sábado, 9 de agosto de 2014

Entrevista: Deo Cardoso. Um Guerreiro Cineasta!!!!!! Parte 1

Deo Cardoso é um homem de talento ímpar. Conheci seu trabalho através do You Tube e me emocionei bastante com o primeiro filme dele que vi; “Pode Me Chamar de Nadi” uma história de superação contada de forma singela. Emoção que te faz sorrir, sabe? Resolvi, na cara de pau (quem me conhece sabe que tenho e me orgulho disso!) pedir uma entrevista a ele ao meu humilde blog. E ele não deu uma entrevista... Mas sim uma aula sobre cinema!!! No meio da agenda corrida, por conta da preparação do seu próximo filme, ele arrumou um tempinho e respondeu a todas minhas perguntas. Não cortei nada, impossível cortar. Para que cortar? A gente já é silenciado demais... Então leia abaixo o que este cineasta de 37 anos (nem parece...), nascido em Madison EUA e que vive pertinho da gente em Fortaleza, tem a dizer sobre cinema, negritude, cinema, militância, rap e... cinema, é claro!

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Existe uma nova leva de cineastas no Brasil, que falam de suas mazelas sociais. Uma parcela desses profissionais tem coragem de falar sobre racismo abertamente. Como você escolheu o discurso contra a discriminação para atuar junto a seu trabalho? Como é a “forma Deo Cardoso” de tratar o racismo no cinema?

Não considero bem uma escolha. Não acho que “escolhi” o que melhor me convém pra se falar da questão racial, e sim algo que é a nossa condição e vivência. Algo em primeira pessoa, entende? Mas entendo porque você usou esse verbo. Essa escolha, por assim dizer, se deu por uma questão existencial e política mesmo. Essa coisa de ter nascido nos Estados Unidos e de ter passado a infância entre o contexto de orgulho negro norte-americano e o “racismo cordial” brasileiro gerou em mim uma série de questionamentos desde que eu era pivete.

Eu perguntava pros meus pais (brasileiros) o porquê que, no Brasil, diziam que eu era moreno e nos Estados Unidos diziam que eu era “black”? Daí comecei a questionar porque que as pessoas mais escuras eram as mais humildes e injustiçadas, e que mais sofriam condições sociais desfavoráveis. Desde cedo percebi que muitas coisas eram mais difíceis pra pessoas da minha cor e mais escuras que eu, tanto lá nos Estados Unidos quanto aqui no Brasil. E assim, essa formação social e racial mais crítica foi se desenvolvendo na minha mente, e foi se refletindo nas minhas primeiras produções artísticas (contos, poemas e desenhos em quadrinhos). E isso foi ficando, ficando, e virou uma missão mesmo. Por isso não foi bem uma escolha, faz parte da minha identidade e formação pessoal. 


Existe uma frase do grande cineasta baiano Glauber Rocha que diz: “a função do artista é violentar”. Frase um tanto pesada, mas acho que o que ele realmente queria dizer é que a função do artista é trazer à tona questões que nos afligem enquanto seres humanos, no intuito de provocar debates e evoluirmos enquanto seres dotados de consciência. Portanto, para a minha arte, esse discurso da discriminação e do preconceito é necessário pelo potencial emancipatório que o tema traz. A intolerância ao “diferente” (etnia, religião, classe, região, gênero, etc.) é um mal da nossa civilização e isso é histórico. Mas acredito que uma arte que trate abertamente dessas intolerâncias, de uma forma sublime e poética, pode ser tão ou mais “violenta” que um filme de confronto aberto e direto, exatamente pelo poder transformador (e libertador) que uma abordagem simples e poética tem.

Então, não tenho uma forma engessada de trabalhar a questão do racismo em meus filmes. Até aqui, optei por uma abordagem que busque tocar o sentimento humanista das pessoas. São filmes-crônicas. Filmes que abordem nossos dilemas, ora com ternura (como no caso de “Pode Me Chamar de Nadí”), ora com humor e sarcasmo (como no caso de “Cappuccino com Canela”). Mas estou com meu primeiro roteiro de longa-metragem pronto há 2 anos, já orçado, louco pra produzi-lo imediatamente, e esse filme é um filme de confronto político mesmo, de um discurso forte contra o que estão fazendo com a juventude negra brasileira. Tem hora que é preciso desabafar pra ver se alguns absurdos que as pessoas naturalizam sejam devidamente debatidos e transformados. Há dois anos tento fazer esse filme, mas é difícil conseguir apoio. Não tenho muita habilidade política de captar recursos, então, tô vendo aí como faço. Só sei que preciso realizar esse filme urgente. 

Deo no set. do curta Pode Me Chamar de Nadi

Vi dois curtas seus no You Tube, veiculo bastante usado por cineastas independentes para divulgação de seu trabalho. A meu ver, possibilita que um número maior de pessoas veja seus filmes, sem a barreira da exibição em salas de cinema pelo país.  Quando faz seus filmes, já se preocupa com essa nova ferramenta? Fazer enquadramentos, cortes, cenas a partir da perspectiva de alguém que vai ver seu trabalho pela net?

Sim, sim. Já realizo meus filmes com isso na mente. Criar tendo o “youtube” ou o “vimeo” na mente altera um pouco a estética da coisa. Imagino alguém assistindo um filme pelo celular, dentro do ônibus, por exemplo. Então, não posso demorar muito num plano. As sequências precisam ser ritmadas. Diálogos precisos. Tudo muito musicado, caprichado, até porque nosso povo tá sempre em movimento, atrás de um emprego, indo pra aula, zuando com os colegas, etc. Tem que ser malandro no sentido positivo da palavra. Ter jogo de cintura, sambar com a situação. Penso em tudo isso sim. Já outros elementos audiovisuais precisam do mesmo cuidado: uma boa composição, uma boa atuação (mesmo eu adorando trabalhar com atores não profissionais, o que, a meu ver, proporciona uma atuação ainda melhor, mais naturalista e documental).

E como trabalho uma temática “guetificada”, não entro muito em festivais. Parece que existe uma cota pra filmes de determinadas temáticas. Parece que a lógica de alguns desses festivais de maior porte é uma porcentagem pra filmes gays, outra pra filmes negros, outra pra filmes feministas, etc. Portanto, gosto da independência de fazer um filme e divulga-lo via youtube. Quando lancei “Cappuccino com Canela” no início de 2014, por exemplo, fiz uma tímida divulgação pelo facebook e, em uma tarde, o filme conseguiu mais de 400 visualizações. Pra mim tá ótimo, pois é como se em uma tarde, uma sala de cinema lotada assistisse o curta.

Em Pode Me Chamar de Nadi, a discriminação racial sofrida pela personagem principal é algo bastante brasileiro. Cotidiana, mas “invisível”, não é direta, pois é feita para silenciar, como a Nadi muitas vezes emudece. A forma como você introduz o tema para a plateia é extremamente sutil... Como foi o processo de construção do roteiro e a introdução do tema na historia?

Até hoje minhas histórias sempre partem de sentimentos que vivencio quando estou inserido em alguma situação real. Lembro-me de ter escrito, com muita raiva, o primeiro tratamento do roteiro de “Pode me Chamar de Nadí” a 5 anos atrás. A Nadí não é somente uma personagem. Ela existe e interpretou a si mesma no filme. À época do filme, Nadí morava na mesma rua que eu e era muito próxima de mim e da minha família. Por ter uma pele bem escura, o racismo que ela sofria era diário e latente.

Construí o roteiro após ter sido testemunha ocular de uma situação em que a Nadí, ao voltar do colégio com seus colegas e irmãos, sofria piadinhas racistas referentes a seu cabelo. Piadinhas que, infelizmente, são tão comuns no ambiente escolar. E Nadí, com sua personalidade forte, me deu um abraço e disse que não aguentava mais aquilo. Ela tinha 9 anos à época. Foi quando eu disse a ela que os meninos iriam se surpreender quando ela virasse uma linda atriz de cinema. Então, escrevi o roteiro movido por dois sentimentos latentes: uma profunda raiva (em imaginar os traumas psicológicos provocados pelo racismo, que uma menina negra precisa enfrentar desde cedo) e por um sentimento de enorme carinho que aprendi a ter pela Nadí, que tem naturalmente o carisma, a simpatia e a personalidade que a Nadí do filme tem. Ali ela está sendo ela. O lado agressivo e o lado doce.

Assim que eu tive uma versão pronta do roteiro, antes mesmo de ser contemplado no edital da secretaria de cultura do estado do Ceará aquele ano, eu mostrei a história pra ela. Mas eu não tinha a dimensão do que estaria por vir. Ela muito menos. Então tudo era muito vago. Não sabíamos se o filme iria ser feito. Não tínhamos essa garantia. Eu já tava pensando em fazer como eu faço hoje: filmes na raça, sem grana com os amigos e amigas. Mas quando o filme foi contemplado pelo edital, pudemos fazer um filme extremamente profissional e acho que conseguimos passar aquele sentimento de ternura e magia de uma pessoa que, pelo menos naquele recorte dramático, superou o racismo graças ao apoio de outra pessoa negra, mostrando que Steve Biko estava certo: Estamos por nossa própria conta. Somos nossa própria força e superação.


Momento de descontração em meio aos trabalhos


Em sua opinião, qual a cara que o cinema brasileiro atual, quer passar sobre o Brasil para o seu público?

O cinema brasileiro atual é muito diversificado, criativo e extremamente bem elaborado. Certamente não estamos em uma fase ingênua. Tanto o cineasta que está ali à margem do mercado, quanto o que está produzindo dentro do mercado nacional sabem que o cinema não é mais engessado em si, e que dialoga com as novas mídias e novos formatos.

Apesar da tradição clássica e ficcional do cinema ainda dominar o mercado, o mainstream, como falam (a corrente principal e predominante que flerta com as massas), temos também um cinema que busca refletir a questão da imagem, de transitar entre gêneros e formatos. Um cinema que se pensa inserido no contexto de um país emergente que somos. Então, num recorte de cinema ficcional, eu só posso falar de que cara o cinema brasileiro atual procura passar se eu analisar as intenções estéticas e mercadológicas de cada segmento. Só posso falar das impressões que eu tenho, que podem estar equivocadas, claro. Mas a impressão que tenho é a de que, pelo menos no aspecto mercadológico, o cinema brasileiro atual, em seu obvio objetivo de ganhar terreno dentre as produções hegemônicas americanas, acaba realizando um cinema de extrema qualidade técnica, mas buscando reproduzir o que o cinema hegemônico hollywoodiano já faz, principalmente no campo da comédia. Então, o público de cinema brasileiro acaba condenado a consumir filmes com o padrão de qualidade da maior e mais poderosa emissora de TV do Brasil, que entra com seu poder publicitário massivo, reproduzindo pro cinema um padrão televisivo, sem maiores riscos comerciais.

Acho que, salvo algumas exceções, o cinema mainstream brasileiro está numa fase de autoafirmação, ou seja, busca mostrar a cara de sua qualidade técnica, ostentando roteiros bem amarrados, porém esvaziado de temas que busquem dar um sacode nas pessoas. É claro que falo isso num sentido geral, pois vez por outra esse cinema mais “comercial”, por assim dizer, surge dando um sopapo no senso comum, em filmes como Tropa de Elite (I e II), Cidade de Deus, Uma Onda no Ar, etc. No outro polo, temos uma pulsante produção independente país afora. Coletivos de cineastas/colaboradores que pululam em festivais nacionais e internacionais, representando muito bem seus pensamentos críticos/estéticos, sem ter sua estrutura dramática subordinada e engessada a uma fórmula de mercado. Aí destaco a produção do realizador da Ceilândia Adirley Queiroz e seu maravilhoso longa Branco Sai, Preto Fica, que quebra essa linearidade narrativa trazendo um cinema enérgico e que transita entre ficção e documentário, que também dialoga com o hip-hop de seu bairro, Ceilândia, Distrito Federal.

Mas vou te confessar que o cinema que mais me agrada no momento é a recente safra pernambucana. Um cinema que eu coloco no meio termo entre o cinema estritamente comercial, e o cinema estritamente de experimentação de linguagem. O cinema pernambucano me fascina por estar sempre em busca de uma independência narrativa. Essa coisa fervente (ou FREVENTE, relativo ao frevo) que a tradição artístico-cultural pernambucana traz ao longo da história está explicitamente impresso nos filmes daquele estado. Gosto demais dos filmes de Claudio Assis, (em especial Febre do Rato), Lírio Ferreira (Baile Perfumado), Paulo Caldas (Deserto Feliz), Hilton Lacerda (tatuagem), etc.

É a “escola” de cinema nacional contemporânea que eu mais me identifico no momento. Embora exista muita coisa que eu precise conhecer mais. Confesso que nos últimos dois anos, foquei mais em produzir e ensinar do que em acompanhar as novidades e lançamentos do nosso cinema independente. 


3 comentários:

Ana Beatriz Bia disse...

Muito obrigada por palavras tão certas sobre um tema tão delicado e e tão lírico que é o cinema brasileiro.....fiquei muito feliz por toda narrativa da história do cineasta.... que lindo...

Filipe Harpo disse...

Opa! BIa querida obrigado por ler a postagem e pelo comentário. Abração

Déo Cardoso disse...

obrigado pelas palavras, Bia. É uma luta constante. :)