segunda-feira, 9 de janeiro de 2012

For Colored Girls

  

 Frases sombrias de uma mulher que não teve adolescência / Notas dispersas , sem ritmo - em uma sintonia confusa, o fardo que recai em uma garota negra/É engraçada e histérica a melodia dessa dança/ Não diga a ninguém - a ninguém..../Outra música sem cantoras , letras sem vozes.../somos fantasmas ? As crianças do horror ? Uma piada ?...Não diga a ninguém, fique calada... /Somos animais ? Enloquecemos ? Não ouço nada além de gritos loucos e o suave som da morte.../


Os primeiros minutos de For Colored Girls – sem tradução para o português, pois o filme não foi lançado por aqui nem em DVD – são de uma genialidade impressionante. O longa, baseado no Livro For Colored Girls: Who Have Considered Suicide When the Rainbow is Enu” de Ntozake Shange, logo depois virando musical nos EUA, é uma coletânea de 20 poemas sobre as angústias, alegrias, vivencias enfim de mulheres negras nos Estados Unidos. For Colored Girls transforma um arquétipo batido do cinema – várias histórias que se cruzam – em um roteiro interessante, intercalado pelos poemas de Shange, diga-se de passagem lindos e inseridos dentro do filme de uma forma única.
No elenco, nomes como Thandie Newton, Whoopi Goldberg, Anika Noni Rose, Omari Hardwick, Kerry Washington, Janet Jackson, Loretta Devine, Kimberly Elise, Phylicia Rashad, Tessa Thompson, Macy Gray, Richard Lawson. Ou seja, a nata dos atores negros que se envolveram no projeto seja por conta do cineasta/produtor Tyler Perry ou pelo significado do livro junto a comunidade negra norte americana. Desde o começo, quando Tyler pegou o projeto por ser o novo queridinho da LionsGate Studios já que produziu Preciosa e este foi ao Oscar, o filme nasceu como clássico. Algo com um elenco desta categoria não tem como dar errado, tem? Bem...
Vamos por partes. Analisando friamente For Colored Girls é um filme bom! O texto e as atuações são simplesmente fenomenais. O roteiro de Ntozake Shange e Nzingha Stewart mistura divinamente os poemas à trama com uma naturalidade impressionante. Fora as atrizes que recitam os poemas da forma como poemas devem ser recitados, sem pompa, sem a grandiosidade de uma atuação marcada, elas convencem pela simplicidade e sem excessos. Em uma salada magnífica de personagens as historias de nove mulheres são expostas na tela.
Eu no começo fiquei com medo... Como esses poemas serão recitados em um filme? Como uma peça onde as personagens não tem nome vão ser traduzidas em tela grande? Mas tudo é composto de uma forma tão bonita que convence realmente.
Janet Jackson interpreta a dama vermelha, Jô; fria, calculista, mandona, editora de uma grande revista, esposa de um homem de negócios “emparedado” em sua masculinidade frente ao poder da esposa.  O cenário em que Janet está é branco, gelo, frio, contrastando com o vermelho da sua rigidez. Juanita (Loreta Devine. Sempre ótima!), ou a dama verde, é viva, auto suficiente e vive um grande dilema, dá aulas de auto estima, dicas de prevenção a mulheres negras e latinas em uma ONG, mas vive em crise em seu relacionamento com um namorado que sempre a trai em vários sentidos. Yasmine ( Anika Noni Rose (Òtima!)) , a dama amarela é delicada, dança como ninguém, frágil e inocente, mas vai se transformar por conta de algo que contando estraga. Tangie (Tandie Newton (quem vem crescendo nos últimos anos seu nível)), a dama laranja, é uma mulher que vive no âmbito amoral. Mas o espectador não sabe se sua vontade de ter vários homens em sua cama é uma escolha de vida ou algum traço ruim/marcante da sua trajetória não resolvido. Alice (Whoopi Goldbert (magnífica!)), a dama branca, é mãe de Tangie e Nyla , fanática religiosa, tem um amor incondicional pela filha Nyla considerada por ela pura, mas sente desprezo por Tangie, pois não concorda com os atos pecaminosos da filha mais velha. Gilda (Phylicia Rashad), a dama cinza representa na trama o equilíbrio. Apesar de sua historia não ser tão bem desenvolvida quanto as das outras personagens sua interprete é fenomenal. Crystal (Kimberly Elise), a dama marron, é a personagem acho mais complexa e espertamente entregue a Elise, atriz dramática de qualidades fenomenais. Esposa de um homem alcoólatra, mãe de dois filhos que vêem ela sendo violentada diariamente... Explosão contida! Complexidade! Linda interpretação. Nyla (Tessa Thompson), a dama roxa – entra no filme para simbolizar a virada de uma menina virando mulher de verdade. E por fim, Kelly (Kerry Washington (não diz muito a que veio)) que tem um amor mágico, mas infelizmente não consegue ter filhos e sofre por conta disso.
Para realçar as cores e intenções das mesmas no filme, o diretor de fotografia de Alexander Gruszynski faz um trabalho brilhante. Tudo é tão cênico, mas tão real... Lindo! Você não vai reparar que toda aquela brancura do cenário de Janet é “teatro”. Já o trabalho de texto, friso, é simplesmente incrível, apesar de em alguns momentos ser proposital a forma como ele nos leva ao choro fácil. O elenco masculino também não fica atrás e é bem representado pelos atores em cena.
O problema do filme é justamente Tyler Perry, diretor e produtor de For Colored Girls. Diretor de O Diário de Uma Louca e Por Que Eu Me Casei? e produtor do oscarizável Preciosa, coloca sua mão por vezes pesada, por vezes “um nada” dentro de um projeto tão significativo. Traduzo: é nítido a falta de personalidade de um diretor que comanda grandes projetos com a cafonice de um filme feito para a TV sem identidade. Sim... Apesar do roteiro perfeito, uma direção de fotografia primorosa e um elenco talentoso e estelar... Tyler consegue fazer MERDA! Em que sentido? Ele não tem marca. Nem sensibilidade. Dirige tudo parecendo ser um filme para TV, não para cinema. Cinema é grande, alguém tem que gritar no ouvido dele isso. CINEMA É GRANDE! E Tyler consegue diminuir a obra.Fiquei imaginando a obra nas mãos de um... Spike Lee ou mesmo de uma cria de Tyler, Lee Daniels que dirigiu Preciosa. For Colored Girls cresceria infinitamente. Não é um defeito que corrompa o filme, mas deixa-o com cara de qualquer coisa. Tyler tem que agir mais como cineasta e é por isso que seus filmes são tão criticados, apesar de sempre fazerem sucesso junto a comunidade negra norte americana.
Felizmente a obra é mais forte que o cineasta e o projeto ganha vigor por conta do elenco e do roteiro bem acabado. Sim, o filme vai fazer você chorar. Sim, ele vai fazer pensar em certas formas como está levando sua vida. Sim, é feito para mulheres, mas toca e provoca os homens sem o ar do feminismo clichê revoltado. For Colored Girls é lindo!
No final, o filme reúne todo seu elenco e recita um dos poemas mais fortes do livro. E finaliza com a frase Pelas garotas negra , que pensaram em suícidio , mas conseguiram superar e deram ao volta por cima..." Superação sempre!!!!!!!!!

4 comentários:

Cabeças Falantes - Oubí Inaê Kibuko disse...

Salve. Parabéns pelo blog. Película Negra é um nome bem sugestivo. Decerto que ainda estou sob estado emocional e de overdose dupla. Mostra Bergman de um lado e Tyler Perry do outro. For Colored Girls, a exemplo das produções anteriores do mesmo diretor pode não ser um filme nota 10 e com direção magistral superior ou a altura dos grandes mestres do cinema afroamericano, engajados ou não. Mas pelo menos, entre altos e baixos, erros e acertos, o provocativo Tyler Perry está fazendo e encabeçando alguma coisa pela cinematografia negra mundial quase parecida com o mestre sueco (ator, autor, diretor, produtor), com certa regularidade e abrindo caminhos conjuntos para estrelas consagradas e novatos aspirantes. Uma experiência referencial e que não tem preço. Enquanto que aqui no Brasil...

Filipe Harpo disse...

Muito obrigado pelo elogio e também pelo comentário. Gosto do trabaho de Tyler. Pode não ser brilhante como quase todo filme de Spike Lee, mas é um trabalho correto e comprometido

Migh Danae. disse...

Tu acha os filmes de Spike Lee um primor?

Filipe Harpo disse...

Spike tem erros e acertos como qualquer cineasta... mas na prova dos nove ele vence rs... é meu cineasta preferido, pela estética e a forma como coloca na tela suas referencias