domingo, 19 de janeiro de 2014

Aos Meus Amigos Brancos...

Estou deixando o meu cabelo crescer. Depois de muito relutar em deixar minhas madeixas maiores, resolvi que em 2014 vou tentar criar o black dos meus sonhos. Esse movimento simples, em uma sociedade extremamente vaidosa já tem um abalo em pequenas proporções. Quando o cabelo cresce rápido, as pessoas reparam, falam, mexem, é uma beleza. Agora imagina isso tudo com o cabelo black... As pessoas reparam o crescimento com um olhar estranho, de reprovação e vez por outra, você encontra alguém que fala pra você sobre o incomodo que SEU cabelo causa nele de forma despretensiosa, mas bastante complicada. Com gente estranha a gente se vira, mas o problema é das pessoas que convivem conosco há bastante tempo a ponto de considerarmos elas nossos amigos...
Nesse caso, tenho um amigo (branco), que sempre que meu cabelo cresce ele inventa de por pra fora sua insatisfação com o mesmo: “O cabelo tá crescendo”, como se eu não soubesse, “Tá na hora de cortar o cabelo rapaz!”, como se eu precisasse da paternidade dele nesse sentido. Ele sempre fala com um movimento tentando pegar na minha cabeça pra bater no cabelo, sempre da forma esportiva que ele acha não ofender...
Da ultima vez que nos encontramos, foi quando decidi que o cabelo não iria cortar, ele reparou, disse todas as frases acima entre outras e eu soltei um belo: ”E vai ficar assim, estou deixando crescer!”. Pra que eu disse isso? Um NÃO sonoro no meio do shopping veio, faltando pouco para os vidros das lojas quebrarem com tanto susto...
Que o cabelo black incomoda, isso – pra quem é preto – não é novidade. Se é mais que simples vaidade pra você que deixa crescer é também para as pessoas que veem. E com os brancos, o cabelo crespo grande adquiri significados maiores. O black realça sua identidade, você não é um negro qualquer, seu discurso sobre negritude realça no tamanho do cabelo. Você é negro e está lendo isso? Então sabe do que estou falando!!!
Claro que existem também os negros que não gostam do cabelo black alheio, mas este não é o ponto aqui. Não vamos desviar do assunto, até por que já falei sobre isso em outros posts. O assunto aqui é o incomodo deste meu amigo com o meu cabelo crescente. Do racismo dele, evidenciado nos grandes NÃOS que ele me da, mesmo ele sendo meu amigo... Ainda...

Tentando aprofundar mais o assunto, as amizades entre brancos e negros, na minha opinião sempre vão sofrer um abalo sísmico. Nem que seja em pequena proporção. Principalmente se o negro reconhecer sua negritude para além dos “modismos” de plantão. Já vivi experiências fortes de negação da minha negritude com TODOS os meus amigos brancos. Se você reparar na foto, sou um negro com a pele amarronzada, ou morena – como eles mesmo dizem. Ou seja, trocando em miúdos: não sou negro. Sou moreno, marronzinho, moreninho, morenaço, etc. além de negar minha negritude, isso dá aval a eles em explicitar seu racismo junto aos considerados por eles negros DE VERDADE, “da cor de carvão”, “preto retinto”, “negão da porra”... São palavras deles...
Não passa também pela cabeça deles, o porquê ao invés de disfarçar eu só ressalto meus traços negroides. Já que não tenho como escurecer de forma permanente (infelizmente), ressalto o cabelo deixando-o crescer. Por que eu não corto? Por que eu não quero caralho! Simples! Moro na periferia de Salvador, com um monte de homem preto que raspa o cabelo de 15 em 15 dias, você acha que não tenho referencias de cabelos cortados a vontade à minha vista?
Esses e outros movimentos acabam machucando. E no meu caso, como escolhi não falar nada, acabam afastando também. Quando estou cansado da atitude de alguém eu simplesmente me calo. O silencio, pra mim, afasta de coisas ruins. Só falo, esbravejo, com quem me importo...
É nessa hora, que ter um amigo negro, ou amiga ajuda. Concordo com a opinião de uma amiga que diz que tem horas que nós precisamos nos “aquilombar”. Negros para negros, sabe? Por que só um homem preto pra entender. Aquela amizade que entende o que você quer dizer, não fica julgando seu cabelo, mesmo o dele cortado na máquina 0. Mas ele é preto porra! Com orgulho em ser! Por que vai te ofender? Ai também não posso deixar de fora as amizades femininas, pois são pra mim muito importantes.
Isso tudo possibiliza a troca! A troca saudável de uma identidade bonita. Eu reparar que minha amiga trançou o cabelo e elogiar a linha de trançado dela, de ver meu amigo de bata e não chamar ele de macumbeiro por conta disso, ou minha amiga em um vestido amarelo e não dizer que ela não fica bem, naquele vestido, por conta da cor, por que não um mais escuro?!... Esse processo de amizade negra, além de te poupar de comentários horrendos sobre sua raça, também te fortalece. Sempre fico, mais bonito, com meu espírito renovado, sorriso forte no rosto, nessas reuniões. Pra mim essas amizades são fundamentais para renovação do meu espírito. Não vejo nelas nenhum grau exótico da minha cor, sexualmente, economicamente, religiosamente falando.
E os meus amigos brancos? Estão lá. As vezes me sinto mais amigos deles que eles meus amigos. Claro que tem aqueles que distorcem. Não fazem o discurso do “eu não sou racista”, “adoro a cultura negra”, “eu também tenho sangue negro correndo nas minhas veias”. Grandes hipócritas, mas daqui pra que eles se deem conta disso, é todo um trabalho didático que tenho que fazer e eu não estou mais disposto a isso tão facilmente como anos atrás.

Amo todas as pessoas independente da raça. Mas não tem como ressaltar uma amizade que te respeita, que não te humilha, sem brincadeiras ofensivas na esportiva, que sorri pra você de forma sincera e despretensiosa. Aos amigos, independente da cor, que souberem me respeitar, como homem negro que sou, serão sempre bem vindos em meu coração...

8 comentários:

Ruy Paixao disse...

O autentico FIlipe que se exalta até para mostrar que está calmo. Texto que induz a sérias reflexões. Me chamou a atenção a sugestão de novos quilombos, como doses homeopaticas de reconhecimento e respeito... Percebo que estamos num momento de choque entre velhas e arraigadas idéias preconceituosas, num caminho sem volta para a igualdade. As coisas só não acontecem na velocidade que gostaríamos. Um abração e muita PAZ.

Filipe Harpo disse...

Valeu Ruy. Muito obrigado por comentar.

Psi em Potencial disse...

Gostei muito da sua reflexão!Sei bem como é difícil ser uma mulher negra empoderada nesta nossa sociedade Racista!Ainda bem que existem textos e pessoas como vc que nos ajudam a sermos quem somos e continuar na luta!Um Abraço negro!

Filipe Harpo disse...

Obrigado querida pelo comentário. É menos dolorido - eu acho - ser um negro "sem consciencia", achar que o racismo é uma besteira e que ele nunca pode nos atingir e tudo é perfeito nesse mundo. Assumimos as consequências em sair da Matrix rsrssr, mas mesmo com as dificuldades prefiro estar fora que lá dentro...
Mais uma vez valeu pelo comentário.

Ketulla disse...

Meu black é pequeno, então "cabe" na perspectiva dos meus amigos brancos, mas , não raro, presencio comentários sobre outros blacks, desses enormes. Sempre comentam que "não precisa desse black tão grande", como se dependêssemos da condescendência deles. Difícil me calar... como sou irônica - e nada didática - acabo fazendo um comentário pejorativo a alguma característica deles. Se se indignam eu digo "doeu, né?". Gosto mermo de ver o circo pegar fogo. Depois desse texto, vou exercitar o silêncio, bem no estilo "e livrai-nos de todo mal, amém!".

Filipe Harpo disse...

Heheehe, confesso que tmb gosto de fazer o circo pegar fogo, mas quando tenho a certeza que a amizade não vale mais a pena prefiro o silencio! bj querida obrigado por comentar

Anônimo disse...

Para mim esse termo "aquilombar" é fantástico. Vou incorporá-la em meu vocabulário. kkkk. Tb tenho amigos de todas as etnias, mas só meus amigos negros realmente conseguem me compreender em totalidade, existem os "brancos" que de fato vc percebe que são apaixonados por nós negros e por nossa cultura, alguns mais outros menos preconceituosos, mesmo que de forma inconsciente, adquirida por osmose. Mas tb percebo pessoas(amigos, colegas, conhecidos)que são extremamente esclarecidas e nos supervalorizam com sinceridade(por incrível que pareça, percebi isso acentuado quando morei no sul do Brasil).
Não fosse minha profissão(militar), também deixaria a cabeleira crescer, apesar que o meu problema é inverso ao seu, tenho a pele destacadamente escura(graças a Deus), mas infelizmente meu cabelo não é crespo, te invejo. Acho bacana o negro que assume seu black, mesmo em cidades de maioria negra como em Salvador, é necessário coragem, assumir o cabelo afro, com certeza é assumir de forma explícita a sua negritude. Quanto aos termos "embraquecedores" como: moreno, cabo verde, mulato, pardo e afins, é o pior, mania feia de tentarem "amenizar" nossa negritude ou de economizar em melanina, mais do que preconceito é ignorância e falta de informação e conhecimento, pois mesmo na África há inúmeros grupos étnicos nativos, não mestiçados, que apesar de terem todos os traços de negros, possuem pele clara, e isso não os torna menos negros. Sou feliz como sou, mas se pudesse escureceria e teria o cabelo bem crespo. Abração!!

gilberto macedo.

Filipe Harpo disse...

Valeu Gilberto pelo comentário. Quem sabe um dias os militares irão com cabelo grande pro campo de batalha hehehe Abraços!!!!!!!