sexta-feira, 1 de junho de 2012

APERTE O PLAY!!! Marysa feat Nichols - VINI

Dois deuses da zouk music! Marysa, que sou fã e falei por aqui com seu cd SENSUAL e o cantor Nichols, desta vez comportadinho, sem tirar a camisa, sem insinuações de sexo com ninguém... Esta musica está no cd SENSUAL da cantora, o clip é velho, mas a maioria das pessoas aqui no Brasil ainda não se renderam ao zouk, então vale a pena postar. Se você acompanha o PELICULA NEGRA sabe o quanto gosto de zouk, então... De quebra, aula de zouk com os dançarinos mostrados na festa. E o clip é lindo! Vale a pena ver!!!


sexta-feira, 25 de maio de 2012

O MELHOR E O PIOR DE... Will Smith

Na semana de estréia de MIB 3, nada melhor que seu principal astro para esta postagem.


O MELHOR: EU SOU A LENDA. Como carregar um filme inteiro nas costas e praticamente sozinho?... A resposta está no carisma do ator, que o diretor não foi besta e soube aproveitar direito em toda metragem do filme. Will está em ótima forma, extremamente concentrado, bonito e faz aqui o que sabe fazer melhor, salvar o mundo. Este filme está dentro de uma leva de bons filmes que Will vinha fazendo ano após ano. Digo que é dificil a tarefa de escolher o melhor de Smith, pois a maioria dos filmes dele são bons. E ele não é homem somente de atuar não. Produz a carreira dos filhos, vai na contramão com a carreira de cantor, é produtor de filmes que passa longe como ator e de suas próprias séries de TV. Não é a toa que tem o titulo de un dos maiores atores de Hollywood, um dos mais lucrativos e o mais quisto pelo público. Da-lhe negão!




O PIOR: AS LOUCAS AVENTURAS DE JAMES WEST. Recenemtente até o próprio ator confessou que este é o ponto morto de sua carreira. Feito no primeiro auge de Smith durante a decada de 90, pós o sucesso de OS BAD BOYS e INDEPENDENCE DAY, esta vitamina de banana mal feita, faroeste + ficção cientifica + filme de ação de 5º categoria, foi um fracasso merecido. A unica coisa que se salva no meio de tanta meleira é a trilha sonora do próprio Smith que por ter feito a trilha de Man in Black (muito sucesso obrigado!) se arriscou novamente no gogó nesta produção aqui. Lembro até hoje o acontecimento da apresentação do astro em um premio da MTV. Pena que o filme não chega aos pés da pressão feita na sua epoca de lançamento. Notícia boa? Trata-se de um dos poucos exemplares de Will com trabalho ruim em anos de carreira.


quinta-feira, 24 de maio de 2012

Desde Que o Samba é Samba de Paulo Lins.


Infelizmente é inevitável não pensar em CIDADE DE DEUS quando se lê este DESDE QUE O SAMBA É SAMBA do renomado/concorrido/super cultuado Paulo Lins. Até o caminho da compra do livro, seu livro antigo que virou filme (um dos maiores sucessos de bilheteria nacional) faz questão de ser lembrado. Na prateleira da livraria olha Cidade de Deus pegando no seu pé das mais diferentes formas: edição antiga, edição de luxo pós sucesso do filme, edição de comemoração de tantos anos de lançamento com textos adicionais de fulano e beltrano...
Aí voce senta a bunda no sofá e começa a ler este novo livro de Paulo Lins. Um dos poucos escritores negros de sucesso aqui no Brasil. Meu objetivo na livraria nem era comprar um livro dele, mas algum livro falando sobre negritude que não fosse de tema sofrido. Se quisesse isso (JESUS!) tinha demais – curioso é o numero de escritores brancos que sabem ver um mundo sombrio dentro da negritude, mas isso é assunto para outra postagem... – mas um livro com personagem negro, protagonista, leve, nossa como é difícil conseguir...
Ate que me veio à cabeça Paulo Lins. E resolvi apostar. O livro dele estava ali, pedindo para ser comprado. Comprei! Acabei devorando ele em pouco mais de uma semana. Resultado? Um livro bom! Um protagnista marcante, humano (defeitos e qualidades que fazem ele se aproximar demais da gente...), um símbolo sexual feminino com certeza reconhecido daqui a muitos anos e mais uma vez fatos históricos maravilhosamente arquitetados junto à ficção.
Por que é um livro bom? Por que o livro começa de forma magistral, mas acaba de forma “qualquer coisa”. Qualquer coisa mesmo!!! Mas vale a leitura e uma boa leitura. O livro não é daqueles que te faz ficar ansioso pela próxima folha, ou adiar seu fechamento, já que te mantém grudado nele... Não. Este te seduz aos poucos, vai revelando o povo, as ruas do Rio de Janeiro, o samba tomando forma, o politicamente incorreto do mundo dos cafetões, a putaria das prostitutas que gostam do perigo, a putaria do povo politicamente correto que diz não fazer, mas não consegue viver sem uma boa sacanagem e a homossexualidade de alguns personagens (históricos ou não), tudo aos pedacinhos. Em um mundo que até a literatura atual mais se parece com textos de um blog curto, fazer escrever literatura que nãos e parece com roteiro de cinema é um desafio.
Desde Que o Samba é Samba fala sobre justamente o mundo do ritimo que transformou o Rio de Janeiro. O samba carioca e seu lugar e personagens de nascimento. Gente famosa e inventada, tudo junto e misturado. Vemos um Brasil, pós abolição, com mudanças históricas revolucionárias. É neste Brasil, mais precisamente no mundo das putas e cafetões, que o samba vai encontrar achego. Também o livro dá lugar merecido ao povo de santo (Ubanda e Candomblé), que em seus centros e terreiros este ritimo cresceu e viveu por muitos anos. Neste cenário Lins dá vida ao triângulo amoroso Brancura, Vladirene e Sodré.
Brancura é um protagonista marcante. Negro, alto, forte, terno muitas vezes impecável, politicamente incorreto, safado, puto, sem vergonha, trabalhador, humano, macho alfa, doido por uma confusão, desafiador dos fundamentos de Exu... Eis um personagem negro incrivelmente RICO! Em todos os sentidos. Só lendo para entender seu desenvolvimento, sua tentativa de sair do mundo da zona e suas justificativas quando descobre que aquele mundo é seu de verdade. Fora que Lins acabou escrevendo uma lenda!
Já Valdirene é um símbolo sexual de proporções gigantescas. Além disso, é uma mulher guerreira, força inigualável, safada como toda mulher puta tem que ser. Sua garra lembrou muito Rita Baiana de O Cortiço. Mas ela é ela rsrs! Escrita como uma mulher que consegue amarrar qualquer tipo de homem. Ela consegue fazer com que um personagem largue as surubas masculinas para ficar no aconchego de sua vagina! Isso é que é mulher! Outra personagem politicamente incorreta no texto de Lins.
O escritor Paulo Lins
O escritor Paulo Lins
Aliás, negros e brancos, putas e beatas, cafetões e funcionários públicos, sambistas e cantores burgueses, ninguém presta realmente neste enredo. O “não presta” significa descarado, que na primeira oportunidade da rasteira em ótario. Os únicos dentro da trama que tem algum respeito é o povo de Santo e olhe lá... Por falar neles, gostei da forma como Lins da voz aos Exus, caboclos, pomba giras  e deixam os Orixás “quietos” nesta trama. Eles fazem a comunicação direta com o humano, são eles que chegam e falam com as pessoas, dão conselhos e guarda a vida.
A homossexualidade está presente e é um capitulo a parte. O personagem Sodré, um descendente de portugueses, um idiota de quinta categoria, que tem um relacionamento pífio com a família, não quer saber de trabalho, vagabundo nato, é um caso a parte. Ele começa a tomar jeito de gente logo quando começa a... comer e dar o cu adoiado pro vizinho e fumar maconha!!!!! Acho que foi o mais louco desenvolvimento de personagem que vi na minha vida. Só neste aspecto da para ver que Desde que o Samba é Samba não é um livro qualquer...
E o vai e vem no tempo que Lins sabe fazer tão bem está aqui neste exemplar também.  Então espere por uma historia com inicio meio e fim bonitinhos, mas como outros inícios meios e fins pelo livro, tudo muito bem explicadinho e gostoso de ler. No final, Desde Que o Samba é Samba é um bom livro, nada de obra prima, pois no final o livro parece que foi apressado, tipo o editor botando pressão por conta do prazo no final de processo e por conta disso, o autor se meteu a escrever qualquer coisa. É uma visão de um leitor que esperava mais de uma trama tão gostosa de ler.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

domingo, 13 de maio de 2012

Gays negros e... enrustidos!...

Zapenado (!!!!!!!) na net, encontrei um blog sobre os afazeres da comunidade negra homossexual norte americana. Traduzindo um pouco dali, decrifando girias de lá, acabo me esbarrando com uma série de 2005 chamada As Crônicas de DL. Ela teve mais de uma temporada e fez bastante barulho na sua época de lançamento, tudo por conta de sua história; sobre homens que por consequência ou opção mantém estilos de vida sexualmente duplos e secretos. Se identificam como héteros, se casam com mulheres até, mas secretamente se envolvem com homens.

Achei de uma genialidade incrivel a idéia. Falar de homosexualidade enrustida não deve ser coisa fácil, mas os produtores resolveram levar a série com este tema polêmico. Aliar isso à negritude? Genialidade dobrada. No You tube tem a série toda (eu acho)! Mas em inglês!!!!!!!

Um amigo acabou postando no face que possuia a série com legendas, mas acabou perdendo... Pois então, versão legendada existe. Quem possuir essa versão por favor/encarecidamente/pelo amor de Deus (!!!) post aqui por comentário. Agradeço e muito a ajuda!

Link para a série em ingles no You Tube:

http://www.youtube.com/watch?v=jL1Q1PMBDEg

terça-feira, 8 de maio de 2012

Para os infernos com o politicamente correto!!!!


Voce já deve ter participado de um fenômeno desses: Assunto vai, assunto vem, do nada surge o tópico preconceito que pula para o capítulo racismo em dois tempos e daqui pra ali, o sujeito que estava falando sobre preconceito abre o bojo e expõe seus conceitos (geralmente contra) sobre o sistema de cotas raciais no Brasil. Pronto! Polemica! Confusão! Gritaria! Argumentos pra lá, conceitos de origem/raça/mestiçagem tudo misturado, a velha noção que no Brasil todo mundo é todo mundo, nosso país na verdade é uma grande vitamina de banana... No final, ninguém chegou a lugar algum que realmente vá mudar a nação, mas em um ponto a conversa com certeza andou: inimizade dos envolvidos
O nervosismo é geral quando se fala de racismo. Uma parte daqueles que estão envolvidos na conversa sempre acham os negros politicamente coretos demais, chatos, complexados, nervosinhos, radicais, doentes. E a outra fica, geralmente, tentando convencer o outro que está certo, ou reconfigurar o outro e tirar o racismo presente nele. Um fator importante presente nessas conversas é quando não se tem argumento contra os argumentos a favor das cotas, começa uma chacota/humilhação dos contextos de quem é a favor. Daí para o nervosismo é um pulo.
E ai me vem a pergunta: Por que o stress?
Aprendi com os anos, que é contraproducente argumentar de forma civilizada com quem se acha o dono da razão. Com que objetivo mesmo? Só para VOCE ficar nervoso, não é mesmo? Os movimentos negros neste país estão cheios de militantes que por conta do politicamente correto, do uso adequado das leis, acabam entrando em embates ideológicos e saem muitas vezes machucados, e estigmatizados como radicais, ruins, nervosinhos, chatos e afastam por conta de um auto controle inexistente a possibilidade de agregar gente ao NOSSO pensamento.
Também aprendi com a arma do outro contra argumentar. Simples assim. Ironia, e chacota, certamente são coisas não ensinadas por mamãe e papai, mas o mundo instrui neste quesito! Então, antes de usarem contra voce que use contra eles. Desenhando para os que não entenderam: o politicamente incorreto faz bem para a pele. Primeiro que a ironia quando objetivada te dá um censo de superioridade, pode até ser passageira, mas é deliciosa!!! Segundo: contra argumentos ditos com sabor de “leve na esportiva” o nervosismo e o racismo pensam duas vezes antes de se manifestar. Voce geralmente nesses casos simplesmente ri, os músculos da face se movimentam e o botox natural é acionado.
Dia esses uma sujeita no ônibus, que eu nunca tinha visto na vida, começa a jogar conversa fora comigo e cai logo no assunto cotas raciais. Ela era contra, negra e dizia a todo momento que não precisou de cotas para entrar na universidade. Emputeci e de forma irônica, falando baixo, calmo joguei o veneno: Voce está fazendo o que para que as cotas acabem? Já que é contra, para voce o sistema é errado. E aí? Faz o que? Só reclama? Só é contra? Só isso? Só?... Ela calou-se. Melhor segundos depois mudou de assunto...
Quando eu deixava meu cabelo crescer e colocava tranças nele, ouvia todo tipo de comentário. Um dia ouvi de uma senhora branca: “Voce lava seu cabelo? Por que Bob Marley não lavava!”. Retruquei: “A senhora conhecia ele? Devia ser intima pra ver Bob não tomando banho...” Depois ela me pediu desculpas pelas besteiras que perguntava. Fui mais venenoso: “Por que as desculpas?” nem ela soube responder o por que. Outro dia estava passando com um colega no Pelourinho, passam duas meninas negras e um homem negro no meio delas. Ele diz: “Olha pra aquilo. Gosto assim, com cara de suburbano, gostoso!” abri meu lindo sorriso e joguei: “Mas ele não é do subúrbio, conheço ele mora na Graça. (cara do sujeito no chão. Sem deixar ele respirar) Por que ele tem cara que mora no subúrbio?”... Vocês não sabem o quanto me diverti nestas e outras ocasiões.
Os brancos no Brasil sabem que são brancos, sabem que a cor da sua pele lhe dá vantagens em uma sociedade racista, mas nunca vão assumir este tipo de coisa. Afinal de contas, o problema é do negro, a questão é negra e não branca... E se eles foram acostumados a rir do nosso cabelo, da nossa cultura, a dizer o que somos o que nao somos, qual é o nosso lugar, o que temos cara e o que não temos. Vou apelar para a ironia, para a chacota. Não tenho mais a idade de ficar no ponto de coitado, de sofredor, tenho o direito de olhar por cima. Às vezes voce chama ate o racista de burro e ele não se dá conta da burrice própria. Como uma conhecida que foi indagada sobre como lavava a suas tranças. Ela: Com shampoo! Outro: Só isso? Ela: Ah!!! E condicionador, né?!... Falava num tom de criança irônica entende? O racista de plantão nem sentiu que estava sendo chamado de idiota.
Repito: o politicamente incorreto faz bem para a pele. Claro que há momentos em que é válido (eu disse VÁLIDO) brigar e gritar. Mas existem momentos que a velha e boa ironia deve ser usada, sem culpas. Para o seu próprio bem. O sorriso que voce vai abrir caro leitor, é negro!!!!!!!!!!!! Rsrsrs. Entenda a frase anterior da forma como quiser...

domingo, 8 de abril de 2012

Nas Redes do Sexo - Os Bastidores do pornô Brasileiro - Maria Elvira Díaz-Bertinez.


Nas Redes do Sexo – Os bastidores do pornô brasileiro: (Zahar, 239 páginas. 2010) é o tipo de livro para ler e reler. Simples assim. Aos interessados pelo assunto, encontrarão um livro que acima de tudo respeita o pornô, aqueles que nunca se interessaram pelo mundo dos filmes pornográficos terão um ótimo passatempo. Na verdade, já conhecia o trabalho da autora, María Elvira Díaz-Benítez, por conta da sua tese de doutorado Nas Redes do Sexo – Os bastidores e cenários do pornô brasileiro, para Universidade do Rio de Janeiro. Um ano depois seu trabalho de conclusão virou este ótimo livro sobre uma arte (sim, pornô para mim É arte!) e muitos mitos, verdades cruéis e realidade muitas vezes próximas a nós.
O ponto fundamental para que a obra de Benítez funcione é o respeito ao pornô. Como arte, como produto cinematográfico, como mercado que movimenta milhões. Ela caminha sempre para um não julgamento (e quando cai na armadilha logo abre isso para o leitor). Como antropóloga quer observar, claro que como historiador tenho minhas ressalvas a antropologia, mas é um trabalho tão primoroso que nem tem como não baixar a guarda para este livro.
Benitez fez um bom trabalho de edição de sua tese para o livro que é exposto nas livrarias e entrega tudo. Observa produções héteros, gays e travestis. E abre logo nossos olhos; o cinema pornô brasileiro é completamente diferente do norte americano e europeu. Os corpos são diferentes, a forma de filmar também, os gostos são distintos, as praticas também, os cachês então nem se falam... Homens e mulheres recebem de forma oposta, levando em consideração tempo de carreira (que não passa de míseros anos...), praticas sexuais, respeito às regras (sim o pornô tem regras) as redes de relações do, sem camisinha ou com preservativo etc...
Depois desse aviso prévio a autora nos expõe os sujeitos e suas historias. Diretores, atores, maquiadores, iluminadores, produtores, caça talentos, historias de vida, cruzamento (ou não) da profissão de ator com a de garoto ou garota de programa, moradias, entradas das celebridades no pornô nacional, gente que se tornou celebridade por conta do pornô, gente que fracassou, professores, empresários, grandes estudiosos que hoje trabalham com pornografia (por gosto), a visão da família (que apoia em alguns casos e destrata outros), os casamentos, namoros, a vida das travestis, o que é belo e o que não é e o mais curioso: mesmo uma rede considerada transgressora existem regras de conduta e moralidade muito bem ponderadas pelos profissionais que trabalham nela. Afinal de contas, não é apenas simples e prazerosa putaria, é trabalho, que paga as contas de muita gente, é produto criticado por clientes muito exigentes e mercado de exportação com muito dinheiro em jogo.
O livro é dividido em quatro partes: Preliminares, Transa, Consumação e Elenco. A primeira como o próprio nome diz fala sobre a fase antes da transa (penetração), mas a autora usa o termo como alegoria para falar sobre recrutamento de elenco, visão os diretores sobre seu produto, o porque das pessoas entrarem no pornô e os rituais pré filmagens. Ponto alto do capitulo: a noção (super exagerada) sobre limpeza em todos os aspectos.
A autora
Depois, o livro entra de cabeça na transa. O estágio da ação em si. Há encenação no pornô? Até onde a encenação existe? Elas gozam, elas gostam? Até onde é trabalho e prazer? Sexo sem camisinha ou com? Existe comportamento de risco no mundo dos filmes pornô? A terceira parte comenta a consumação da coreografia pornográfica, dos femininos, o filme na integra que tem de ser cortado, a pós-produção e a distribuição do filme no território nacional e estrangeiro.
No final, a autora nos abre a porta para a vida do elenco. Tocantes historias. Não esperem gente se fazendo de coitadinhas, oprimidas, mas homens e mulheres fortes, decididos e acima de tudo inteligentes. Claro, existem suas contradições, mas acima de tudo são gente como a gente! Sabem que no pornô são somente corpo, sabem que tudo o que sentem e o dinheiro que entra é passageiro. Beleza e performance no pornô são fundamentais.
Nas Redes do Sexo – Os bastidores do pornô brasileiro é um ótimo livro, barato até (R$ 50,00 é o preço médio), muito bem escrito, verdadeiro, chocante, engraçado, pois falar de sexo por conta da nossa moralidade muitas vezes atinge um humor involuntário. Toca em assuntos “proibidos” como feminismo, racismo, homofobia, pois achamos que na cama muitos problemas sociais acabam se resolvendo, ledo engano... Benítez constrói um cenário precioso com muito respeito, no You Tube existem vídeos dela ao lado de gente como Rita Cadilac – uma de suas colaboradoras no trabalho. Ela e colombiana, portanto aviso que quando destrambelha a falar rápido fica complicado (rsrs)... Mas o seu livro é lindo! Propago a todos como um dos melhores que li. Um trabalho para todos que se interessam pelo pornô como arte transgressora e seus resquícios no mundo da psicologia, economia, historia, comunicação...

quinta-feira, 5 de abril de 2012

PULANDO A VASSOURA

Começo dizendo: esse Pulando a Vassoura é o tipo de filme "tanto fez como tanto faz". Se assistir serão duas horas gratas de bom entretenimento, se não... hum... não vai perder muita coisa. O filme não é ruim, longe disso, mas também não é ótimo, nem muito bom. As comédias romanticas dentro do cinema negro nunca surpreenderam muito. Poucas vezes supreendem, as do cinema sem segmento já não são lá grande coisa, imagine as de dentro do gueto!... O cinema negro ainda não reparou que existem singularidades nos romances entre negros, e também com outras comunidades, diferentes dos dilemas e alegrias do dito cinema sem cor... Acho que somente o cinema gay consegue enfatizar esta característica de forma concreta, em alguns casos é claro.
Mas mesmo este "tanto fez como tanto faz" consegue render bons momentos. O elenco coadjuvante é um bom motivo para ver o filme. Sempre bom rever Loretta Devine na ativa, seja no drama ou na comédia essa mulher bota pra quebrar, fora Angela Basset maravilhosa como sempre. Os protagonistas são bons também, mas sem duvida Paula Patton engole Laz Alonso em tudo quando é cena. Além dos outros personagens pequenos, mas desenvolvidos pelo roteiro (enxuto demais!) com competencia.
A história é o que menos interessa e por isso foi renegada ao terceiro parágrafo dessa "crítica". Familia pobre e familia rica tem seus filhos noivos e por conta das diferenças de classe - também ideologicas a respeito da negritude e suas tradições - vao se degladiar até o final bonitinho resolvido as pressas, para abarcar todo tipo de conflito. Estou estragando a supreza? Não! Toda comédia romantica TEM que acabar bem. Doce Novembro não é para qualquer um...
Do mais, fiquem ligados nos extras que comentam a história do "pular vasouras" em casamentos negros norte americanos. Como os negros escravizados não podiam trocar alianças, pois seus casamentos não eram efetivados pelo governo, eles inventaram uma forma de "oficializar" o matrimonio. Por isso pegavam a vassoura e pulavam. Essa tradicão é ligada a escravidão e por isso muitos negros hoje consideram ultrapassado e desnecessario este ritual. Além da luta de classes acontece também a intriga pelas formas diferentes de se ver uma tradição de um mesmo povo. Destaque para a cena da mesa, ensaio de casamento, muito boa por sinal.
Do mais, é um filme mediano. Facilmente esquecivel. Aquele filme do tipo "Como é mesmo o nome dele?"... Mas se arriscar não vai se arrepender, dará boas risadas e durante uma hora e quarenta de filme irá se divertir. Depois relaxe e coma pizza...

segunda-feira, 2 de abril de 2012

Por Uma Leve Negritude...


Me bateu a vontade de ler um livro dias atrás, estava sem dinheiro para comprar o que realmente queria ler... Resolvi pegar um livro da minha estante e ler novamente. Sempre temos leituras diferentes do mesmo livro. Estão ali, parados em um mesmo lugar, mas sempre em uma releitura eles nos entregam algo diferente. As percepções da obra são distintas à medida que envelhecemos. Estou eu consultando os livros e acho um sobre cotas para negros nas universidades, outro uma biografia de militante negra, outro sobre negros nas novelas brasileiras... Procurava sem achar o que realmente precisava naquele momento... Um livro sobre nosso povo, que não falasse necessariamente sobre o que não somos, os que não alcançamos, onde nós não estamos... Precisava de algo leve naquele momento, semana cheia, cansado, queria descansar com um sorriso no rosto. Na minha estante NADA! Comecei a pensar em outros pontos de cultura, filmes, revistas, peças teatrais... Quando são misturadas a negritude geralmente tem um aspecto extremamente pesado, dramático, triste... Imediatamente veio a pergunta: Por que a negritude é um tema tão pesado, ela não poderia ser simplesmente leve?...
Às vezes penso que não! Fomos marcados – todos nós que nos consideramos negros e os que não se consideram também – pelo racismo, gerações e mais gerações. E este fator, não é nem de longe algo leve a ser encarado. Somente nós sabemos o quão pesado são as agruras racistas, sendo elas pequenas ou violentas abertamente. Seja lá como for, somente nós sentimos a ferida doer... E essa dor repercute em nossa cultura. Música, teatro, filmes, livros muitos deles explicitam nossas dores, ou quando não um heroísmo contra toda a dor que nos abala. Sofremos um martírio imbatível ou somos heróis indestrutíveis. Sempre as manchas, as feridas são a pauta do dia em nossa cultura?
Nossos livros ressaltam muitas vezes o que não somos, onde não chegamos ainda, patamares que não conseguimos alcançar, mas será que no meio disso não há vitórias? Vitoria de sujeito normal, não de um guerreiro negro. Aliás, essa máxima que alia na figura da mulher negra ao patamar de guerreira sempre me dá nos nervos. Esse adjetivo dá a impressão que são mulheres batalhadoras que não caem nunca, não erram jamais... Elas nunca se atrasam para buscar o filho no colégio? Não choram? Ela não sentem desejo por outro homem, por outra mulher, por mais de um homem? Ela é feminista sempre? Não há contradições nesta mulher? A guerreira pra mim não existe.
E esse sofrimento, ou a exigência de ser perfeito me angustia. Precisamos sorrir. Estava reparando que os espetáculos teatrais em Salvador com temática negra tem muito grito, muito sofrimento, muita referencia a época da escravidão, muito perfeccionismo travestido de guerrilha... Precisou um espetáculo do Rio de Janeiro chegar em território baiano para voltar para casa com um sorriso no rosto, refletindo, mas satisfeito e leve. Sete Ventos de Débora Almeida, tinha humor, leve. Conseguia até rir de minhas próprias agruras. Levando-as ao ridículo, consegui supera-las.
Nessa busca incansável por um sorriso negro dentro dos universos compostos na minha estante, acabei encontrando um livro... Parem de Falar Mal da Rotina de Elisa Lucinda. Ótimo livro. Estou lendo novamente. Mistura de teatro, auto ajuda, poesia e muito mais. Recomendo. E sorri dentro de poucas páginas. Estou em um momento onde já sei que mesmo com as cotas as instituições de ensino ainda continuam eurocêntricas, que os brancos sabem que são brancos, mas se dizem não racistas, não brancos, o escambal. Que eu por não ter a tez muito escura para alguns não sou considerado negro e sim moreno, moreninho bla bla bla... Já sei disso e muito mais. Mas agradeço a Deus pelas vitórias alcançadas, junto as minhas contradições e busco algo leve de vez em quando, pois a vida é dura, mas ela não precisa ser SEMPRE dura. E as vezes sozinho no meu quarto, quero ler algo do meu povo, me fazendo lembrar de um orgulho simples e feliz.
Pois felicidade não rima com negritude, mas combina! Acreditem nisso. Quando minha família se reúne, todos de alguma forma são/foram marcados com os signos do racismo, mas a leveza domina o ambiente. A gente ri, conta casos, se sensibiliza, ri novamente, brinca, chora de rir... Eu realmente queria enxergar essa leveza de ser negro presente na minha cultura. Observar um quadro, pintura de menina com cabelos trançados sorrindo radiante, ouvir música ressaltando minha pele feliz... Sei que existem, mas eu quero mais. Há informação sobre o racismo que nos atinge, mas e argumentos para nos tornarmos mais felizes não existem aos montes. Trabalhar para esse tipo de objetivo – a felicidade – também é um compromisso do artista negro, na minha opinião. Pois sorrir é bom demais.

sábado, 24 de março de 2012

RED HOOK SUMMER - Próxima cria de Lee.

Um tempo sem escrever aqui... Mas volto cheio de novidades e novas percepções. Começo com um aboa notícia, o filme pequeno do diretor Spike Lee tem agora estréia garantida, depois do cineasta reclamar aos quatro ventos que não conseguia financiamento para suas produções.
Depois de um período de maré baixa, o cineasta Spike Lee volta as suas raizes, graças a um outro trabalho a refilmagem de Old Boy, que o possibilitou bancar um projeto mais pessoal. Considerado a volta do diretor às suas raizes, Red Hook Summer, custou menos de 5 milhões de dólares e teve sua pré estréia no Festival de Sundace - conhecido festival de cinema independente norte americano. O filme que tem estréia marcada bem para o concorrido verão estadunidense, conta com a trilha especialmente composta de Bruce Hornsby, vencedor do Grammy pela música "The Way It Is".
A produção conta a história de Flik, adolescente de boas condições finaceiras que visita o avô no Conjunto habitacional Red Hook no bairro do Brooklyn. Lá ele conhece uma outra realidade, já que viva em condições totalmente diferentes. Seu avô, pastor, por exemplo coloca na cabeça que o neto vai aceitar Jesus Cristo de qualquer forma. Spike então convida o espectador a uma viagem no seu velho bairro com uma história sobre a co-existência de altruísmo e corrupção, brincando com expectativas, seduzindo-nos com a promessa de uma espiritualidade e moral transcendentes. O filme também está sendo cultuado como uma ligação entre o seu primeiro filme de sucesso Faça a Coisa Certa por conta de personagens, estética e tema.
Infelizmente filmes independentes dependem de uma gordinha bilheteria ou de alguns premios para que saiam de seu território. Sim, não há previsão de lançamento no Brasil. Segue abaixo a primeira imagem do poster (muito feio por sinal) do filme e seu genial diretor ao lado.
 
Spike Lee ao lado do poster de seu novo filho
 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SIRÉ OBÁ em cartaz novamente!

A premiada Siré Obá - A Festa do Rei da diretora Fernanda Júlia (A Eleição, Ogum Deus e Homem e Pavio Curto) volta em cartaz, agora em terreiros na cidade de Salvador. Programe-se, os horários são para todos os gostos.


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012

O Oscar, os negros e blá blá blá...

Eu sou uam das cinco, tá meu bem????
Mais uma festa do Oscar. Prêmio mais famoso do cinema. Ontem, um dos filmes chamava atenção: Historias Cruzadas com suas poucas mais merecidas indicações. Entre elas, duas eram a todo momento burburinho: Melhor atriz para Viola Davis e Octavia Spencer como atriz coadjuvante. Das duas a segunda ganhou. Além dela, Oprah Winfrey estava lá marcando presença no salão nobre em novembro para receber o premio por contribuição ao cinema junto com o ator James Earl Jones, mais conhecido pela voz do vilão Dath Vader da série Guerra das estrelas e também seu trabalho em O Rei Leão. Eu nem vou falar nada sobre a derrota de Carlinhos Brown com a canção de Rio, bizarrice da noite...
Motivos para se orgulhar não? Para mim não muito. Não é a primeira vez que uma atriz negra ganha fazendo o papel de uma empregada doméstica boca solta e ousada. Lembra de E O Vento Levou em que a atriz Hattie McDaniel foi a primeira negra a ganhar o Oscar? De lá para cá pouco mais de 90 atores e atrizes negras (juntando todas as catogorias) conseguiram ser indicados. Sim, estou contando com as indicações repetidas a determinados atores. É muito? Não! São mais de 80 festas do Oscar, com 5 indicados geralmente nas categorias de ator/ atriz principal e ator/atriz coadjuvante. É só fazer as contas...
Das inumeras indicações tivemos alguns poucos (!) ganhadores.  Hattie (em ... E o Vento Levou), Whoopi Goldberg (Ghost - Do Outro Lado da Vida), Jennifer Hudson (Dreamgirls), Mo'Nique (Preciosa) e neste ano Octavia Spencer (Histórias Cruzadas) como atrizes coadjuvantes. Com os homens, Sidney Poitier (Uma Voz nas Sombras), Denzel Washington (Dia de Treinamento), Jamie Foxx (Ray) e Forest Whitaker (O Último Rei da Escócia) como atores principais. Helly Berry é a única com o prêmio de melhor atriz e na categoria ator coadjuvante temos Denzel ( Tempo de Glória), Louis Gosset Jr. (A Força do Destino) e Cuba Gooding Jr. (Jerry Maguire). Com os diretores fica pior: John Singleton concorreu a melhor diretor por Os Donos da Rua em 1992, e Lee Daniels foi indicado em 2010 por Preciosa.Pensou em Spike Lee foi? Somente como roteirista por Faça a Coisa Certa...
Neste ano, um filme liberal estava no páreo com 4 indicações. E suas interpretações são estupendas com certeza, até aumentando o significado para o filme. Mas apesar das duas atrizes realmente fazerem um trabalho fenomenal, a produção dá muito mais espaço em tela para a histórias das brancas e o LIVRO em que o filme é baseado é sobre as historias dessas empregadas e nao sobre as patroas, seus xiliques e sua vida sem grandes acontecimentos.
Ai eu me pergunto... O Oscar serve para?... Com certeza Octavia vai catapultar sua carreira se souber dar um destino diferente da que Cuba Gooding Jr e Hally Berry deram a deles... O Oscar, como qualquer premio, serve para seu "curriculo" se transformar, voce ganhar dinheiro, bons projetos aparecem, mas isso só se o artista tiver juizo.
Mas eu realmente gostaria de ver atrizes como Octavia e principalmente sra Viola Davis fazendo filmes que realmente prestassem, com enredos que fossem bons de verdade!!! Não a babozeira liberal que vi na tela. Elas são ótimas? Com certeza, mas o talento delas deveria ser lembrado em outros trabalhos também. O submisso ainda enche os olhos da academia...

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Entrevista: Débora Almeida


Débora Almeida
Conheci Débora Almeida na apresentação do seu espetáculo solo Sete Ventos aqui em Salvador. Aliás, monólogo estupendo, lindo de se ver, texto ótimo, bom humor e drama equilibrados, participação da platéia sem constrangimento da mesma, tudo de muito bom gosto. Logo depois do espetáculo, aconteceu um bate papo com a atriz, onde a platéia teve contato com uma pessoa doce, engajada, com sorriso largo, conquistou todo mundo no primeiro momento. Em meio a tantas atividades que faz e a folia do Carnaval, Débora nos concedeu essa entrevista. Nela revela seu processo de criação, sua carreira e sua visão sobre o teatro brasileiro e também é claro sobre cultura negra. É provocada e provoca de volta, como toda guerreira que domina as tempestades...

Sete Ventos é um monólogo teatral baseado em depoimentos de mulheres negras e no mito de Iansã. Nele voce está como atriz, mas também como produtora, diretora, pesquisadora e dramaturga. Nesta experiência o que trouxe da Cia dos Comuns para abrilhantar o trabalho em Sete Ventos?

Na Comuns eu fiz de tudo porque na Comuns a gente faz de tudo. Lá o ator é estimulado a não ficar somente na posição de intérprete. A gente improvisa, pesquisa, produz, inclusive o Cobra (diretor da Cia) ressalta o tempo todo como isso é importante, no sentido, de sermos donos da nossa arte, atores em todos os sentidos. Cada um, além de ator, acaba se destacando mais em um ou vários lados e, como eu experimentei de tudo, acabei estando em todos os setores do espetáculo naturalmente. A experiência de ter passado pela Comuns me possibilitou dar vazão a outras potencialidades que eu já tinha, mas que estimulava pouco ou timidamente.

Voce também é professora de teatro em escola da rede pública de ensino no Rio de Janeiro. Temos a concepção de que o trabalho neste setor é sempre ensinar. Mas o que de lá traz de conhecimento com seus alunos para a sua carreira como atriz e produtora profissional?

Costumo dizer que as crianças de sala de aula apontam sempre uma nova possibilidade, apontam sempre algo que dialoga com o teatro contemporâneo, pois explodem todas as convenções teatrais, e isso é muito bom, pois apontam novas possibilidades, como, por exemplo, a relação com a plateia. Elas já trazem a proposta para assuntos pesquisados por vários artistas sem saber, sem teorias, baseadas na vida que está acontecendo ali naquele momento. É incrível. As crianças não deixam o meu olhar ficar parado, olhando em uma só direção. Elas sacodem o tempo todo e isso, para o artista, é muito bom.

Como foi o processo de construção do monologo Sete Ventos? O texto, as personagens, o artifício de se dirigir...

Foi uma pesquisa iniciada ainda em 2008. Eu estava pesquisando para o mestrado e o foco era: Iansã e Teatro negro. A pesquisa sobre o universo feminino me acompanha desde o desde o meu primeiro espetáculo na Comuns.  No meio do caminho resolvi fazer um espetáculo, queria experimentar o que estava pesquisando. Daí, aliei à pesquisa teórica a pesquisa prática, com laboratório prático, improvisando na cena com base no que eu estudava e produzia teoricamente. Daí começou a surgir o texto. Eu improvisava, escrevia um texto baseado no improviso e depois voltava para a cena para ver se o que foi escrito servia.  Comecei a organizar as cenas criadas nos temas que eu queria tratar e daí fui organizando o texto. Com o passar do tempo, comecei a chamar os outros artistas da ficha técnica. Primeiramente a Aduni, que quando viu que eu já tinha uma pesquisa e toda a noção estética do que eu queria me disse que somente eu poderia dirigir o espetáculo, pois já sabia tudo o que queria fazer. Daí, a Aduni se propôs a fazer a  supervisão teatral. Depois fui trazendo os outros artistas, falando sobre o trabalho e a pesquisa. Em 2009 dei um prazo para tudo ficar pronto e resolvi estrear.

Em Sete Ventos é um dos poucos espetáculos que vi com temática negra em que o humor está presente como característica intrínseca do espetáculo. E um humor saudável! Muitos espetáculos tocam na “questão” do negro de forma séria, dramática... Por que escolheu o humor para compor as personagens negras que faz no palco?

Interessante você me falar isso, porque nunca vi o humor no espetáculo dessa forma, nem penso que seja uma comédia. E o humor não foi uma escolha, ele simplesmente veio porque eu sou assim: penso muito sério e ajo com seriedade e também com humor, e em Sete Ventos você vê a tragédia e a comédia juntos. Eu sou assim. Daí a minha obra só poderia ser assim também. Mas não acredito no humor com uma função de simples entretenimento distanciado da realidade, isso é alienação e submissão ao que já está posto. O humor distancia com o riso, mas te faz pensar sobre o ridículo da situação em que nos encontramos e como somos ridículos em aceitarmos. Há situações relacionadas às questões negras que são tão surreais que parecem piada, mas são verdadeiras e doloridas. Por que eu rio de uma mãe desesperada dizendo que os filhos claros que ela tem são filhos dela sim? Porque o racismo não nos dá o direito de sermos diversos da imagem comum do negro, e isso é doloroso. A forma mostrada pode até causar algum riso, mas quando paramos de rir vemos o quanto isso é doloroso, não é engraçado.  A gente até pode rir, mas quando a tonteira causada pelo riso passa, dá vontade de chorar. Quando eu era criança nunca achei engraçado as minhas vizinhas me xingarem e se valerem da cor negra “mais clara” do que a minha para isso, e isso me causava dor. Causa riso no teatro porque é ridículo e nós vivemos em uma sociedade que permite que vários ridículos aconteçam. Mas o ridículo não é engraçado, é pior do que a tragédia. Essa é, inclusive, a diferença entre o humor e a tragédia. A tragédia nos faz chorar momentaneamente, a gente acha lindo e depois vai para casa com a sensação de alívio “Opa, chorei, mas já passou.”, a comédia te pões contra a parede e te faz perguntar “Por que eu gargalhei diante de algo tão sério? O que eu vou fazer com isso agora?” Mas eu nem vejo tanto humor assim no espetáculo, vejo que há cenas de humor da mesma forma que há cenas trágicas. Não compus o espetáculo pensando nisso, meu foco principal era falar da mulher negra e contar as suas histórias. Me baseei na vida, e a vida é trágica e cômica a todo o tempo.

Cena de Sete Ventos, foto Guina Ramos
Vemos muitos espetáculos com atores negros no Brasil diretamente ligados a temática negra...  Ou seja, a sua cor importa dentro da trama. Existem casos como o de Lázaro Ramos, ele fez espetáculos/filmes que sua cor está isenta no palco ou no texto. No cinema/teatro norte americano vemos casos de atores e atrizes que fazem papéis que não são necessariamente escritos para negros... Atualmente como se constrói, para voce, o lugar do ator negro na dramaturgia brasileira?

Quem está construindo o lugar do ator negro na dramaturgia brasileira é o artista negro porque os outros artistas, em sua maioria, não pensam nem que existem pessoas negras, quem dirá atores negros, lembram somente quando o personagem é um bandido que vai passar batido lá atrás da cena, porque se o bandido for o protagonista ele vai ser branco. A invisibilidade do negro na sociedade brasileira se reflete na dramaturgia e na arte, de forma geral. A gente não está representado em lugar nenhum, só em lugares gerenciados por nós. Vi uma revista feminina famosa dia desses, folheei do início ao fim e não tinha um negro, nem em propaganda.  E o pior: o editorial de moda era no Caribe, mas a modelo era branca feito uma folha de papel. Os negros apareciam como papel de parede das fotos. É assim que os brancos nos veem: como papel de parede para as histórias deles. Para eles isso é normal, pois já tem o espaço deles garantido há séculos. O que está mudando é o que está sendo imposto pelas leis criadas pelo segmento negro e que a maioria dos não negros critica, pois não quer perder o seu espaço.  Agora, não existe essa história de ator negro descolado da cor negra. O adjetivo racial sempre aparece porque há um lugar onde a sociedade nos colocou e quer que continuemos, mesmo que prosperemos economicamente. Isso faz com que um personagem negro, mesmo sendo de classe média alta tenha em alguma parte da sua estória um traço que eles, o brancos, consideram característico do povo negro, como um pai alcoólatra, um irmão bandido ou viciado, mesmo quando o estigma não está no personagem negro, ele acompanha a vida do personagem através de algum parente próximo. É o “pé na senzala”, a mensagem intrínseca que diz “Você está aqui, mas não é um de nós. Seu passado te condena”. Ou “Você não é bom o suficiente, pois a sua história é um desastre”. E o pior é que quem escreve acha que está sendo legal, pois está descrevendo uma historia tipicamente negra, pois todo negro passa por isso, “Toda família negra é assim”, pensam. O racismo é tão normal entre a gente, que ninguém nem pensa que descrever um negro sempre com passado de banditismo também é racismo, acha que é normal. Eu não tenho um pai que bate na minha mãe, não tem bandido e nem viciado na minha família, meu pai era advogado e eu sou negra. Existem famílias negras assim também, somos normais. Esse foi o principal motivo que me impulsionou a produzir Sete Ventos, para mostrar que somos normais e que a bebida que está sobre a nossa mesa nem sempre é cachaça, como gostam de mostrar, pode ser água, pode ser café. As nossas histórias, as de nossas famílias são bonitas e tem que ser contadas por nós, temos uma gênese digna de reis e rainhas, de pessoas boas e quando algo de ruim nos acontece não é porque somos de sementes ruins, haverá uma explicação histórica para isso , pois somos seres humanos e vivemos uma história, e no caso do povo negro, fomos retirados de nossa terra e trazidos cativos e escravizados para o Brasil, mas a nossa história tem mais de 5 mil anos de riqueza e realeza, sabedoria e mitologia, e não somente 500 anos de escravidão que querem nos jogar pela goela abaixo.

Voce tem experiências em teatro, televisão, cinema, produção, ensina teatro, é pós graduada em Arteterapia em Educação e Saúde. O que de uma experiência voce leva para a outra, complementando ou até melhorando as suas varias identidades artísticas?

E ainda sou escritora e militante negra! Tudo faz parte da mesma identidade, mas minha formação primeira é ATRIZ e essa é o carro chefe. Todas as minhas formações vieram por causa do teatro e uma coisa veio puxando a outra. Eu só fazia teatro adulto, um dia fiz teatro infantil e me encantei com as crianças, daí quis ensinar teatro também. Também precisa me sustentar. Depois, o magistério me mostrou que se eu buscasse outras informações, minha prática em sala melhoraria, daí fui cursar Arteterapia em Educação e Saúde. A produção veio como uma necessidade de me apropriar do meu trabalho, porque ser ator no Brasil é complicado e ser ator negro, é mais complicado ainda.  O bom disso tudo é que eu fico com uma visão macro da coisa, não fico só no meu mundinho. Saber o que está sendo feito no teatro e estar produzindo teatro, estar conectada com a política, ser militante negra, me ajuda a orientar melhor os meus alunos e o olhar deles me ajuda a entender o que está sendo construído hoje. O exercício da escrita é contínuo, pois tenho que produzir para o teatro e para a sala de aula. Como atriz, depois que eu comecei a produzir me senti mais forte, pois agora eu tenho o volante nas mãos. Mas a maior contribuição foi a entrada na Militância Negra, a consciência de quem sou e do que sou feita, onde estou e de com quem eu posso contar me fortalece todos os dias antes de sair de casa, na rua e quando eu volto, porque ser negro no Brasil, é muito difícil. A cada minuto você tem um problema para resolver.

No espetáculo Sete Ventos voce provoca muito o público. Começa logo o espetáculo perguntando “que cor tem meus olhos?”, “Como é o meu cabelo”... E quando a resposta não é condizente com a real cor, textura daquilo que se refere?... Voce está falando de um cabelo que é considerado ruim, uma pele que é dita como morena... Como o publico reage a esta parte do espetáculo?

Já teve gente até chorando com as perguntas, que parecem tão simples, né? Tem gente que fica com medo de me magoar dizendo que eu sou negra, acham que vou ficar ofendida, mesmo sabendo que é um espetáculo baseado em depoimentos de mulheres NEGRAS. Mas a intenção é essa mesma, colocar em questão o que mais incomoda: me chamar de negra, dizer que meu cabelo é crespo, que a minha pele é negra.É discutir em trânsito o assunto. Isso faz o espectador repensar os seus paradigmas. Muita gente pira porque descobre que sempre foi uma pessoa legal, mas com atitudes racistas. É para desconstruir mesmo. Teve um dia em que o movimento negro estava em peso no meu espetáculo, estava lindo. Daí um cara me chamou de morena, o pessoal começou a falar na hora, eles começaram a discutir. Eu achei ótimo! É isso aí.  Porque o racismo se combate no cotidiano. No dia a dia, as pessoas tem medo de chamar alguém da minha cor de negra, logo também terão no espetáculo. Ao falar disso no espetáculo eu pergunto por que do medo da minha cor. Daí, o espelho que me reflete, reflete também o pensamento da plateia.

Voce mora em um estado que é pólo da teledramaturgia no Brasil. Muito mais que São Paulo. E é almejado por muitos atores brancos/negros fora deste circuito. Qual a real situação do ator negro no Rio de Janeiro? Dá para sonhar com carreira tranqüila, digna e com bons papéis?

Negro na Tv brasileira, com raras exceções, só faz papel de bandido, empregado ou escravo, passa por detrás da pilastra e dá um texto monossilábico, pronto, e mesmo quando a novela é sobre escravidão o personagem principal é branco.  Na TV, nem a nossa história está nas nossas mãos. Para que isso mude, é preciso educar muito quem está lá dentro, pois a classe média alta, que é quem comanda a TV ainda tem uma visão muito estereotipada sobre o negro brasileiro.  Temos também que rever os papéis, nossas famílias são sempre desestruturadas, com homens alcoólatras, mulheres submissas ou sexualizadas e filhos entregues à bandidagem. Chega, né. Agora, ator nenhum, nem preto, nem branco pode sonhar que vai ser tudo fácil, porque isso é pra uma minoria. Para o negro é pior, pois na tv, enquanto lançam um ator branco por semana, um ator negro é lançado somente a cada uma década (quando é), e a gente não tem gente nossa no comando, com direito de voz e com uma visão mais engajada.  Daí, a gente faz como todo grupo de excluídos faz: nós criamos a nossa própria forma de produzir. Só que para isso precisamos de dinheiro, e ele ainda está nas mãos de alguns brancos. A gente já está avançando e outros lados, tem o Lázaro na TV Brasil, por exemplo, mas é em uma TV fechada.

Vemos muito o discurso de que fazer arte no Brasil não é fácil. E realmente não é. Para uma atriz negra então fácil é que não deve ser. Em seu currículo muitos de seus trabalhos são de exaltação e respeito à cultura negra.  Mas sei que o que é oferecido na maioria das vezes é justamente o contrário. E logo este contrário subalterno dá dinheiro. Como é viver nesta dicotomia da arte no Brasil?

Olha, eu tenho uma grande sorte na minha vida, digo sorte porque muitos negros não sabem o que é isso e exatamente porque não sabem, vão morrer se odiando, querendo alisar o cabelo, se achando errados, querendo nascer de novo e voltar branco. Eu tenho o Movimento Negro na minha vida e isso me dá o espelho que serve para eu me ver e me proteger, meu espelho é imagem refletida com a beleza da história do meu povo e o escudo que me protege. Novamente eu digo: o movimento negro me mostra quem eu sou, onde eu estou e com quem eu posso contar e é isso que me alimenta. Não sou filiada a nenhum partido e nem de nenhum movimento com nome e sobrenome, mas faço teatro negro, estou em um fórum de arte negra, estou no movimento cultural negro e sou filha de Oyá. Isso me dá força para aceitar somente papéis que eu considero dignos para uma atriz negra brasileira, porque eu sei que um ator negro em cena representa toda uma população. Agora, não sou mulher maravilha, muitas vezes fico casada e penso que o melhor seria estar alienada a tudo, ganhando o meu vil metal. Mas basta pegar o telefone e ligar para um de meus pares, artistas negros que conheci na militância negra, que tudo volta a “escurecer”. Ainda bem que eu tenho o movimento negro na minha vida, ainda bem que eu tenho meus amigos artistas negros militantes na minha vida, ainda bem que eu fui da Comuns, que eu tenho o Cobrinha, sou filha da minha mãe Dalva e neta da minha avó Aurea, irmã de Daniela, filha de Francisco, tendo como amigas e amigos pessoas que estão ao meu redor celebrando e lutando . 

Em Sete Ventos, uma de suas personagens é advogada que diz que não ficou rica, pois defende casos de racismo, pessoas negras... Como voce vê a relação entre artista e público consumidor de arte negra no Brasil?

Ela ainda não ficou rica porque não vendeu a sua ideologia, está trabalhando defendendo pessoas negras, em sua maioria trabalhadores discriminados e pessoas simples, e essas não vão pagar um milhão. E ela acompanha essas pessoas, orienta sobre o que farão com o dinheiro da indenização. Seu trabalho é de defesa de direitos e educação. A comunidade negra está querendo consumir cultura negra e gosta quando isso acontece, mas, nós artistas negros esbarramos com algo que é o nosso maior empecilho: a falta de dinheiro. Temos grandes artistas negros, mas precisamos de dinheiro para trabalharmos.  É preciso que se pense a arte negra no âmbito das políticas públicas, ou seja, precisamos de editais específicos para as nossas expressões e precisamos ter uma melhor entrada nos editais de cultura e arte já existentes, ter pessoas na comissão julgadora que entendam de arte negra e não nos classifiquem como projeto social ou folclore. Outro problema grave é a falta de mídia. Esse é o item mais caro de um projeto cultural e o que dá mais trabalho para implementar. Não temos ainda uma boa entrada na mídia oficial porque acham que a gente é específico demais ou nos taxam de racistas ao contrário. E ainda tem a falta de vontade, o preconceito. “Ah, é peça de preto reclamando, é peça de orixá”. Brecht também reclama, mas como é branco pode, né. Paixão de Cristo pode, mas candomblé não pode. Por que? Porque o racismo diz que a religião de matriz africana é errada e que o estado, que deveria ser laico, pode e deve difundir ideologias cristãs, pois o pensamento da maioria que cultua as religiões cristãs diz que o certo é o mundo todo ser cristão, que temos que ter um Deus único, que são os único certos. O negro quer se ver em cena sim, mas para que isso aconteça é necessário que o artista negro tenha condições para produzir e difundir o seu trabalho, e com uma verba digna, não com um dinheiro que vai pagar meio cachê para a equipe obrigando todos a terem outras fontes de renda além do ofício de ser artista. Queremos igualdade no direito de expressarmos nossa arte e realizamos nosso trabalho.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

HISTÓRIAS CRUZADAS


Historias Cruzadas é um filme sobre racismo feito para brancos! Sem mais delongas, não é mesmo? Para que começar frisando pontos técnicos, blá blá blá?... Vou realmente ao que interessa. É um filme feito para quem o fez! Poderia começar de outra forma, mas não dá. A cada cena, a cada fala, a cada discurso o filme mostra para que veio. E justamente por isso, está na lista dos dez mais do ano passado segundo a Academia de Cinema norte americana. É o patinho liberal de 2012. Ano passado Minhas Mães e Meu Pai fez este papel. Filme bom, mas não tão bom quanto inúmeros por ai, que é colocado na lista por conta do politicamente correto e só. Ano passado foram os gays, dessa vez... os negros são o alvo.
Baseado no livro A Resposta! de Kathryn Stockett o roteiro de Tate Taylor, que também assina a direção do filme, foca na jovem Eugenia, mulher branca a frente do seu tempo. Ao contrário das mulheres da cidade onde vive, ela quer trabalhar, não pensa em um casamento como extensão da vida, sonha em ser escritora e é inteligente. Enxergou a heroína ai?... Nossa heroína metida a vanguardista tem uma idéia: fazer um livro onde o alvo principal são os depoimentos de mulheres negras empregadas domesticas sobre seu trabalho. Ela quer ouvir suas histórias, seus dramas, saber do dia a dia destas mulheres.
Um grande mote certo? Sim! O livro – ao que me parece, pois não o li – foca justamente nestas mulheres negras empregadas domésticas que vão revelando junto ao trabalho, as historias dos seus patrões brancos, como cuidam ou não dos filhos, como lidam com os negros, as fofocas e como a branquidade vê na negritude uma subalternidade eterna. Apesar de ser obvia, a historia do ponto de visto histórico é interessante, pois dá voz a quem nunca teve... Em Historias Cruzadas esta voz que tanto se almeja nunca chega!
Apesar das interessantes historias levantadas inicialmente pelas empregas interpretadas por Viola Davis (BRILHANTE!!!) e Octavia Spencer o filme centra sua atenção nos brancos! Ele parece abrir a porta da cozinha para ouvir o povo que ali está, mas na verdade gosta mesmo de ouvir os “sub traumas” de garotas brancas fora dos padrões do seu mundinho racista, sofrem por isso e vê nos negros um suporte para os seus dramas. Ou seja, sou rejeitado e voce também é, então estamos todos nós no mesmo lugar!... È?...
Duas mulheres ganham destaque: A protagonista que não deveria estar neste lugar, Eugenia que se acha feia, mas é bonita de coração, não se arruma como as outras, anda descabelada, está no lugar errado, defende aqueles que não se vêem neste mundo. A vanguarda clichê ajudando os oprimidos. Quer algo mais liberal do que isso?... E Celia – mulher branca que não sabe cozinhar, nem dar ordens a empregas, se arruma com trajes curtos, sofre de abortos naturais, é tida como vagabunda pela sociedade e mora em uma casa gigante que precisa urgentemente de limpeza. Duas mulheres brancas que são o oposto do resto dos brancos da historia.
Aliás, filmes liberais sempre são dicotômicos: ou os brancos são racistas, matam, humilham, xigam os negros. Ou são bonzinhos, convidam até o negro a sentar-se à mesa da sala de jantar com toda pompa. Sim, essa cena está no filme... Brancos reais não existem na tela. Sabe aquele sujeito que é seu amigo, mas que na complexidade do dia a dia ele, mesmo legal, tem signos racistas que não consegue dar conta, nem assumir, nem trabalhar?! Este tipo de personagem, o cinema norte americano não tem capacidade de construir.
Do ponto de vista político, Historias Cruzadas é duvidoso, cínico, fajuto, liberal frustrado. Mas maquia tudo de uma forma impressionante. Figurinos perfeitos, cenários incríveis – reparem no espaço gigantesco e frio das casas dos brancos contrastando com o apuro familiar em meio aos casebres das empregadas negras. A fotografia é deslumbrante, o ar parece carregado nos cenários construídos para os personagens negros; enquanto as salas do núcleo branco são claras e arejadas as cozinhas da mesma casa parecem ferver. O trabalho do elenco é fenomenal: Viola Davis, então, arrasa! Um gesto no corpo desta atriz significa muita coisa.
As historias que realmente interessam, das empregadas negras, a complexidade de criar uma criança amável, que no final das contas se transformará em cópia racista do pai, as humilhações, as fofocas, são deixadas de lado. Uma ou outra coisa é deixada sobre a mesa. “Não bata nos filhos dos brancos! Eles mesmos gostam de bater nas suas crias. E como batem!”, o carinho ficava com as negras, mas na hora de apanhar nenhum branco queria ver sua cria apanhando de uma negra. Tem mais historias, contadas superficialmente pelo roteiro.
Historias Cruzadas não vai ganhar o premio de melhor filme. E duvido os outros também. Mas marca o seu posto de filme liberal do ano. Exemplo politicamente correto para os racistas se sentirem melhor com um filme que os representa, mas não os aprofunda.