humildes e injustiçadas, e que mais sofriam condições sociais desfavoráveis. Desde cedo percebi que muitas coisas eram mais difíceis pra pessoas da minha cor e mais escuras que eu, tanto lá nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil. E assim, essa formação social e racial mais crítica foi se desenvolvendo na minha mente, e foi se refletindo nas minhas primeiras produções artísticas (contos, poemas e desenhos em quadrinhos). E isso foi ficando, ficando, e virou uma missão mesmo. Por isso não foi bem uma escolha, faz parte da minha identidade e formação pessoal. 


Existe uma frase do grande cineasta baiano Glauber Rocha que diz: “a função do artista é violentar”. Frase um tanto pesada, mas acho que o que ele realmente queria dizer é que a função do artista é trazer à tona questões que nos afligem enquanto seres humanos, no intuito de provocar debates e evoluirmos enquanto seres dotados de consciência. Portanto, para a minha arte, esse discurso da discriminação e do preconceito é necessário pelo potencial emancipatório que o tema traz. A intolerância ao “diferente” (etnia, religião, classe, região, gênero, etc.) é um mal da nossa civilização e isso é histórico. Mas acredito que uma arte que trate abertamente dessas intolerâncias, de uma forma sublime e poética, pode ser tão ou mais “violenta” que um filme de confronto aberto e direto, exatamente pelo poder transformador (e libertador) que uma abordagem simples e poética tem.

Então, não tenho uma forma engessada de trabalhar a questão do racismo em meus filmes. Até aqui, optei por uma abordagem que busque tocar o sentimento humanista das pessoas. São filmes-crônicas. Filmes que abordem nossos dilemas, ora com ternura (como no caso de “Pode Me Chamar de Nadí”), ora com humor e sarcasmo (como no caso de “Cappuccino com Canela”). Mas estou com meu primeiro roteiro de longa-metragem pronto há 2 anos, já orçado, louco pra produzi-lo imediatamente, e esse filme é um filme de confronto político mesmo, de um discurso forte contra o que estão fazendo com a juventude negra brasileira. Tem hora que é preciso desabafar pra ver se alguns absurdos que as pessoas naturalizam sejam devidamente debatidos e transformados. Há dois anos tento fazer esse filme, mas é difícil conseguir apoio. Não tenho muita habilidade política de captar recursos, então, tô vendo aí como faço. Só sei que preciso realizar esse filme urgente. 

Deo no set. do curta Pode Me Chamar de Nadi

Vi dois curtas seus no You Tube, veiculo bastante usado por cineastas independentes para divulgação de seu trabalho. A meu ver, possibilita que um número maior de pessoas veja seus filmes, sem a barreira da exibição em salas de cinema pelo país.  Quando faz seus filmes, já se preocupa com essa nova ferramenta? Fazer enquadramentos, cortes, cenas a partir da perspectiva de alguém que vai ver seu trabalho pela net?

Sim, sim. Já realizo meus filmes com isso na mente. Criar tendo o “youtube” ou o “vimeo” na mente altera um pouco a estética da coisa. Imagino alguém assistindo um filme pelo celular, dentro do ônibus, por exemplo. Então, não posso demorar muito num plano. As sequências precisam ser ritmadas. Diálogos precisos. Tudo muito musicado, caprichado, até porque nosso povo tá sempre em movimento, atrás de um emprego, indo pra aula, zuando com os colegas, etc. Tem que ser malandro no sentido positivo da palavra. Ter jogo de cintura, sambar com a situação. Penso em tudo isso sim. Já outros elementos audiovisuais precisam do mesmo cuidado: uma boa composição, uma boa atuação (mesmo eu adorando trabalhar com atores não profissionais, o que, a meu ver, proporciona uma atuação ainda melhor, mais naturalista e documental).

E como trabalho uma temática “guetificada”, não entro muito em festivais. Parece que existe uma cota pra filmes de determinadas temáticas. Parece que a lógica de alguns desses festivais de maior porte é uma porcentagem pra filmes gays, outra pra filmes negros, outra pra filmes feministas, etc. Portanto, gosto da independência de fazer um filme e divulga-lo via youtube. Quando lancei “Cappuccino com Canela” no início de 2014, por exemplo, fiz uma tímida divulgação pelo facebook e, em uma tarde, o filme conseguiu mais de 400 visualizações. Pra mim tá ótimo, pois é como se em uma tarde, uma sala de cinema lotada assistisse o curta.

Em Pode Me Chamar de Nadi, a discriminação racial sofrida pela personagem principal é algo bastante brasileiro. Cotidiana, mas “invisível”, não é direta, pois é feita para silenciar, como a Nadi muitas vezes emudece. A forma como você introduz o tema para a plateia é extremamente sutil... Como foi o processo de construção do roteiro e a introdução do tema na historia?

Até hoje minhas histórias sempre partem de sentimentos que vivencio quando estou inserido em alguma situação real. Lembro-me de ter escrito, com muita raiva, o primeiro tratamento do roteiro de “Pode me Chamar de Nadí” a 5 anos atrás. A Nadí não é somente uma personagem. Ela existe e interpretou a si mesma no filme. À época do filme, Nadí morava na mesma rua que eu e era muito próxima de mim e da minha família. Por ter uma pele bem escura, o racismo que ela sofria era diário e latente.

Construí o roteiro após ter sido testemunha ocular de uma situação em que a Nadí, ao voltar do colégio com seus colegas e irmãos, sofria piadinhas racistas referentes a seu cabelo. Piadinhas que, infelizmente, são tão comuns no ambiente escolar. E Nadí, com sua personalidade forte, me deu um abraço e disse que não aguentava mais aquilo. Ela tinha 9 anos à época. Foi quando eu disse a ela que os meninos iriam se surpreender quando ela virasse uma linda atriz de cinema. Então, escrevi o roteiro movido por dois sentimentos latentes: uma profunda raiva (em imaginar os traumas psicológicos provocados pelo racismo, que uma menina negra precisa enfrentar desde cedo) e por um sentimento de enorme carinho que aprendi a ter pela Nadí, que tem naturalmente o carisma, a simpatia e a personalidade que a Nadí do filme tem. Ali ela está sendo ela. O lado agressivo e o lado doce.

Assim que eu tive uma versão pronta do roteiro, antes mesmo de ser contemplado no edital da secretaria de cultura do estado do Ceará aquele ano, eu mostrei a história pra ela. Mas eu não tinha a dimensão do que estaria por vir. Ela muito menos. Então tudo era muito vago. Não sabíamos se o filme iria ser feito. Não tínhamos essa garantia. Eu já tava pensando em fazer como eu faço hoje: filmes na raça, sem grana com os amigos e amigas. Mas quando o filme foi contemplado pelo edital, pudemos fazer um filme extremamente profissional e acho que conseguimos passar aquele sentimento de ternura e magia de uma pessoa que, pelo menos naquele recorte dramático, superou o racismo graças ao apoio de outra pessoa negra, mostrando que Steve Biko estava certo: Estamos por nossa própria conta. Somos nossa própria força e superação.


Momento de descontração em meio aos trabalhos


Em sua opinião, qual a cara que o cinema brasileiro atual, quer passar sobre o Brasil para o seu público?

O cinema brasileiro atual é muito diversificado, criativo e extremamente bem elaborado. Certamente não estamos em uma fase ingênua. Tanto o cineasta que está ali à margem do mercado, quanto o que está produzindo dentro do mercado nacional sabem que o cinema não é mais engessado em si, e que dialoga com as novas mídias e novos formatos.

Apesar da tradição clássica e ficcional do cinema ainda dominar o mercado, o mainstream, como falam (a corrente principal e predominante que flerta com as massas), temos também um cinema que busca refletir a questão da imagem, de transitar entre gêneros e formatos. Um cinema que se pensa inserido no contexto de um país emergente que somos. Então, num recorte de cinema ficcional, eu só posso falar de que cara o cinema brasileiro atual procura passar se eu analisar as intenções estéticas e mercadológicas de cada segmento. Só posso falar das impressões que eu tenho, que podem estar equivocadas, claro. Mas a impressão que tenho é a de que, pelo menos no aspecto mercadológico, o cinema brasileiro atual, em seu obvio objetivo de ganhar terreno dentre as produções hegemônicas americanas, acaba realizando um cinema de extrema qualidade técnica, mas buscando reproduzir o que o cinema hegemônico hollywoodiano já faz, principalmente no campo da comédia. Então, o público de cinema brasileiro acaba condenado a consumir filmes com o padrão de qualidade da maior e mais poderosa emissora de TV do Brasil, que entra com seu poder publicitário massivo, reproduzindo pro cinema um padrão televisivo, sem maiores riscos comerciais.

Acho que, salvo algumas exceções, o cinema mainstream brasileiro está numa fase de autoafirmação, ou seja, busca mostrar a cara de sua qualidade técnica, ostentando roteiros bem amarrados, porém esvaziado de temas que busquem dar um sacode nas pessoas. É claro que falo isso num sentido geral, pois vez por outra esse cinema mais “comercial”, por assim dizer, surge dando um sopapo no senso comum, em filmes como Tropa de Elite (I e II), Cidade de Deus, Uma Onda no Ar, etc. No outro polo, temos uma pulsante produção independente país afora. Coletivos de cineastas/colaboradores que pululam em festivais nacionais e internacionais, representando muito bem seus pensamentos críticos/estéticos, sem ter sua estrutura dramática subordinada e engessada a uma fórmula de mercado. Aí destaco a produção do realizador da Ceilândia Adirley Queiroz e seu maravilhoso longa Branco Sai, Preto Fica, que quebra essa linearidade narrativa trazendo um cinema enérgico e que transita entre ficção e documentário, que também dialoga com o hip-hop de seu bairro, Ceilândia, Distrito Federal.

Mas vou te confessar que o cinema que mais me agrada no momento é a recente safra pernambucana. Um cinema que eu coloco no meio termo entre o cinema estritamente comercial, e o cinema estritamente de experimentação de linguagem. O cinema pernambucano me fascina por estar sempre em busca de uma independência narrativa. Essa coisa fervente (ou FREVENTE, relativo ao frevo) que a tradição artístico-cultural pernambucana traz ao longo da história está explicitamente impresso nos filmes daquele estado. Gosto demais dos filmes de Claudio Assis, (em especial Febre do Rato), Lírio Ferreira (Baile Perfumado), Paulo Caldas (Deserto Feliz), Hilton Lacerda (tatuagem), etc.

É a “escola” de cinema nacional contemporânea que eu mais me identifico no momento. Embora exista muita coisa que eu precise conhecer mais. Confesso que nos últimos dois anos, foquei mais em produzir e ensinar do que em acompanhar as novidades e lançamentos do nosso cinema independente.