sexta-feira, 26 de junho de 2009

Absoluto!

O Rei morreu! Michael Jackson morreu aos 51 anos ontem a noite... Fiquei triste, fiquei chocado. É engraçado como a morte apesar de ser uma das poucas coisas absolutas neste mundo me provoca ainda o choque. O astro morreu com um vasto currículo de maravilhosa arte e escândalos ao seu redor. Se ele piscava virava notícia. Era um homem que não precisava muita coisa para fazer você pensar... No ruim e no bom sentido! Suas músicas (seu principal legado) e seus vídeos foram e sempre serão revolucionários!!!!! Quando me pegava hipnotizado por um clipe dele hoje em dia vinha em mim uma ótima sensação que tinha no passado quando minha casa parava (eu, meu pai e minha mãe) para ver o clip do negão no Fantástico. Sim, negão!!!!!! Por que Michael nunca deixou de ser negão pra mim, apesar de sua feição ter mudado drasticamente ao passar dos anos. Era um símbolo de como o racismo introjetado pode pirar a cabeça de alguém... Mas também era símbolo de luta, cria de Quincy Jonnes (a melhor diga-se de passagem!) e de ótima musica... Do que seriam dos artistas atuais se não fosse por Michael... Nem preciso falar das suas crias brancas e negras que pipocam todos os dias no mundo da música. Mas Michael para sempre vai ser incomparável! Era igual a James Brown... O MÁXIMO!

Deixo aqui como lembrança a capa de uma revista na época que ele lançou o meu clip preferido REMEMBER THE TIME com um Egito negro e lindo, dirigido pelo esplendido Spike Lee... Michael foi o primeiro a fazer isso! O Egito era negro!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Decepção

Bem, to aqui decepcionado... Comigo mesmo. Não vi meu filminho que há tento tempo espero. Milagre em Santa Ana chegou silenciosamente em Salvador em um cinema que nem todo mundo vai (em um shopping em uma área nobre de Salvador). Ficou só uma semana! E depois desapareceu, como alguém que é seqüestrado por um óvni. Quando fui ver já tinha o tal do BUDAPESTE no lugar. E nenhuma sala a mais exibiu o filme. Veio, ficou uma semana, saiu... Agora só em dvd... Ai ai...

sábado, 23 de maio de 2009

O DESAFIO QUASE INSUPORTÁVEL DE CONHECER O OUTRO...

Contar minhas experiências aqui no Blog não é coisa que faço com muita freqüência... Fiz o Blog para divulgar e criticar o cinema negro. Mas a partir do momento que minhas experiências transitam também pelo mundo da sétima arte e me provocam (adoro provocações!) trago elas para este espaço sem nenhum problema.
Bem, participei recentemente, como organizador, de um evento de cinema Queer, como sou professor e gosto de levar meus alunos para um encontro com a diversidade fiz uma das aulas neste festival. Pense nisso: Alunos heterossexuais em uma sala onde seria exibido um filme com temática homossexual, acompanhados de lésbicas, gays e transexuais... Diversidade pura! No começo tudo de bom, apresentações primeiras, aplausos, tudo ocorrendo normalmente. A sessão começou, a película que estava sendo exibida , um capitulo da serie lésbica The L World, burburinhos na platéia, uma cena de sexo aqui, um beijo entre duas mulheres acolá, depois uma conversa sobre lésbicas que querem ter um filho, mais burburinhos na sessão. E o filme acaba. Mais aplausos, mais explicações, há um debate e pronto. Chegamos ao fim com aparente sucesso do evento.
Nos dias seguintes um feed back com os alunos foi feito. O que eles tinham achado, qual a opinião deles e a pergunta principal se eles queriam continuar vindo para as sessões seguintes. A resposta foi certeira: NÃO!
Por que não? Por que a serie era pornográfica? Por que o capitulo era ruim? por que o texto era chulo? Por que? Exemplificando melhor segundo um dos alunos da turma “Aquilo não faz parte do meu mundo!”... Encontrei a resposta. Era um “outro mundo” e este outro mundo ofendia a moral e os ensinamentos que tiveram. Curioso não como um filme (mais precisamente um capitulo de uma série lésbica) com menos de uma hora e meia machucava tanto uma identidade aparentemente tão forte quanto a identidade heterossexual.
O mundo apresentado, que diziam não ter nada haver ao deles, diferia por ser o mundo do outro. Tinha um monte coisas no fundo dessa questão e das falas dos alunos: Primeiro, o mundo homossexual estava aparecendo sem querer ser tolerado ou aceito, estava dizendo EU EXISTO independente de você querer ou não, outro fator é que a série mostra as lésbicas como pessoas normais que lutam para ter dignidade e querem ser felizes como todos nós. Querem mais fatores? As lésbicas da série são iguais em nível de feminilidade as meninas da platéia, ou seja, o mito de que toda lésbica é masculinizada ou mais precisamente ‘diferente de mim’ é testado e apagado. Sendo mais explicito; o diferente, apensar de ser díspar pode não ser tão distante assim. Quando vemos que o outro não se pinta como coitadinho, uma vitima em potencial e que ele(a) vive independente do olhar do dito dominante isto choca. Não existe um algoz temido, mas uma pratica que é combatida diariamente de varias formasse que estas pessoas também vivem desejos, angustias, alegrias que são próprias também do nosso mundo.
Mas o que o mundo lésbico apresentado tem haver com o nosso blog? Sim tem haver! Estou falando de diversidade e falar dela, palavrinha tão simples, é algo extremamente difícil e dolorido, pois prova para você que não é o centro do universo e as praticas que tem em maio a sociedade nem todo mundo compartilha da mesma idéia. E reconhecer os universos distintos da nossa sociedade é um desafio e tanto. Uma receita que para sair no ponto certo precisa de entrega, auto conhecimento, disponibilidade e humildade. E reconhecer também que conceitos formulados como racismo, machismo, heterossexualismo dentre outros são aprendidos e também podem ser problematizados com um bom esforço.
No caso dos meus alunos a resposta inicial foi não. Um bom e sonoro NÃO. Avaliou-se a possibilidade deles não participarem mais do projeto, mas depois com o tempo verificamos que estávamos fazendo cidadania! Não dependia somente do querer ou não. O filme não estava sendo passado por passar somente. Tinha um propósito, haveria debate logo depois. Nem todo mundo gosta de matemática, mas mesmo assim sabemos que ela é imprescindível para a construção de um bom profissional, mesmo que ele quase nunca utilize a matemática como eu que sou da área de historia. Com os alunos era a mesma coisa... Nem todo mundo gostaria de conhecer o outro e se debater retirando a linha tênue que separa brancos e negros, heteros e homos, mulheres e homens etc, mas é preciso conhecer o outro suas angustias e alegrias. E estava fazendo minha parte. E trabalhando contra a homofobia estava trabalhando contra o racismo, o machismo... o seu, o deles e o de toda humanidade...


sexta-feira, 22 de maio de 2009

Insatisfeito!

O novo filme de Spike Lee já, e há muito tempo, chegou aos cinemas brasileiros. Tem umas três semanas que o filme aportou nas telonas brazucas... Mas nada do filme chegar aqui na Bahia. Saiu criticas em revistas, em sites, até no you tube tem critico comentando. Algumas criticas são favoráveis, outras esculhambam o filme de cabo a rabo... Mas eu quero ver o filme e tirar minhas próprias conclusões. Até hoje, semana após semana espero o filme chegar aqui em Salvador. Nada ainda. Espero que saia nos cinemas e não somente aporte aqui em DVD.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O Amor...

Bem, vamos falar do amor. Este sentimento que emana pela humanidade desde o nascimento dela. Como este é um blog que trata sobre cinema negro, vamos é claro traçar filmes que abordem romances e temáticas raciais. E se você tem algum conceito formulado contra o amor é melhor aparar por aqui. Nas linhas que se seguem romance vai ser o principal ingrediente da postagem.
Mas não são filmes quaisquer. Se você estiver realmente interessado em comedias românticas com personagens negros ou filmes dramáticos que falam sobre relacionamento entre negros, vá à locadora e alugue um monte deles. Lá tá cheio. O que pretendo falar é sobre um tipo mais “complicado” de amor neste nosso mundo cheio de práticas duvidosas; o amor interracial.
Não é de hoje que o cinema faz este tipo de abordagem. O negócio é mais antigo que clichê de filme de “professor super herói”, Hollywood (sempre ela!) invoca o tema desde a era de ouro dos antigos filmes até hoje. É por isso que escolhi três filmes, de diferentes épocas, gêneros e diretores. Vão do drama a comédia pastelão, mas nenhum dos três deixa o debate morrer no meio do caminho. Não dissolvem a questão em simples “o amor vence a tudo”. Os filmes, cada um de sua forma, discutem com muita verdade o que está acontecendo entre os casais e como a sociedade reage a esta iniciativa de um casal muito diferente entre si.
Os filmes são: Adivinhe Quem Vem Para Jantar, de Stanley Kramer do longínquo 1967, Febre na Selva de Spike Lee de 1991 e Uma Coisa Nova – As Surpresas do Coração de Sanaa Hanri de 2006. são filmes que abordam de forma corajosa uma questão que pensam estar ultrapassada, mas que ainda provoca debates e questionamentos por onde passa.
O primeiro é um marco do seu tempo. Na época falar disso nos EUA era um tabu dos diabos e diretor, roteirista e elenco tiveram coragem para tratar de um tema tão controverso em uma época tão violenta e de tantas revoluções como o final dos anos 60. a historia é simples, moça branca que chega de viagem tem que apresentar sua grande paixão a sua família aparentemente liberal, um rapaz negro com quem tem certeza absoluta que quer casar imediatamente. A partir dessa premissa básica o filme se desenvolve com excelentes diálogos que são o grande marco do filme. Principalmente no que tange o liberalismo da família branca da garota (vivida pela apática Katharine Houghton), os pais que se consideravam extremamente libertos de quaisquer preconceitos vêem-se envoltos na armadilha hipócrita que próprio criaram. Para a época era um bac ver o filme tanto para brancos liberais quanto para os racistas assumidos. Além disso Katharine Hepburn está ótima no papel e Spencer Tracy, debilitado por conta de problemas de saúde, deixa sua marca do jeito que pode ao filme. Sidney Poitier vocês já sabem o que penso dele, sempre ok e só. Dá um charme todo especial ao personagem, mas não rende uma maravilhosa interpretação. Na verdade o elenco está muito bem, mas o filme tem dois outros grandes marcos: o roteiro enxuto, que mais aprece uma peça de teatro, que deixa seus personagens a vontade em meio ao tema tratado de distintas formas e a atriz Beah Richards que faz a mãe do personagem de Sidney e entrega a personagem força, carisma e carinho na medida certa. Fiquei boquiaberto de ver sua interpretação, colocando em poucos minutos e com excelentes passagens o elenco todo na bandeja. Uma outra coisa a salientar é a hipocrisia do roteiro. Apesar de um marco da época o filme não expande limites e o casal principal não se beija nem sobre pressão.
O segundo, Febre na Selva, é um filme de Sipke Lee, traduzindo, não é um filme qualquer e que vai tratar o tema de forma simplória। Como sempre o elenco, escolhido a dedo, é maravilhosamente bem trabalhado pelo roteiro fabuloso. As tramas paralelas também estão no lugar como em qualquer filme de Sipke. O que peca um pouco é o casal chave vivo do por Wesley Snipes e Annabella Sciorra e Spike querendo tirar onda de ator novamente. O casal apesar de muito bonito não tem aquela química e o espectador não se interessa muito neles e o tema acaba ficando maior que os personagens. Isso realmente deixa o filme em alguns momentos chato. Destaque para os atores que fazem os pais do personagem de Wesley, Ossie Davis e Ruby Dee, simplesmente fantásticos e são donos das cenas mais marcantes do longa.
Já Uma Coisa Nova – Surpresas do Coração é a típica comedia romântica que o cinema americano sabe tanto fazer. Tudo está em seu devido lugar, a fotografia que faz todo mundo ficar lindo, os diálogos engraçados presentes em toda comedia romântica, a transformação dos personagens e o roteiro tipicamente sonhador. O destaque do filme é o casal chave, o único dos três filmes que realmente dá certo e coloca o espectador em um ponto de interesse com eles. O elenco está afiadíssimos e também muito bem escolhido. E a questão interracial é atualizada aos novos contextos de uma nova sociedade. Mas o filme na deixa de ser um romance água com açúcar em nenhum momento, ok?...
Os três filmes tentam passar um marco chave: que a relação interracial precisa ser problematizada para que uma das partes não fique superior a outra, no caso quase sempre o branco superior ao negro. E os personagens estão a fim de discutir de verdade todos os entraves que uma relação deste porte tem. Nada é escondido. E a sociedade de abre de maneira impactante com seus conceitos pré formulados. Para um relacionamento desse porte, a negritude e a branquitude de cada sujeito tem que estar muito bem resolvida para que isso não possa interromper com o andamento do relacionamento. Digo isso em questão dos personagens que problematizam os entraves das suas raças por conta do amor que sentem um pelo outro.
Uma outra coisa vista em alguns filmes, nestes e que também reparei em outros, é até onde negros precisam casar com negros e brancos precisam casar com brancos para serem mais bem resolvidos e terem seu mundo sem abalos? Até onde as pessoas não se deixam levar por conta de uma identidade cômoda? Até onde não é cômodo e seguro não ter sua identidade abalada por conta de uma pessoa junto a você que pertence a um outro contexto? Até onde vale a pena ter um amor da mesma cor, enquanto que este homem ou mulher perfeita não é necessariamente o que queremos, mas o que os outros tem como exemplo de relação? Amor não tem cor, em que mundo estamos vivendo de tanta hipocrisia? Estas e outras perguntas surgem com o passar do tempo, principalmente se estiver vendo os filmes em curto espaço de tempo. Nenhum deles pretende responder tais perguntas, as vezes tudo é jogado na tela e o espectador tem que resolver suas questões pra si. Mas dizer que a temática seja passada de forma absolutamente rala isso não pode ser dito com estes três bons exemplos.
Aprendi que o amor tem cor sim, até por que você não namora com sujeitos incolor. Mas ele não se resume a isso e como toda e qualqer coisa no mundo deve ser problematizada.

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

A RESPONSABILIDADE DO HERÓI NEGRO

Um dia desses, nessas conversas de bar, tava conversando com uns amigos sobre filmes, atores, atrizes. Conversa vai, conversa vem surgiu o nome do ícone e máquina de fazer dinheiro Will Smith. Falamos sobre os seus filmes, todos animados, até que uma hora a vida do astro foi colocada em xeque devido ao seu desinteresse pela comunidade negra norte americana. Foi colocado na mesa que Smith era rico, mas que toda aquela pompa e poder somente serviam para si, ele não ajudaria em nada e viveria em um universo paralelo dos (poucos) ricos e famosos negros americanos. Uma outra vez lembro que tiveram oportunidade de assistir ao programa de Oprah Winfrey e acharam horrível, sem grandes surpresas e a comparação veio de imediato, o programa parecia mais uma versão norte americana de Hebe, que não tinha qualidade e que era simplório demais. Para que nem todos os artistas fossem jogados no lixo, ressaltou-se Denzel Washington como o “Midas”, ele sim faria personagens enriquecedores e contribuiria para o crescimento da comunidade negra com sua arte. Ou seja, uns heróis somente na tela e outros estendiam seus papéis também á realidade.
Fiquei pensando se todo artista negro realmente tem a função/obrigação de estar sempre envolvido em produções que tivessem uma carga dramática referente às vivências da comunidade negra?! Não tem! Ele tem direito de fazer o que quiser. Recentemente saiu a noticia que Smith estaria envolvido em um “projeto ancestral” fazendo o papel de um dos últimos faraós negros do Egito antigo. A provável super produção serveria para consolidar a carreira de Will Smith em um projeto sério que ao mesmo tempo envolvesse “suas raízes”. Ou seja, responsabilidade estritamente planejada com marketing absoluto.
O caso de Oprah é um pouco diferente. Tudo que ela toca vira ouro. Seu programa é o mais assistido nos EUA faz tempo, recebe celebridades de grande porte se emocionando ou pagando micos hilários e faz tanto sucesso que seu formato foi exportado em todo mundo – se não fosse por Oprah não teríamos, por exemplo, o sofá da Hebe e programas como Márcia e Casos de Família (entenda isso como quiser!). Apesar de o seu programa ter um gosto duvidoso Oprah consegue separar o joio do trigo, com o dinheiro que consegue desenvolve projetos como A Bem Amada e Aos Olhos de Deus, duas obras clássicas literárias negras mundiais e se envolve em filmes inesquecíveis do porte de A Cor Púrpura. Se ela lê um livro, gosta e anuncia em seu programa, no outro dia o livro entra na lista dos mais vendidos do país. Além de tudo é a mulher negra mais rica do mundo, a personalidade negra mais rica do mundo e a segunda celebridade mais rica do mundo. Ufa!
Colocar a responsabilidade do destino de toda uma comunidade nas costas de uma pessoa não é um movimento saudável. Como todos os artistas do mundo, esses e outros artistas negros tem seu ego, suas vontades e envolvem-se em projetos que bem entendem. Há uma cobrança com estes artistas negros com real poder, pois eles são poucos, geralmente são envoltos na máquina feroz da cultura branca que coloca os negros “no seu devido lugar”. As pessoas esperam deles projetos reveladores, dramáticos, que falem sobre sofrimento, racismo, superação. Como uma obrigação e não de livre e espontânea vontade. O artista negro que chegasse a um patamar diferente de seus colegas de trabalho, renegados ao figurino de empregados domésticos e cenário da cozinha, teria que construir sua carreira evidenciando os heróis e dramas da comunidade negra por todo o mundo. Mais ou menos como Denzel Washington que já participou da guerra civil americana como um soldado que luta por liberdade e justiça, fez Malcolm X, o lutador Huricanne e Steve Biko. Para ele só falta Fanon! Mas é bom frisar que mesmo ele fez filmes horrendos (O Diabo Veste Azul), e que não acrescentavam nada a história da comunidade negra como Chamas da Vingança, O Gangster e Dia de Treinamento. E é um grande ator, sem dúvida!

Colocar demais a responsabilidade de uma comunidade em cima de um artista significa que o sujeito não tem coragem de mudar dentro do seu espaço a sua comunidade. Aqui no Brasil casos como o de Lazaro Ramos também volta e meia são citados. Ele seria a salvação da arte negra, sendo reconhecido pela sua responsabilidade e talento. Temos que fazer valer uma coisa: o caso da arte negra no Brasil é bem mais complicada que o norte americano, ninguém disso duvida. O mesmo Lázaro que fez riquezas como Madame Satã e o programa Espelho faz coisas como a série O Pai Ó! Projetos completamente diferentes, que envolve ideologias diferentes e feito para públicos distintos. Mas como se trata de arte o público vai entender de forma distinta estes projetos. Uns gostam outros odeiam, jogam pedra e tudo! E cabe ao público tirar proveito ou fazer as críticas sobre o projeto, é para o público que o artista faz o seu ofício.
Mas independente do rumo da carreira, a responsabilidade da nossa comunidade é de todos nós. Do ator que realiza o papel maravilhosamente bem, do roteirista que escreve e reescreve a história que inventa (ou não), do diretor que comanda pondo ordem em toda a produção, do exibidor que se compromete em colocar determinado filme com boa temática nos cinemas, do patrocinador que vê que toda aquela história pode também gerar lucro com responsabilidade e finalmente o público que avalia o produto final, coloca tudo na balança, lembra dos ensinamentos que a arte lhe proporcionou ou joga tudo fora no primeiro lixo que encontrar pela frente e esquece. O papel é nosso, afinal de contas, todos nós somos heróis.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

AFINAL DE CONTAS... CINEMA NEGRO EXISTE?

Cinema negro... Fico me perguntando em mais um ano escrevendo em um blog falando sobre “cinema negro” se este “cinema negro” realmente existe!... Não seria uma conotação meio estereotipada, criada apenas para diferenciar uma arte que pode ser igualitária, sem problemas, já que em tese todos assistem cinema e com ele se identificam? Ou cinema negro apenas é uma das vertentes dos vários cinemas espalhados por este mundo tão diferente? E se ele existir, será que este tipo de cinema poder ser misto em várias partes do mundo, pois com a diáspora as negritudes ampliaram-se, atingindo vários povos e formando outras culturas. Todo filme do “cinema negro” pode ser encarado como um cinema político? Ou pode ser encarado apenas como diversão? E política negra também pode ser encarada como diversão?... Quantas perguntas!
Se seguirmos e adaptarmos a denominação de teatro negro feita por Christine Douxami para o nosso contexto, segundo ela esta denominação “pode tanto ser aplicada a um FILME que tenha a presença de atores negros, quanto aquele caracterizado pela participação de um diretor negro, ou ainda, de uma produção negra. Ou uma outra definição ser o tema tratado NOS FILMES”. Seguindo o primeiro pensamento de Christine cinema negro pode ser muita coisa (Os Bad Boys, Vovó Zona, Mulher Gato, Irmãos de Sangue, Hancock) ou qualquer coisa para ser mais preciso. Mas é na segunda afirmação que uma luz pode ser encontrada. O tema tratado.
Desta forma dá para afunilar bem o que poderia ser chamado de cinema negro. Os assuntos a serem abordados pelo roteiro seriam características do cotidiano da população negra, suas alegrias, dificuldades, seus amores, cultura, seus traumas e embates. Neste viés estariam pérolas como A Cor Púrpura, O Sol Tornará a Brilhar, A Bem Amada, Ali, Infância Roubada, Cidade dos Homens, Filhas do Vento, Vista Minha Pele dentre muitos outros.
Com a primeira definição de que cinema negro poderia ser qualquer filme que abrangesse o universo negro percebe-se o quanto o cinema branco (pois se existe um cinema negro é porque existe um branco em contra partida) está impregnado em todos os tipos de cinema seja ele nos EUA, Brasil ou África, sendo considerado como normal ou um arte que atinge a todos. Como a maioria dos filmes são protagonizados, produzidos, dirigidos, interessados por/aos brancos qualquer ponto negro em uma película poderia ser considerado um ato de resistência cinematográfica।Na segunda moldura de cinema negro o discurso importa e muito. Cinema negro então seriam as produções norte americanas baseadas em clássicos da literatura daquele país, os filmes do visionário Spike Lee, o cinema popular da Nigéria, o cinema produzido pela nova geração de cineastas brasileiros que vêem da favela (de onde vem os negros na maioria das vezes) ou o cinema pan africanista que existem para exercitar um pensamento que os governos africanos nunca conseguiram por em prática verdadeiramente.
E se existe cinema feito em Hollywood, em Bollywood, em mandarim ou o queer cinema (cinema feito para homossexuais, por homossexuais), um cinema branco, cinema de arte, cinema novo, cinema comercial/pipoca, por que não existir cinema negro?! Algum pecado nisso? Algum pecado em fazer filmes dirigidos a uma determinada parcela da população que só nos EUA corresponde a mais de 40% da bilheteria? E olhe que lá eles são minoria!!!
Bem, agora sigo meu caminho já que pude refletir um pouco sobre esse tal de cinema negro. Meio tardiamente confesso, mas antes tarde do que nunca. Sigo escrevendo sobre esta mais uma arte negra, com suas películas boas de serem vistas ou exemplares vergonhosos que mais dão vontade de apertar o stop antes de tudo acabar. Como qualquer tipo de cinema o cinema negro tem seus bons e maus exemplares. Mas que existe, existe!

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

O PAÍ Ó... NO CAMELÔ!

Centro da cidade, ano passado, um filme lançado nos cinemas faz sucesso estrondoso em todo Brasil. Este filme, pouquíssimo tempo depois, estava a ser comercializado nos camelôs de todo o país e logo os DVDs esgotavam nas barracas ou naqueles ambulantes que estendem lona no chão e vendem seus produtos ali mesmo sob a calçada. Este filme: Ó Pai Ó. Daí pra frente não é novidade para ninguém, o filme fez bastante sucesso, mostrou uma Bahia hipercolorida para os não baianos, colocou o Bando de Teatro Olodum em um novo patamar (o cinema, já tinham alcançando, por exemplo, com Jenipapo, mas o sucesso somente veio nas telonas com O Pai Ó, que por acaso é da mesma diretora). E com o sucesso do filme veio a super/hiper/mini/série.
Foram quatro capítulos sem ligação direta exibidos toda a sexta feira, na Globo. Não sei muito bem como foi à repercussão em outros estados (a série foi escolhida como melhor de 2008, vencendo concorrentes como Capitu), mas aqui na Bahia a série, assim como o filme, virou febre, um vírus, sei lá... mania pura! A toda hora tinha gente repetindo o nome do programa ou bordões da mesma ou até os trejeitos dos personagens, seguidos de uma gargalhada geral. No Sábado a conversa era uma só no ônibus: Assistiu ó Pái Ó ontem? Não? Então lá vem o cara explicando detalhe por detalhe para o outro que não havia visto e tome trejeito daqui, piada dali, ditado baiano acolá. Uma agonia...
Bem, poderia muito bem esboçar todos os traços ruins e benéficos da série e do filme, mas tenho a certeza que um monte de gente já fez isso antes de mim. O que me interessa na propagação da série mais quista do ano passado é uma outra coisa... Estou eu este final de ano, novamente no Centro da Cidade, quando me deparo com um DVD esplendido! Uma dessas coisas que somente um “piratero” inteligente sabe fazer. O Pái Ó a série todinha, reunida em um único disco. O mesmo fenômeno do ano anterior repete-se. O povo completamente voa nos DVDs.
Aviso logo que não concordo com a pirataria. E não estou falando isso para ser politicamente correto. Os dvds já não tinham muita qualidade, agora que baixaram o preço (R$ 1,00 em alguns lugares) não há qualidade alguma. Com sei disso? Pois quebrei minha cara comprando dvds piratas. Alguns, confesso, dei graças a Deus por existirem, como o filme Os Grandes Debatedores – produzido por Oprah Winfrey e protagonizado por Denzel Washington – que concorreu ao Globo de Ouro, mas não passou pelos cinemas brasileiros. No camelô tinha e eu comprei! Filme bem ao estilo “vi a versão pirata”, cheia de defeitos e cortes abruptos durante sua exibição.
Mas também não concordo com o preço dos dvds originais, mesmo agora com as produtoras baixando os preços com a expansão da pirataria. São caros, às vezes não vale a pena dar em um dvd simples R$ 50,00!!! O artista não tem nenhum cuidado com seu público fiel ou com quem o descobre e acha que o ego dele e suas produções desbaratinadas valem um preço exorbitante. O dvd vem com o show ou o filme seco e olhe lá... Isso é falta de respeito. Dvds assim deveriam ser vendidos em balaio!
Nós sabemos muito bem que a pirataria está aí para todos verem. E que os vários tipos de pirataria têm público consumidor distinto. Geralmente moradores dos bairros nobres, brancos, com internet banda larga a disposição, baixam de casa mesmo suas séries e filmes prediletos. Filme pirata no conforto do lar, legendado, que logo é transformado em dvd para ser guardado junto à pilha de filmes, escondido. Já os moradores dos bairros periféricos, a galera do subúrbio, maioria esmagadora negra, sem internet ou sem PC em casa, depende do camelô e de seus filmes dublados (às vezes em espanhol, como a versão do novo filme de Will Smith de um amigo meu), capengados, com imagem semelhante a uma VHS semi-nova.
Muito desse caminho é feito de “cima para baixo”, a pirataria vindo da NET e passando de mão em mão nos ambulantes da vida. Mas é certo que hoje filme pirata é comercializado para todas as cores, classes, de maneiras diferentes, mas chegam lá. Fechando locadoras, despencando o preço dos DVDs originais, aumentando o desemprego, fazendo com que os artistas consagrados façam milhares de campanhas contra a pirataria, revelando artistas novos (lê-se Fantasmão, Harmonia do Samba...), popularizando o cinema (coisa que Hollywood nunca conseguiu realmente fazer), sustentando o crime, popularizando ainda mais a pornografia (com DVDS das Brasileirinhas e da Pau Brasil sendo vendidos abertamente nas ruas), entregando a nova mania do momento os dvds dois, três, quatro, cinco em um! Tudo isso sendo feito por um preço realmente baixo, que atinge a toda a população.
Por conta da pirataria muita coisa ruim aconteceu. Mas a população negra e pobre, mesmo que com a baixa qualidade dos dvds piratas, pode usufruir do mesmo filme que o “bacana” da zona nobre assiste no multiplex. Filme é informação e esta é sinônimo de poder. E poder ao alcance das mãos por uma pechincha? Realmente irresistível! Foi assim com o fenômeno Kiriku e a Feiticeira e sua continuação, os dois filmes foram espalhados pelo Brasil cópia por cópia feito em casa ou multiplicada nos ambulantes. A pirataria como tudo nesta vida, tem suas vantagens e desvantagens... Uns lucram, outros ficam desempregados, uns não mais esnobam, outros agora assistem... E segue as vendas do novo dvd do momento, Ó Pai Ó da telinha para o camelô bem perto do seu dvd.e que venha a continuação ou a segunda temporada... onde será que você vai assistir?...

sábado, 27 de setembro de 2008

INCOMODAR... SATISFAZER...


Neste mais de um ano de blog nunca recebi uma manifestação contrária ao conteúdo do mesmo. Nunca! Abertamente falando não. Claro, tem gente que não gosta, torce o nariz, coisa e tal, no início acharam que não iria acontecer nada, era só fogo de palha meu e que nada mais que duas ou três postagens iriam ser colocadas no Película Negra.
Mas como parece que tem a primeira vez para tudo neste mundo, eis que esta semana surgiu nos comentários a seguinte postagem no texto Meu Deus Existem Gay Negros 2...

Anônimo disse...
VOCÊS MACACOS NÃO APRENDEM NUNCA! JAMAIS IRÃO SER IGUAIS AOS BRANCOS, POIS VCS SÓ SABEM DESTRUIR E SE PROCRIAR! SENZALA PARA MACACO JÁ COTAS PARA MACACOS NAS PRISÕES!
25 de Setembro de 2008 01:०३


Covardia por um lado e coragem do outro! Covardia por não colocar o nome, é obvio! Mas para muitos racistas guardados no armário (coisas do nosso Brasil... rsrsrs) um se manifestou! Pode também ser encarado como uma brincadeira sem graça... Mas eu não encaro. Mudei a configuração do blog, infelizmente... Agora modero quem entra e quem sai! Para que este veículo continue... Satisfazendo... Ou incomodando...

sábado, 23 de agosto de 2008

Noah's Arc por Patrik-Ian Polk


Falar sobre negritude homossexual (ou seria homossexualidade negra?!) na mídia é ao mesmo tempo fomentar o debate sobre invisibilidade. As formas de opressão a estes sujeitos gays negros ficam implícitas, pois o mundo gay construído é arraigado em padrões heteronormativos brancos. Não digo que não exista gays negros na mídia, eles existem e o outro post prova isto, mas o processo de aparecimento/desaparecimento é distinto perante ao mundo gay branco que tem mais ênfase dentro da mídia.
Por exemplo: Assistir Queer as Folk a procura de uma representação negra dentro da série é um bom exercício à paciência! O seriado (que já acabou faz algum tempo, mas ainda é referência no mundo inteiro) tem seus atrativos, um bom roteiro, bons atores, ótimos diálogos, cenas realistas que flertam com o fantástico jogado vez por outra em alguns episódios. Também tem a seu favor a quebra da “narrativa da revelação” que aprisionava muitos filmes/séries que passavam pela temática gay de alguma forma. Trata-se do processo de saída do armário e de como este gay enfrenta este estágio da vida. De regra, com a temática, vem o dramalhão, construindo as relações homossexuais a partir do sofrimento da descoberta sobre si mesmo. Queer também tem seu personagem que sai do armário, mas seu principal foco é de uma sexualidade homossexual bem resolvida e não que ainda é construída com vergonha e receio.

Mas mesmo fugindo da premissa da revelação o seriado acaba entregando ao seu público alvo uma nova normatividade. Ao apresentar a comunidade gay a partir de um só esquema (o branco!) exclui outras formas de percepção e identidades. Não existe homossexualidade e sim homossexualidade(s). O travesti, a lésbica, o gay, a trans, as drag queens ou kings, andrógenos, efeminados, durinhos, com suas raças diferentes, tem de tudo neste mundo. E estes sujeitos, apesar de diferentes, por conta de todo preconceito arraigado na sociedade vivem às vezes nos mesmos espaços em uma sociabilidade comum.
Queer as folk cumpre o seu papel, de transgredir, mas estaciona... Mas como parece efeito da "branquidade" somente se enxergar e não ao outro, isso é quase uma normalidade... Tanto que para compor uma outra parcela da população gay (masculina) foi criada a curta (somente duas temporadas!) Noah's Arc, com gays negros. Noa também não escapa de alguns defeitos vistos em Queer... os mundos são separados. Brancos de um lado e negros do outro. Sim, sabemos que estamos falando dos EUA, mas as relações racistas entre brancos e negros gays se dão em um aspecto um pouco diferente dos heterossexuais. O aspecto sexual e o fetiche ganham contornos únicos no mundo gay e estas relações são postas nas séries, mas não são problematizadas a fundo. Brancos e negros, mesmo dentro de uma sociedade racista, se relacionam. Além disso, a comunidade gay é vista com um novo modelo a ser seguido: um padrão homossexual!

Um outro ponto, trazido desta vez por um amigo meu, é o fato das series darem ao espectador a ilusão de que está tudo quase 100% para os gays de todo mundo. Sabemos o quanto à mídia pode ser universalizada e não necessariamente todo espectador sabe que aquilo dali é exclusivamente fantasia ou somente acontece naquele lugar onde se passa a história. Os gays de Queer e de Noa se beijam na rua e as pessoas ao redor não dizem nada! Não fazem nada na maioria das vezes! Nos EUA em alguns lugares dá para fazer isso! Mas e o que acontece aqui no Brasil?... Óbvio que aqui não dá nem pro gasto! E ai vem à ducha de água fria. Aquilo somente acontece lá e não aqui! Claro que tem gente que enfrenta, que está de saco cheio para a homofobia e “dá de frente com ela!”, mas ainda não vivemos em um mundo igual a séries americanas que contam historias sobre o mundo gay masculino formulado a partir de conceitos estadunidenses.
As identidades homossexuais são múltiplas! A comunidade é diferente, sofre e se alegra de maneira distinta, mas vive na maioria das vezes nos mesmos ambientes, pois a homofobia acaba colocando estes sujeitos em espaços cada vez mais restritos da sociedade “comum”, já que para a heteronormatividade a homossexualidade é única, sabendo da existência de sujeitos diferentes, mas não os reconhecendo!
Padrões homossexuais, padrões heterossexuais... Somente personagens brancos, somente negros... A mídia está cheia deles, ela precisa ser dirigida e dirigir através desses padrões para maior controle do público. Já que um público igual, com as mesmas idéias é bem mais fácil satisfazer que um múltiplo, cheio de exigências diferentes e consumo exclusivos. Estabelecidos os padrões, os que fazem à fantasia estão tranquilos... Não haveria contraste, nem confrontos. Ou seriam os feitores da ilusão?


quarta-feira, 2 de julho de 2008

Yesterday" é o primeiro filme rodado totalmente em zulu, umidioma que deu mais que problemas para o diretor, Darrell Roodt।"A gente está habituado a rodar filmes na África do Sul por suasbelas paisagens, mas ninguém queria fazer algo em zulu", reconhece odiretor, que teve a ajuda da Fundação Nelson Mandela."Yesterday" é o nome da protagonista do filme, uma mulheraidética que começa uma longa marcha a pé pelo país, acompanhada desua filha e em busca de tratamento para a sua doença. "Nunca quis fazer um documentário sobre a aids, mas um filmesobre os zulus", resumiu o diretor.

quarta-feira, 25 de junho de 2008

“Novas” Identidades Negras e a “Nova” Mídia!...

Antropólogos, sociólogos, psicólogos, historiadores, educadores, membros de movimentos sociais, enfim uma gama de profissionais já escreveram, comentaram, trabalharam, debateram, provocaram sobre o papel do negro na mídia brasileira e também nos produtos estrangeiros que volta e meia aportam em nossas televisões e salas de cinema. A constatação de muitos deles é a de que o negro é quase que um ser invisível. Quando seu corpo aparece na tela ele configura-se como um objeto, não há vida nele a não ser pela total dependência subserviente deste com outros personagens, geralmente brancos.
Filmes infalíveis discutiram isto: A Negação do Brasil, documentário já clássico do cineasta brasileiro Joel Zito e A Hora do Show de Spike Lee são grandes exemplos. Recentemente até um musical passou ligeiramente sobre esta temática, trata-se de Dreamgirls, ao mesmo tempo em que constrói a historia da musica negra norte americana e conta a vida e os percalços das integrantes do trio fictício, mostra como os produtos negros são reconfigurados no mundo branco de forma oportunista.
Mas o negro que antes era invisível agora se tornou manchete! Está em muitos lugares, ocupando o centro das atenções. Há séries com negros (norte-americanas é verdade!) ocupando quase toda a programação da tarde de determinados canais. Personagens negros ricos, com importância na trama nas novelas. Racismo debatido na tv brasileira. E quando o intervalo comercial começa vemos negros com o sorriso largo anunciando o mais novo produto.

O que mudou mesmo é que deixamos de ser invisíveis para sermos reconhecidos como minoria. Quando o negro é discutido na televisão brasileira, é posto da forma estadunidense de ser; então somos tratados da forma estadunidense de ver as coisas. Mesmo sendo maioria da população, somos tratados em quase todos os veículos da mídia como minoria. Ao mesmo tempo em que a mestiçagem é evidenciada como a característica mor dos brasileiros, casais inter-raciais são mostrados com um chamariz absurdo, como algo tradicionalmente tabu em nossa sociedade. O racismo é interpretado de maneira violenta, universal, não mostrando suas características brasileiras impares, que este pode sim revelar-se sutilmente e violentar os sujeitos negros aos poucos.
Foram postos os vilões de um lado e os mocinhos do outro! A mídia que coloca os negros na parede, quando não os enforca de vez... E os movimentos negros que queriam representações dignas da afro-brasilidade.
Estes movimentos conquistaram muita coisa. Foram responsáveis pelas várias transformações que a tv brasileira passou nestes últimos anos. Personagens, histórias e culturas, foram introduzidas por conta da luta destes vários movimentos negros... Mas agora o movimento está tomando forma em um outro corpo. A própria mídia que antes era acusada, agora formula suas próprias visões do mundo negro.
Então não queriam personagens negros com desenvolvimento na mídia?! Tome a primeira protagonista negra nas novelas da Globo, Tais Araújo em A Cor do Pecado, que se fosse feita por uma atriz branca não faria muita diferença... Ou o primeiro e único apresentador afro-brasileiro do Brasil a ser visto por muitos em horário nobre no Domingo, Netinho de Paula dando uma de Oprah Winfrey de calças no Domingo da Gente... Aliás, cadê ele eim?!!!... Quem sabe Lázaro Ramos fazendo papel de idiota na novela das sete? (Foguinho – nome do personagem do ator na novela Cobras & Lagartos – virou apelido de alguns meninos negros que são tidos como palhaços aqui na Bahia!) Tem mais, uma família negra nas novelas da Record (sim, a dos mutantes!!!) que se dissolve lentamente – o filho gay que muda-se para o estrangeiro, o outro filho vivido por Tony Garrido que casa-se e vai embora... Ou em A Favorita uma família negra (a única) podre de rica, estúpida, alto suficiente, maléfica e que briga entre si pra ver quem possui mais ego frustrado! Também na antiga novela no SBT, Amigas e Rivais um personagem negro que não me lembro nome agora (ele não tinha importância mesmo...), vivia o já batido conflito de namorar uma garota branca... Ele é pobre, é negro, mas e daí?! O importante é o amor... Em Duas Caras, que ainda está na memória do espectador brasileiro, havia uma quantidade grande de personagens negros, envoltos em todo tipo de alquimia televisiva. Todo branco queria namorar um negro e todos empunhavam o discurso do “preconceito, coisa feia!...”, quando não ressaltava a mestiçagem como fator nato no Brasil.
Tudo feito de cima para baixo. E não se pode mais reclamar, pois a mudança esta sendo feita e ainda pelo próprio órgão que desprezava o sujeito negro. A mídia assume o poder e o espectador pensa que esta sendo representado e que seus problemas estão sendo mostrados na televisão. No final, todo mundo aplaude a atração que incluiu a minoria. E os papeis sociais estão sendo feitos e o racismo no Brasil é combatido. Do jeito deles, para o bem deles mesmos...

segunda-feira, 16 de junho de 2008

O MUNDO DO OBSCENO...

Existem duas coisas neste mundo que dão dinheiro a rodo, conseguindo público consumidor sempre fiel e sem enfrentar crises financeiras terríveis: DEUS E SEXO! São dois assuntos completamente diferentes – ou encarados como diferente pela nossa sociedade – mas que independente da época, da crise econômica e dos problemas que cada sociedade enfrenta, faz fortuna e deixa muita gente nadando no dinheiro. Mesmo sendo antagônicos, os dois assuntos provocam homens e mulheres em todo mundo. Como as duas temáticas tratadas em um post só dariam um trabalho danado, além de ser extremamente complicado falar de Deus e sexo sem despertar a ira dos fanáticos de plantão, vamos falar e concentrar nossas idéias – desta vez – no mundo do obsceno.
Falar de filmes pornôs, hoje parece algo normal. A indústria cinematográfica pornô passou por várias reformulações. A primeira, de pequenas produções extremamente proibidas a filmes feitos em 35mm, projetadas em grandes cinemas alcançando sucesso mundial. Logo depois veio a popularização dos filmes com a chegada do vídeo cassete que afastou um pouco o espectador do cinema e o colocou em casa, vendo o seu “filme de sexo” com o conforto e o sigilo do seu lar. Com a década de 90 a indústria de cinema pornô conheceu o dvd, a web e as TVs a cabo como grandes veículos divulgadores de suas produções, conservando ainda mais a identidade de seus consumidores.
O mundo pornô hoje não é mais tão longínquo como há décadas atrás. É possível em qualquer esquina de uma cidade comprar filmes de artistas consagrados no meio como Vivi Fernadez, Julio Vidal, Toni Tigrão, Pablo Picasso, Pámela But (os nomes são os mais criativos possiveis!!!) em camelôs que dividem os filmes de sexo explicito com os mais novos lançamentos Disney. Tornou-se mais acessível, mas não liberal. Vemos a ascensão de artistas “quebrados” no meio tradicional, como Rita Cadilac e Alexandre Frota, conseguindo fama e dinheiro no submundo pornô, sendo motivo de calorosas conversas em rodas de jovens e também senhoras recatadas, calorosas e concorridas festas de lançamentos de superproduções pornográficas sendo feitas em todo país, mas este universo ainda não deixou de estar envolto em uma redoma proibida.
E o que seria dos filmes pornôs e de todos os seus profissionais se este não estivesse diretamente ligados ao proibido? Nada! O pornô está inteiramente ligado ao tabu. Ele serve como um revelador de algo que acontece debaixo de nossos narizes, mas em que momento nenhum deve ser revelado a luz do dia, como normalidade. Ao esquema do pornô estão às fantasias, os fetiches mais bizarros, as sexualidades (homo e por que não dizer hetero também!!!) enrustidas, o prazer em instituições aparentemente acima de qualquer suspeita – lê-se Exército e Igreja – ao adultério, ao incesto, a traição, enfim ao vasto mundo do proibido.
E este proibido submundo precisa de atores e personagens para sobreviver. Precisa de fantasias, de criar estereotipos, modelos para compor suas histórias. O filão é grande... A empregada fogosa e seu patrão, o policial violento, a enfermeira, o escravo do prazer, o amante, a lolita, o soldado, o ídolo, o pedreiro, a prostituta, a esposa traidora etc. Mas nenhum outro arquétipo pornográfico faz tanto sucesso quanto o ser negro...
Não é novidade para ninguém os estereotipos edificados pela dramaturgia tradicional como o buck, a mamie, o pai Tomás, a mulata perniciosa, alguns importados, outros construídos aqui mesmo em nossa terra. Mas o mundo pornográfico constrói seus próprios paradigmas, suas próprias fantasias. E o ser negro (homem ou mulher) ganham destaque em suas produções.
O estereotipo do homem negro de pau grande e da mulata com alma de prostituta são recorrentes em produções pornográficas gays e heterossexuais. Ao contrário do homem branco que precisa arquitetar um outro universo para sair do habitual, o corpo negro é um fetiche a parte, ele pertence à camada do proibido. Um homem negro, com pênis excessivamente grande, alto, geralmente com cabelos raspados, em uma noite escura é motivo de grandes fantasias na pornografia. A ele são ligados outros modelos pornográficos como, o escravo forte reprodutor, o empregado submisso, o homem perigoso, estuprador. Ao ser negro é unido quase sempre um papel submisso que vai ser convertido em poder sexual, o único que – dentro das temáticas e fantasias pornôs – o ele pode ter.
É curioso comentar também que no mundo pornô suas produções estão ligadas a temática racial. A branquitude é ligada à normalidade (nada de muito surpreendente!!!), mas a negritude é ligada ao patamar exótico, sendo anunciados filmes “Somente com negros”, “Filmes inter-raciais”, “Japoneses com Negros” e outras combinações... O mundo pornô não faz questão de esconder sua visão excêntrica do corpo negro, pois vive de aguçar fantasias e papeis eróticos.
Para a pornografia o ser negro pode ser considerado como objeto perfeito. Apesar de para ser ator pornô o pênis do candidato possuir proporções anormais, o ator negro sempre vai ser considerado dentro de possibilidades ainda mais extravagantes. O ator então nada mais é que um pau grande e ereto, não tem uma função mais aguçada que a de ser um objeto. Também nos filmes pornôs a monogamia é instintivamente combatida, portanto, a traição efetivada com um homem negro é sempre mais completa... Há também a possibilidade de viver duplas aventuras com um só corpo: negro policial, negro empregado, negro escravo. As figuras sexuais são sempre ressaltadas junto ao copo negro e as falas dos atores são sempre evidenciadas colocando o copo escuro em favorecimento.
O corpo negro exibe em nossa sociedade uma construção de fetiche. Ligado a relações fortuitas, nada de muito serio, já que é perfeito somente para o prazer pelo prazer! A idéia de homem negro-maquina sexual tão estudada por historiadores, sexólogos, antropólogos etc. ganha novo significado no mundo pornográfico. Seus cortes, closes, cenários, figurinos somente contribuem para que o estereotipo continue. Para o pornô o negro está como uma carta na manga, tirada de surpresa para fazer a alegria de todos... de todas as fantasias do mundo branco e seus prazeres proibidos...

terça-feira, 10 de junho de 2008

Novo filme spike lee

O novo filme do cineasta Spike Lee, Miracle at St. Anna, já esta sendo produzido e ja começa a divulgar imagens. Abaixo o pôster, tímido, é verdade, do seu primeiro filme de guerra. filme se baseia no romance homônimo, de Walter McBride, que trata de quatro soldados negros dos EUA que lutam em território italiano, nas montanhas da Toscana, contra o exército nazista. Enquanto estavam presos em uma vila, os quatro, integrantes da 92a. divisão, precisaram lidar não só com o inimigo como também com a incompetência e o racismo dos aliados. É torcer para que este seja mais um bom filme da carreira de um dos diretores mais contundentes de Hollywood.

domingo, 30 de março de 2008

A Cor Purpura: Percepções sobre Celie.

Falar de A Cor Púrpura em um blog destinado a cinema negro é quase um clichê! O filme, dirigido por Steven Spielberg, baseado no livro de Alice Walker, vencedora do premio Pulitzer e que marca a estréia de Whoopi Goldberg nos cinemas é um marco do cinema negro norte-americano. Trata-se de um filme que pouquíssimas pessoas no mundo não gostam. A maioria entrega-se por inteiro a historia de uma mulher violentada pela vida que escreve desabafos a Deus para diminuir o sofrimento do seu dia a dia. A personagem Celie, interpretada no cinema com maestria por Whoopi, é de um impacto estrondoso. E é incrível como, mesmo não tendo experimentado todo o contexto do seus sofrimentos e pequenas alegrias, o espectador imediatamente se vê na pele da personagem.
Não considero A Cor Púrpura um texto universal. Alice Walker tem uma visão muito particular do mundo que constrói. É um livro feito para mulheres, isso sem duvida. A cada linha, a cada personagem que surge, a historia vai se desenvolvendo inteiramente com uma perspectiva feminina. Alice Walker deixa claro que o mundo dominado por meninos e homens chegou ao fim e que uma historia sobre mulheres vai ser contada. E a mulher que Alice fala é negra. Celie é negra e fala sobre o mundo que vive com seu olhar negro. Ela retrata o mundo sulista dos EUA de forma realista e como o mundo negro se comporta de forma diferente mesmo sem o contato com os brancos que estão afastados deste contexto.
O filme e o livro são instrumentos completamente diferentes. Sei que estou sendo obvio, afinal de contas são textos diferentes. O filme de Steven Spielberg é uma outra coisa. Não pior, ou melhor. Diferente! A Cor Púrpura – o livro – é escrito na forma de cartas entre Celie e Deus / Celie e Nettie – sua irmã que está na África e Nettie e Celie. A própria Alice evidenciou várias vezes que demorou a se acostumar com o outro produto que se tornou a adaptação de seu filme. Depois de inúmeros roteiros feitos a versão que chegou aos cinemas escapava da narrativa não linear de Walker e passava a ser uma historia com “inicio – meio – fim” nas mãos do roteirista Menno Meyjes – que iria mais tarde participar de outros filmes de Spielberg, como Império do Sol e Indiana Jones e a Ultima Cruzada.
As Celies também são diferentes. No livro a personagem que toma vida a cada página é muito mais submissa em um certo ponto, esperançosa com a vida e tem em Deus sue refugio, sua luz. No romance, Celie também tem contatos homossexuais e é através dele que se da uma das fases de sua libertação – cena que no filme teve que ser cortada após inúmeros debates entre os responsáveis se haveria ou não possibilidade de colocar ou não a cena na película. A opção foi adaptar o contexto da cena, usar uma metáfora – também a Celie no livro conhece através das cartas de sua irmã Nettie o continente africano, suas historias, seu povo, sua religião, sua natureza, os confrontos entre negros e brancos, sua alegria e principalmente seu colorido. Pela descrição de Alice não há como imaginar o mundo de Nettie com simples tons de cores... Tudo é infinitamente colorido e grandioso.
A celie do filme é um pouco limitada, mas oferece percepções que a do livro não tem. Apesar do texto de Alice abraçar a musica como forma narrativa, é pelo filme que esta característica do povo negro é muito mais presente. A musica de Quincy Jones, também produtor do filme traduz o mundo de Alice Walker precisamente. É bom frisar o trabalho de Quincy neste filme. Depois de uma carreira consolidada como musico e produtor musical – tendo no seu currículo artistas como Michael Jackson, Gloria Estefan, Whitney Houston e Will Smith – Quincy após ter lido o livro de Alice decidiu que iria fazer do romance um grande filme. É ele o responsável pela contratação de Steven e de Oprah Winfrey (que trabalhava na televisão e era admiradora incondicional do romance. Anos depois ela foi a responsável por levar o romance – agora com outro roteiro, para os teatros), além das belas composições feitas especialmente para o filme. E o curioso é que só depois do filme pronto e de todo o stress causado por ele, inclusive o fim do seu casamento por conta que o produtor não estava dando a devida atenção a sua esposa e filhos, que Quincy lembrou de fazer a trilha. Mas Jones acabou entregando uma das melhores trilhas sonoras de todos os tempos, destaque para as inesquecíveis “Miss Celie’s Blues” e “My Heart”, disponíveis em um cd duplo que além de te fazer reviver o filme traz o mundo negro mais juntinho do espectador.
Adoro A Cor Púrpura. Tanto o livro, quanto o filme e a trilha também. Produtos diferentes de uma mesma raiz, o pensamento da maravilhosa autora Alice Walker. Vi o filme inúmeras vezes, a primeira inesquecível me emocionando e acompanhando cada cena sem piscar os olhos. O livro li em três dias, uma experiência infinita, descobri personagens novos, sofrimentos meus que os

personagens colocavam a tona e eu achando que não eram sofridos por mais ninguém neste mundo... a trilha um fenômeno. Pequenas canções que possibilitam uma grandiosa viagem. E no final da experiências, Alice Walker ensinou-me que apesar do racismo e de todo o sofrimento que o povo negro passa existe redenção. E é pela fé em Deus que Celie consegue a sua redenção.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

FILHAS DO VENTO: SÍMBOLO DA HIPOCRISIA NACIONAL.

Direto ao ponto, sem embromações: considero FILHAS DO VENTO um dos piores filmes já feitos. Não do cinema nacional, pois “cinema nacional” não é gênero, cinema nacional produz filmes de ação, comédias, aventuras, filmes políticos, filmes pipoca, policiais e dramas. E como drama, este FILHAS DO VENTO é um filme muito mal feito.
Quando o filme chegou aos cinemas chegou cheio de expectativas. Dirigido por Joel Zito, do excelente documentário A NEGAÇÃO DO BRASIL (que também tem uma verso literária muito boa) e do impressionante curta VISTA MINHA PELE e interpretado por nomes como Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Rocco Pitanga, Thalma de Freitas e Thais Araújo, FILHAS DO VENTO era o filme que todo mundo queria ver. Seja por curiosidade de ver o primeiro filme com elenco principal inteiramente negro, seja por conta do filme poder desatar os nós de um “racismo cinematográfico” à brasileira ou por medo de Joel Zito ser um Spike Lee tupiniquim entregando ao público o primeiro exemplar de um cinema negro autenticamente brasileiro. O desejo era ver um exemplar de COR PÚRPURA e o resultado na tela era anos luz do filme produzido por Quincy Jones.

Primeiro porque a historia do filme, a cerca de duas irmãs que se desentendem na juventude e são obrigadas a resolverem os problemas do passado com o enterro do patriarca da família, é gigante e recheada de clichês। O roteiro se auto explica a todo momento e o espectador recebe o filme todo mastigado. Em algumas partes chega parecer novela, com um texto que excede em suas explicações por conta do tempo da trama, a quantidade dos personagens e a memória curta do espectador... Aliás, nem nossas novelas são mais assim...

Uma outra coisa que incomoda é a vontade de Joel Zito agradar os membros do Movimento Negro, melhor especificando o Movimento Negro Acadêmico। Ver Ruth de Souza, símbolo vivo do TEM – Teatro Experimental do Negro – soltando frases que parecem ter saído d dissertação de mestrado do momento é de doer à alma। O roteiro é cheio de frases de efeito e de um denuncismo que no final das contas serve somente para aumentar a duração do filme। Ruth de Souza em seu primeiro papel principal merecia um roteiro mais rebuscado।
Mesmo cheio de defeitos, FILHAS DO VENTO chegou aos cinemas e foi até o festival de Gramado, onde foi alvo de uma grande polêmica। O critico de cinema Rubens Eduard Filho disse que o júri estava tentando ser politicamente correto com FILHAS DO VENTO, pois tratava-se de uma película negra e ninguém queria ser taxado de racista por virar as costas para o filme। Daí começou a confusão e os atores ameaçaram entregar os prêmios se estes foram entregues por pena dos jurados. Tudo no final foi resolvido e nossa querida hipocrisia continuou no mesmo lugar. Somente uma coisa não tinha mudado: FILHAS DO VENTO ainda continuava ruim de doer!

Lembro como se fosse hoje, na estréia do filme em Salvador, da apresentadora do programa SOTEROPOLIS ter perguntado ao diretor Zito o porque de um filme somente com atores negros? Ele disse que seu filme não possui somente atores negros – Jonas Bloch está nele - mas que era um filme inteiramente protagonizado por negros. A apresentadora tapada com certeza não assistiu ao filme, nem se deu ao trabalho de verificar ficha técnica do mesmo antes de fazer a entrevista... Mas o que quero ressaltar com este caso é que mesmo ruim FILHAS DO VENTO incomoda. Acho que não pelo elenco ser negro, j´que produtos como CIDADE DE DEUS, ORFEU, XICA DA SILVA, CIDADE DOS HOMENS, também tem personagens principais negros, mas o diferencial aqui é que diretor e equipe também são negros. Isso sim incomoda.

Zezé Motta disse uma certa vez, que para mudar o quadro racista que existe na mídia não só o elenco teria de mudar, ms diretores, roteiristas, produtores (compromissados!) teriam de aparecer, pois são eles quem mandam na produção de um filme. Ou seja, que tem verba faz o verbo! Em AS FILHAS DO VENTO foi a primeira vez que negros tiveram espaço para falar de si mesmos, sem rodeios e intermediários. Mas infelizmente o filme não era lá grande coisa...
A mão hipocrisia estava em revistas e sites especializados em cinema. Criticas que não sabiam para que lado ir preferiam ser politicamente óbvias ter o atestado de “racista”. Estava estampado a idéia de que o filme não era bom, mas frases como “o primeiro filme nacional inteiramente negro” estavam lá para preencher espaço
Assisti a FILHAS DO VENTO depois de toda esta balburdia e polêmica em torno do filme। Não esperava um A COR PÚRPURA ou um A BEM AMADA, nada disso. Sei que cinema feito no Brasil é diferente e o racismo daqui é totalmente dispare de qualquer parte do mundo. Esperava o mínimo: uma produção cuidadosa (isso não quer dizer com grande orçamento!!!), com texto bom, que não fosse milimetricamente construída para agradar movimento social algum, um filme que fosse direto... Ainda não foi dessa vez, quem sabe na próxima...

domingo, 16 de dezembro de 2007

MEU DEUS!!! EXISTEM NEGROS GAYS...

Há alguns anos atrás a televisão era considerada um programa para toda a família. Uma família careta, sentada em frente à TV, sorridente, divertindo-se com seu programa de auditório favorito, ou desenho favorito, ou acompanhando a novela que mais gostava. Uma diversão para todos. Pois bem, a TV não é mais assim faz um bom tempo. De uns anos pra cá, os programas de tv (especialmente os seriados) vem ficando mais ousados, com historias que estão longe de serem mascaradas pelo conflito clichê do “vilão/mocinho”, são histórias mais reais, com personagens que se aproximam muito de mim, de você. Onde se imaginaria ver, num seriado de TV, o dia a dia de presos, desvendando totalmente sua intimidade, suas fúrias, paixões, seu lado humano e brutal como vimos em OZ? Antigamente isto era impossível. Mas parece que com a injeção de seriados como Arquivo X, Friends e Plantão Médico, a TV – especialmente a norte americana – vem ficando cada dia mais ousada e mais real.

A tv hoje fala sobre sexo, abertamente. Nip/Tuck, OZ, Sex and the City, Roma, A Sete Palmos, Os Assumidos, Família Soprano, Donas de Casa Desesperadas, Noah’s Arc, The L Word, Will & Grace se não expõem a sexualidade como tema central, falam de sexo abertamente explanando com seriedade temas como pedofilia, incesto, estupro, exploração sexual. Os tabus televisivos parecem que foram quebrados. A televisão norte americana fala sobre o tema antes proibido com tanta autoridade que se habilita a mostrar um mundo que antes era totalmente tabu no horário nobre: o mundo gay.

Os gays invadiram a televisão norte americana, para a ira das associações mais tradicionalistas e para o pavor das instituições religiosas, principalmente as cristãs. Os novos seriados expõem personagens homossexuais, longe do estereotipo da “bicha louca que serve como palhaço para provocar gargalhadas heterossexuais”. São personagens que sofrem, riem, brigam, tem defeitos, choram, amam, mas definitivamente não são bufões. Um fator importante deve ser notado nesta transformação televisiva: além dos personagens não serem meros fantoches, eles transam sem rodeios. Em séries como A Sete Palmos, Noah Arc, The L Word eles vivem desilusões amorosas, paixões, transas fortuitas e falam sobre suas vidas sexuais abertamente. Além disso, nas séries é discutida também a visão que a sociedade heterossexual exerce sobre eles, os conflitos, as várias formas de homofobia e um contra discurso construído pelos personagens para se defender da homofobia.

Mas este “bum” de sexualidade gay na tv nossa de cada dia, desconstrói estereotipos e edifica outros. A maioria dos seriados expõem gays com beleza padrão, com corpos perfeitos, bem sucedidos na suas carreiras profissionais, masculinos, na sua maioria são bem de vida e brancos... Destas tantas que citei, algumas vão mais a frente, expondo um modelo diferente de sexualidade homossexual como Noah’s Arc, A Sete Palmos, The L Word e OZ. Todas elas apresentam gays negros entre seus personagens, sendo que uma delas eles representam a maioria dos personagens. Noah’s Arc pode ser encarada como uma espécie de Sex and the City para gays afro-americanos e conta a historia de Noa um aspirante a roteirista de cinema que tenta encontrar sucesso na vida amorosa e na vida profissional. Ele é acompanhado pelos seus amigos Alex, Chance e Ricky. Cada um com uma personalidade, um caricato, um outro galinha, um romântico e outro centrado. Serve para ilustrar que dentro das categorias sexuais os sujeitos não são estáveis e que há diversidade em uma mesma orientação sexual.

Além dos personagens do Noah’s Arc existem outros como em The L Word, seriado corajoso sobre a vida de lésbicas, em que uma das personagens é negra. Em OZ a homossexualidade de alguns presos é exposta totalmente, existindo aqueles que são encubados e fazem suas práticas as escondidas, outros são abertos, outros que expõem sua sexualidade de forma violenta através de estupros... E o caso de A Sete Palmos... série aclamada pela critica, ganhadora de inúmeros prêmios, criada pelo roteirista de Beleza Americana Allan Ball, que no meio de personagens tão excêntricos há um policial negro gay muito bem resolvido chamado Keith Charles. O personagem do ator Mathew St. Patrick, namorado de um dos personagens principais coloca a identidade “no armario” de seu companheiro em xeque a cada vez que os conflitos ficam mais abertos. Na série a “narrativa da revelação” é confrontada com uma outra totalmente resolvida e que enfrenta a homofobia de frente. Em alguns episódios, a trama centra-se completamente na sexualdiade dos personagens, mesmo que o tema central da série, na verdade, seja a morte.

Evidenciar que existem gays negros não serve somente para quebrar valores da comunidade LGBTT e evidenciar que existem negros homossexuais que vivem afastados do mito do “Deus de fome sexual ininterrupta”, que só é convidado para o mundo gay branco de classe média urbano na hora de satisfazer suas exigências sexuais. Estas séries servem também para trazer a superfície um tipo de masculinidade diferente da negra heteronormativa.

Por que o modelo de masculinidade negra presente em séries do mercado negro (norte-americano, brasileiro, ou seja de que lugar for...) é o modelo heteronormativo। Sempre a família negra correta, politicamente correta, ou de personagens negros fortes, corajosos, que detém a atenção das mulheres pela sua bravura e fazem tudo pela família... Prison Break, Everybody Hates Chris, 24 Horas são alguns exemplos. Aqui o negócio não é muito diferente, Cidade dos Homens e Antonia não figuram diferente da cartilha americana de tipos negros heterossexuais.

Assistir a televisão hoje não é mais um exercício careta. Enxergamos a diferença no ato e estas séries que falei mandam o politicamente correto para as cucuias, pois este tipo de posicionamento nunca nos levou a lugar algum... Sabemos todos que a televisão brasileira (e suas novelas e seus personagens negros, gays, ou negros/gays) chega a ser muito mais hipócrita que a real sociedade em que vivemos. Existe uma salvação, a tv a cabo ou as caixas de dvds que aportam em todas as lojas do país, ou ainda se você tiver paciência para esperar, baixar na NET todas as séries de uma só vez. Não digo que a solução é trocar uma televisão por outra, pois a deles também não é grande coisa... Mas se a nossa está preocupada com a audiência tradicional e não sentiu ainda que o DIFERENTE traz muito mais ibope, fazer o que?...

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

Olhos Azuis.

Eu assisti a esse OLHOS AZUIS numa madrugada de Sábado para Domingo. Comecei a assistir esperando um filme chato ou quase que me trouxesse sono mais rapidamente. No final do filme, estava com meus olhos mais que abertos. Parecia que tinha tomado uns doze litros de café... Não dormi logo depois, nem depois de uma hora, nem depois de muito tempo... O filme e a experiência que a professora Jane Eliott nos mostra deixaram-me atordoado! Assistir a OLHOS AZUIS é uma experiência única. Para os brancos, serve para verem (melhor!!!) aquilo que são responsáveis todos os dias e aos negros, para acordarem do sono absoluto da boa convivência!...

Após a morte de Luther King, a senhora Eliott passou o seguinte exercício para seus alunos, todos eles crianças brancas de uma pequena cidade norte-americana: ela os dividiu em dois grupos, os de olhos castanhos e os de olhos azuis. As crianças de olhos castanhos, ela colocou um colar verde de pano, para que ficasse mais evidente a cor dos olhos destes a uma longa distância. Ela diz então, que a partir daquele momento as crianças vão julgar umas a outras pela cor dos olhos. Ela diz também, que como é a professora e tem olhos azuis, as crianças de olhos azuis vão ser bem tratadas, pois são mais inteligentes, mais limpas, mais educadas e as que têm olhos castanhos não... Que quem tem olhos castanhos só pode usar bebedouro num copo descartável e não podem brincar com as de olhos azuis, pois não são tão boas quanto às de olhos azuis. Aparentemente uma brincadeira, a “pedagogia” de Jane Eliott revela-se, logo depois, algo diabólico...

Logo no recreio, as crianças de olhos castanhos ficam tristes, sem amigos, sem a liberdade que toda criança merece para brincar. Começam também a brigar com os meninos de olhos azuis, estes por se acharem superiores batem nos outros meninos, instaurando um clima de conflito na escola. A professora faz uma reflexão em sala de aula: se os garotos e garotas de olhos castanhos gostaram de serem tratados daquele jeito? Eles dizem que não. Que se sentiram burros sendo julgados dessa forma, eles sabem que na verdade não são burros, mas se mantém calados, pois todos estão dizendo e tem um momento em que eles acreditam naquilo que inventaram sobre eles. as crianças começam a evidenciar também que estão vivendo como negros, humilhados, zombados, separados... e viver como um negro, para elas, não é uma coisa boa...

A partir desse exercício, a professora Eliott começou a fazer vários workshops por todo o EUA com esta mesma temática. Sempre usando aprendizes brancos. Variando, entre jovens e adultos. O documentário propriamente dito, centra-se em um desses workshops em que adultos brancos são separados pela cor dos olhos e tratados como pessoas de QI dispares.

Revelam-se as várias naturezas existentes no racismo. Os pequenos detalhes, as relações de poder que não são vistas abertamente no dia a dia, a forma como o racismo coloca o homem branco num lugar superior na sociedade e dizimam aos poucos todos os outros que vão diferente de sua fisionomia. Evidencia de onde vem o racismo, para que ele serve e quem precisa da existência dele. E de como o racismo é algo tão bem formulado que chega um momento que não precisa mais de seus inventores para se propagar, pois ele se instaura como uma praga no outro e faz com que os subalternos briguem entre si em favor dos considerados superiores.

O filme OLHOS AZUIS surpreende pela sua protagonista, uma mulher branca, professora que aplica um teste violento em outros brancos e cria uma validade por falar que são os brancos os grandes propagador-responsáveis e usufruem de todos os mecanismos alcançados pelo racismo e são eles que não querem que o racismo deixe de existir. Muitos falam que não são responsáveis por tudo que acontece com negros, gays, latinos... Mas ela chama os liberais à responsabilidade com mãos de ferro! Em vários momentos vemos adultos (homens e mulheres) chorando, abatidos, por serem separados, humilhados. A seguir o argumento da professora: vocês não agüentam por uma hora o que toda pessoa negra vem agüentando desde quando nasce?... Isto é no mínimo, arrebatador.

Algo extremamente interessante é o complexo que os subalternos estão sujeitos. O racismo convence o sujeito que ele é incapaz e que está numa situação subordinada, pois é diferente. E aqueles que pensam de forma diferente, que também são inteligentes, que também são capazes, devem ser silenciados.


Estamos hoje num momento impar no nosso país. Ao mesmo tempo em que o racismo é combatido de frente pelos vários Movimentos Negros, vários liberais entram na luta para (dizem eles!) lutarem também contra o preconceito, seja ele de que forma for. Eles dizem que vem para ajudar e não são racistas, não são responsáveis pelos preconceitos formulados no planeta, são diferentes. No filme, a professora Eliott chama estes brancos liberais à responsabilidade: Sim vocês são responsáveis! “Mas eu não faço nada com ninguém!” diz um deles revoltado. Mas não fazer nada, segundo ela, já é uma grande coisa para que o racismo se propague... O reconhecimento na verdade, é o primeiro passo para uma luta mais concisa.

O filme OLHOS AZUIS evidencia o obvio: que o racismo atinge ao branco e ao negro de formas diferentes. Que o negro sempre é levado a pensar sua negritude, seja como subalternidade ou como resistência e alegria entre os seus. Ao contrário, o branco nunca é levado a pensar sua branquitude, já que ela nunca foi testada, nem humilhada, nem posta em xeque... A branquitude para o branco não existe. Não é uma identidade. É nada... E é neste caminho que a professora traça sua pedagogia... Colocando a identidade branca em xeque, da maneira mais violenta e desumana possível... Para quem sabe ser reformulada e mudar num futuro, verdadeiramente...