sábado, 27 de fevereiro de 2010

O TEMPO, O NEGRO E OS FILMES DE SUPERAÇÃO...

O tempo é um fator mágico que existe no cinema. É incrível que problemas ou questões que levariam muito tempo, anos até para serem resolvidas, em questão de pouco mais de duas horas são definidas de uma forma deixar tudo em ordem, sem grandes traumas, sem feridas e o principal, servindo sempre de exemplo, pois todo problema, fazendo uma força pode ser resolvido. Cortes, musica certa, roteiro enxuto, tudo perfeito para fazer o tempo algo bom de ser vivido.

Isso seria óbvio até. Uma das funções do cinema é nos passar lições, às vezes sermões, sobre determinadas dificuldades e como podemos superar tudo da melhor forma possível. E dentro de duas horas o cinema constrói a ilusão, convence você de que de alguma forma tem algo haver com aquilo – se identificando muita das vezes com os personagens da tela – resolve tudo em um piscar de olhos e o convence de que alguma forma pode fazer igual também. Além é claro de fazer você, depois de muito tempo acompanhando o sofrimento alheio, sorrir, sair do cinema coma cabeça fresca, fria, leve, tendo a certeza que tudo em fim acabou bem.

Um cinema Ph. D em fazer isso? O americano. Filmes de superação já deviam estar nas prateleiras das locadoras separados em gênero fílmico. Sessão de filmes dramáticos, de filmes de comedia e em algum lugar, talvez ao lado dos filmes de ação, os filmes de superação. Posso listar inúmeros. Uma lista interminável. Mas parece que com as crises (financeira e do terrorismo) que abalaram os EUA, os filmes deste porte vem ganhando uma atenção desmedida em Hollywood.

Estes filmes passam em pouco tempo um problema que pode (aparentemente) não ser solucionado de forma alguma, o sofrimento dos personagens para atenuar as situações e um final estupendo que faz tudo em questão de minutos ficar pronto e perfeito. Claro que um personagem principal cativante ajuda e muito ao público que às vezes realmente precisa de um ponta pé inicial, ou um filme de auto-ajuda.

Dentro deste “gênero” a maioria das produções do cinema negro está contida. Existe o racismo, grande vilão a ser combatido e o negro, visto como herói, guerreiro, lutador constante, que somente por ser negro, ou por acordar e não se deixar apagar pelo que a segregação te proporciona, tem que lutar e ser o bam bam bam da vez . Existem vários exemplos, a Celie de A Cor Púrpura, Sethe de A Bem Amada, o Mandela de Invictus, Effie de DreamGirls, o Biko de Um Grito de Liberdade, a menina que é fã de Nelson Mandela em Sarafina, o Chris Gardner em A Procura da Felicidade, a Tiana de A Princesa Sapo, a Rosalem de A Vida Secreta das Abelhas, quase todos os personagens de Spike Lee, a família Younger de O Sol Tornará a Brilhar, a Akeelah de Prova de Fogo, a Tina Turner de Tina – O Filme, quase todos os personagens de Sidney Pointer, a Irmã Deloris de Mudança de Hábito 2 etc... A lista é grande. Todos (veja que em sua maioria TODAS) movidos contra o racismo, que no cinema, às vezes, parece algo muito simples de ser resolvido (Invictus), ou até algo divertido (Hairspray). Todo mundo sabe que o racismo é algo muito difícil de ser solucionado, mas dentro de duas horas de filme, traumas, feridas, humilhações, violências, problemas, tudo é resolvido, para alivio do espectador aflito na sala de cinema em busca de uma resposta.

Mas qual espectador fica aliviado?... Que tipo de espectador fica aliviado com os caminhos escolhidos pelos roteiros de Um Grito de Liberdade ou Hairspray ou até mesmo o Invictus... Não vou falar da cor de determinado público agora, mas sim o espectador que quer manter-se de olhos bem fechados. Independente de sua cor, mas da forma como ele encara os problemas do mundo. Desta forma, para quem quer manter-se em decisões e debates ralos o tempo ilusório que o cinema propõe é mais do que o suficiente para tudo estar resolvido. O mesmo cinema que provoca, instiga, e abre a ferida, também fecha todos os martírios com chave de ouro.

Uma das poucas vezes, se não a única vez que não vi isto é com o concorrente a melhor filme ao Oscar deste ano, Preciosa – Um Historia de Esperança. Lee Daniels – segundo negro a ser candidato ao Oscar de diretor e primeiro a ter sua produção também indicada à melhor filme – não entrega o filme de forma fácil, não digere o filme para o espectador, não faz nada, somente apresenta a historia. E dá socos e ponta pés no publico não perdoando ninguém. Ele não quer saber se você é branco ou negro ou vai aprender alguma lição com o filme, ele tem uma forte historia nas mãos e vai despejar na sua frente sem dó nem piedade. Só isso. Se você conseguir tirar alguma lição do que viu, não foi propósito dele E é por isso que Preciosa funciona tanto como filme. Durante suas duas horas de projeção o tempo não agrada e nem desbanca para um final extremamente resolvido. Ele apenas acontece... E se você tem coragem, veja Preciosa! O tempo não para...

Um comentário:

oteorico disse...

Crítica impressionante! Minha visão de Cinema melhorou muito após ler um texto tão bem resolvido.
Desejo ser cineasta, se tiver oportunidade. Tenho até ideias para enredo já registradas. E a minha 1° ideia era sobre a superação de um negro brasileiro. Estou tendo o hábito de deixar meus enredos prontos para quando precisar. Ainda terei muito tempo para pensar se farei um filme mastigado ou deixar que o espectador mastigue por conta própria. Mas é preciso ter muito cuidado com filmes assim para que eles não fiquem melosos ou frescos demais, como em “Um Sonho Possível”, mas nada contra a esse filme, pois é muito lindo.