terça-feira, 13 de dezembro de 2011

O Artista Negro... Um Subalterno?...

Beyonça? Não é a Negalora!!!!!
Dois acontecimentos recentes me motivaram a fazer esta postagem. O caso Negalora da cantora Cláudia Leite e o episódio do seriado A Grande Família com o ator baiano Ângelo Flávio semanas atrás. Poderia muito bem fazer um post sobre cada um dos acontecimentos, mas resolvi juntar, pois apesar de distintos, os dois concretizam muito bem a situação em que encontram os artistas negros no país.
O primeiro caso descrito, toma conta das redes sociais como se fosse um câncer. Já virou quase rotina zuar da cara da cantora Cláudia Leite, pois é extremamente fácil fazer este tipo de coisa com uma cantora que não tem identidade musical e que das poucas coisas que possui é o total controle do nonsense... Dizem que a cantora passou a vida imitando outra, Ivete Sangalo e agora junto a um projeto intimista (divulgado por toda cidade com erros ortográficos) lança este Negalora, edificado por Carlinhos Brown e motivado – segundo ela em uma entrevista – pelo carinho que sentia de sua mãe preta, uma babá que cuidou de sua família durante algum tempo.
O outro, que a maioria deve ter esquecido, foi o episodio Um Conto Africano, com premissa perfeita, mas execução não tão completa assim. O episodio tratava da chegada de um estrangeiro, chamado Tabu Massai, que se envolve em um acidente motivado pelo personagem Agostinho no seu taxi. Para provar sua inocência, Agostinho pede a Tabu depor a seu favor. Mas o africano só fala o dialeto suáile, e a comunicação entre os dois fica impossível. Agostinho então leva o estrangeiro para sua casa até que ele aprenda a falar algumas palavras em português e possa testemunhar a seu favor. A partir daí só confusão bem ao estilo A Grande Família de ser. E onde está o problema?!... Que suáile que ele estava falando?! De que planeta era aquela língua? Tive até dúvidas se era ou não a língua, mais por conta do ator envolto no episódio, que pelo respeito que a Globo tem pelos negros deste país. Mas em uma cena com o ator Luis Miranda ficou provado que o suáile era de circo mesmo. Além que a composição do estrangeiro parecia saída de um episódio do Pica Pau. O que seguiu foi a boa e velha África vista pelo prisma de uma emissora que está disposta a provar que o continente africano quando não é pobre espírita e economicamente, serve para nós como fonte de palhaçaria...
Juntando estes dois fatos criados pela mídia nos últimos dias, me vêem a cabeça mais perguntas que respostas. Que tipo de cultura negra é produzida no Brasil? E para quem é construída esta “cultura” de raízes africanas? Existem negritudes culturais no Brasil, mas quem toma conta delas no final das contas? Até onde fica o limite entre criatividade e total desrespeito pela nossa cultura? Será mesmo que a culpada é sempre a Globo, ou Record, ou SBT ou seja lá que emissora for ou eu que me envolvo em tal e tal projeto? E se eu não me envolver neste projeto que achei de péssimo tom, outro ator virá, pois aparecer em rede nacional é um bom chamariz?! Existe cultura negra, de grande porte, com bases de comando negro no Brasil? E o artista branco... Qual o lugar do artista branco na cultura negra brasileira. Ele pode chegar, se travestir e fazer tudo que vier a sua cabeça?...
Pode! A partir da resposta da ultima pergunta, deixo claro o caminho para as respostas das outras. O artista branco no Brasil pode tudo, principalmente se transfigurar. Ele se transforma no que quiser. Índio, negro, branco (!), chinês, é tudo... Na hora que bem entender. Já falei disso neste blog AQUI. Não é a toa que a cantora Claudia Leite agora – revivendo os tempos áureos de Daniela Mercury (tida por alguns como grande guardiã da cultura negra na Bahia (!!??)) – deu de leoa homenageando o continente mãe. Isso será desenvolvido no Carnaval, quando Claudia em cima do trio homenageará a cultura negra e africana. Espero de um tudo minha gente, até Extravasa, sucesso (?) dela, em ioruba, até ela entrando em plena avenida com dançarinos vestidos de aborígenes...
Nós somos subalternos. Vemos a nossa cultura desmazelada e na maioria das vezes não fazemos muita coisa. Não estamos nos espaços de poder, afinal de contas quantos diretores/produtores/roteiristas negros com poder real existem neste país? O musical A Cor Púrpura esta sendo produzido por brancos. Isso é ruim? Não! Mas por que no seu país de origem, onde os negros são 11% da população, o musical é comandado por aqueles que sentem e vivem esta cultura no seu dia a dia? Isso não te faz pensar em nada? Dentro da nossa cultura somos meros empregados! Isso é fato.
Estou chamando muito mais nossa responsabilidade nisso tudo que somente por a culpa na cúpula da cantora Claudia Leite e na rede Globo. Julgar os pais do sistema é fácil, mas virar para o próprio umbigo e assumir que também temos culpa isso não é. Os brancos de todo mundo se apropriam da cultura negra, não é de hoje que fazem isso. Mas em certos lugares eles não entram tão faceiros como os daqui. Aqui há uma mistura entre apropriação dos brancos, travestida de simples estética, e também um convite de alguns setores negros em que o branco entra nos aspectos mais profundos.
Outro ponto a frisar é: Não somos patrocinadores da nossa cultura. Poucas instituições negras patrocinam – não estou falando de apoio, falo aqui de outro aspecto – espetáculos, shows, programas de TV, filmes com temática negra. Até por que quem é que possui o dim dim neste Brasil guaranil?... A situação dos negros neste país é bem situada através da era Lula, onde a periferia aumentou seu status. Ou seja, o negro ascende, tem carro, TV de plasma, faz curso superior, mas não sai da periferia. E frustrado, transfigura esse “ficar” em orgulho de viver no gueto. Mas morre de inveja do branco que reside em outro lugar. Fanon já falava isso tempos atrás... no caso dos artistas, existem muitos com ergonha na cara por aí, mas quem assina o cheque deles? Dá o verbo quem tem a verba, caro leitor.
Quem patrocina nossos espetáculos? O branco! Quem diz como devemos atuar como negros em filmes negros? O branco. Quem tem o poder de transformar o local em universal? O branco! Quem diz que é bom perpetuar o estilo “Pica Pau” africano de ser? O branco! Quem se traveste do que quiser? O branco! Quem construiu o mito da democracia racial? O branco. Quem se ofende quando só tem a chance de assistir e não de mandar/comandar as produções negras? O branco. Quem faz voce sair de seu estado, onde gritava pela melhoria da dramaturgia/produção negra, para ir ao sudeste do país fazer papel de empregada doméstica cheia de sotaque e subalternidade em novela global? O BRANCO???... Sei... Senta lá Claudia...

2 comentários:

Psi em Potencial disse...

Adorei o Post! Concordo com tudo! Vamos parar pensar e tentar mudar esse nosso mundo comandado pelos brancos!

Camila Fernanda disse...

Excelente Texto! Seu blog é ótimo.