domingo, 7 de março de 2010

Oscar Oscar Oscar...

Loucura, loucura... O Oscar esse ano eu gostei. Vi em TV aberta, ou seja, fiquei mais uma vez puto da vida por conta da Globo dando espaço a inutilidade do Big Brother... Fazer o que!... Preciosa levou dois! Melhor atriz coadjuvante para Monique, simples maravilhosa e também roteiro adaptado. Adorei ter ganhado estas duas categorias. E Tyler Perry? Negão todo charmoso, muito bonito, começou bem, jogando veneno, dizendo que nunca mais iria estar ali no Oscar, já que ele não é quisto pela critica hollywoodiana, infelizmente depois desatou em piadinhas sem graças. Mas tá perdoado produziu Preciosa. Hehehe.

Na homenagem póstuma, apresentada por Demi Moore, o lugar de Michael Jackson, mesmo tendo feito filmes horrendos, estava lá, outra presença marcante foi a de (infelizmente) Patrick Sweyzer na mesma homenagem. Gostei também da apresentação de dança de rua misturada com balé e dança contemporânea para apresentar o prêmio de melhor trilhar sonora. Muito boa mesmo. E ainda bem que tiraram a cantoria provinda do prêmio de melhor canção. Anos atrás acompanhar música por música era um porre, esse ano foi rápido a apresentação e também a entrega do prêmio.

A apresentação dos indicados a melhor ator e atriz foi ímpar. Lindo mesmo! Todos os profissionais sendo homenageados por atores que dividiram a tela com eles. Muito bem feito. E na hora em que Oprah subiu ao palco eu realmente me arrepiei da cabeça aos pés com ela falando sobre a protagonista de Preciosa, Gabourey Sidibe. Lindo de morrer!

Não vi também Guerra ao Terror ainda, mas uma mulher ganhando a estatueta dourada mais cobiçada do cinema foi inacreditável, ao mesmo tempo em que também tem cheiro de campanha de marketing de última categoria para a Academia, o mesmo aconteceria com Lee Daniels, diretor de Preciosa, que seria propagado como primeiro negro vencedor do Oscar... ai ai... Ah! Sandra Bullock ganhou. Adoro ela, não vi o filme, que nem chegou aos cinemas aqui no Brasil e já esta disponível nos camelôs de Salvador... Das que vi preferia Gabourey Sidibe, obvio! Interpretação impecável... Mas Sandra foi melhor aos olhos da academia, que sabe não foi mesmo?...

E filme?... Dez filmes?... O que Distrito 9 e Up estavam fazendo ali?... Bastardos Inglorius levando muito pouco para o grande filme que é... E eu com medo de Avatar ganhar... E graças a Deus não ganhou! Sim, não vi Guerra ao Terror, estava torcendo para Preciosa, mesmo sabendo que não iria ganhar, mas pela garra da diretora e pela coragem da produção de bancar um filme criticando a guerra e dele ser bem feito, mereceu!

É isso. O Oscar foi legal! Não ganhou Avatar, que como José Wilker falou já ganhou o prêmio a que era predestinado – maior bilheteria da história. Preciosa ganhou dois, estou satisfeitíssimo, a Academia não fez a mesma besteira de anos atrás com A Cor Púrpura, graças a Deus! A crítica somente vai para a Globo, horrível como sempre. Sinceramente preferia os anos que o SBT comprava os diretos de exibição do Oscar e passava tudo conforme o combinado. Além que no SBT não tem Big Brother... E que venham mais filmes bons e mais prêmios! Até o próximo ano.

terça-feira, 2 de março de 2010

AÚ.

Essas é um daqueles exemplares que você lê em uma sentada. Não se engane caro leitor, isso não é um propriamente um elogio! Criado pelo cartunista Flávio Luiz Aú, o capoeirista conta a história de um garoto, como o próprio titulo entrega, capoeirista que mora em Salvador, mais precisamente no Pelourinho, tem como fiel companheiro um macaquinho de estimação chamado Licuri e vive mil e uma aventuras junto com sua turma pela cidade de Salvador.

Aú é o típico “pelôboy”, negro, dono de um corpo definido, exibe um sorriso farto, é hospitaleiro com os turistas, chama atenção das gringas que passam por ele, sabe mais de um idioma – fruto da convivência com pessoas de todas as partes do mundo no Pelourinho – é capoeirista (tem algo menos clichê não?) e tem uma mãe quituteira de mão cheia. A Salvador em que Aú vive é hiper colorida, com Sol brilhante sempre, cheia de turistas fotografando cada detalhe, movimento contínuo, quase um O Pai Ó.

A historia é super simples. Aú e sua turma são ameaçados por um mafioso tipo gangster italiano (!) chamado Aramando Confusionni (!!) por conta de um casarão em que o bandido está interessado em transformar em hotel. Tramando um incêndio para acelerar seus planos de tomada do casarão os capangas de Confusionni acabam sendo vistos por Nathalie, uma adolescente francesa que é raptada pelos mesmo para uma ilha particular. Do mais a historia se segue como típica caçada ao vilão pelo mocinho, nada demais.

Au, apesar da publicação ser de 2008, foi criado em 1992 pelo cartunista Flávio Luiz feito para a exposição Bandes Dessinée – Quadrinhos Franco-belgas, em parceria com a Aliança Francesa, em Salvador. Depois de muitos estudos, esboços etc etc chegou-se ao personagem principal e seus companheiros. A historia passa fácil, é simples, conta com personagens realmente carismáticos. Mas o que incomoda mesmo são os clichês. Não sei como será a visão do público alvo, mas a historia do “peloboy” que salva a francesinha indefesa do mafioso com ares italianos não encheu meus olhos. Além disso, a francesinha não é um interesse romântico central de Aú, mas uma baiana, negra, chamada Bezinha que é descrita no site da revista (http://www.auocapoeirista.com.br/) como “namorada” de Aú. Quando li a historia não entendi bem o que havia entre eles dois e achei que Nathalie seria o par romântico do capoeirista, mas no final nem bezinha namorada entre aspas, nem a francesa indefesa.

A revista, com 48 páginas, coloridissima, no formato 21,5 x 29 cm, com capa dura custa a bagatela de R$ 48,00 (!!!). Com certeza acessível a todas as crianças e pré-adolescentes baianos, soteropolitanos, brasileiros etc... Fica a pergunta para que construir um herói popular se o publico que é parecido com ele não irá desfrutá-lo. Parece uma tentativa de divulgar a cultura baiana, o Pelourinho, a cultura negra até, mas para quem acontece esta divulgação?... Por R$ 48,00 fica difícil!... A revista é super bem estruturada, a qualidade é impar, mas faltam uma história com menos chavões e um preço mais acessível para a maioria das pessoas pelo menos. Aú salvou o dia... somente dentro da sua revista e poucos irão ver.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

Tyler Perry... Quando?...

Não gosto nem de publicar isso aqui no blog, mas... Mais um filme de Tyler Perry que com certeza pode não chegar aos cinemas brasileiros. Se a locadora que você pega DVDs é muito boa, quem sabe tenha um exemplar e olhe lá... Quem sabe também depois do fenômeno Preciosa os filmes deste diretor negro norte americano chegue aqui ao Brasil com mais divulgação. Enquanto meu sonho não se realiza fica a imagem do que pode ser uma boa comédia romântica...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O TEMPO, O NEGRO E OS FILMES DE SUPERAÇÃO...

O tempo é um fator mágico que existe no cinema. É incrível que problemas ou questões que levariam muito tempo, anos até para serem resolvidas, em questão de pouco mais de duas horas são definidas de uma forma deixar tudo em ordem, sem grandes traumas, sem feridas e o principal, servindo sempre de exemplo, pois todo problema, fazendo uma força pode ser resolvido. Cortes, musica certa, roteiro enxuto, tudo perfeito para fazer o tempo algo bom de ser vivido.

Isso seria óbvio até. Uma das funções do cinema é nos passar lições, às vezes sermões, sobre determinadas dificuldades e como podemos superar tudo da melhor forma possível. E dentro de duas horas o cinema constrói a ilusão, convence você de que de alguma forma tem algo haver com aquilo – se identificando muita das vezes com os personagens da tela – resolve tudo em um piscar de olhos e o convence de que alguma forma pode fazer igual também. Além é claro de fazer você, depois de muito tempo acompanhando o sofrimento alheio, sorrir, sair do cinema coma cabeça fresca, fria, leve, tendo a certeza que tudo em fim acabou bem.

Um cinema Ph. D em fazer isso? O americano. Filmes de superação já deviam estar nas prateleiras das locadoras separados em gênero fílmico. Sessão de filmes dramáticos, de filmes de comedia e em algum lugar, talvez ao lado dos filmes de ação, os filmes de superação. Posso listar inúmeros. Uma lista interminável. Mas parece que com as crises (financeira e do terrorismo) que abalaram os EUA, os filmes deste porte vem ganhando uma atenção desmedida em Hollywood.

Estes filmes passam em pouco tempo um problema que pode (aparentemente) não ser solucionado de forma alguma, o sofrimento dos personagens para atenuar as situações e um final estupendo que faz tudo em questão de minutos ficar pronto e perfeito. Claro que um personagem principal cativante ajuda e muito ao público que às vezes realmente precisa de um ponta pé inicial, ou um filme de auto-ajuda.

Dentro deste “gênero” a maioria das produções do cinema negro está contida. Existe o racismo, grande vilão a ser combatido e o negro, visto como herói, guerreiro, lutador constante, que somente por ser negro, ou por acordar e não se deixar apagar pelo que a segregação te proporciona, tem que lutar e ser o bam bam bam da vez . Existem vários exemplos, a Celie de A Cor Púrpura, Sethe de A Bem Amada, o Mandela de Invictus, Effie de DreamGirls, o Biko de Um Grito de Liberdade, a menina que é fã de Nelson Mandela em Sarafina, o Chris Gardner em A Procura da Felicidade, a Tiana de A Princesa Sapo, a Rosalem de A Vida Secreta das Abelhas, quase todos os personagens de Spike Lee, a família Younger de O Sol Tornará a Brilhar, a Akeelah de Prova de Fogo, a Tina Turner de Tina – O Filme, quase todos os personagens de Sidney Pointer, a Irmã Deloris de Mudança de Hábito 2 etc... A lista é grande. Todos (veja que em sua maioria TODAS) movidos contra o racismo, que no cinema, às vezes, parece algo muito simples de ser resolvido (Invictus), ou até algo divertido (Hairspray). Todo mundo sabe que o racismo é algo muito difícil de ser solucionado, mas dentro de duas horas de filme, traumas, feridas, humilhações, violências, problemas, tudo é resolvido, para alivio do espectador aflito na sala de cinema em busca de uma resposta.

Mas qual espectador fica aliviado?... Que tipo de espectador fica aliviado com os caminhos escolhidos pelos roteiros de Um Grito de Liberdade ou Hairspray ou até mesmo o Invictus... Não vou falar da cor de determinado público agora, mas sim o espectador que quer manter-se de olhos bem fechados. Independente de sua cor, mas da forma como ele encara os problemas do mundo. Desta forma, para quem quer manter-se em decisões e debates ralos o tempo ilusório que o cinema propõe é mais do que o suficiente para tudo estar resolvido. O mesmo cinema que provoca, instiga, e abre a ferida, também fecha todos os martírios com chave de ouro.

Uma das poucas vezes, se não a única vez que não vi isto é com o concorrente a melhor filme ao Oscar deste ano, Preciosa – Um Historia de Esperança. Lee Daniels – segundo negro a ser candidato ao Oscar de diretor e primeiro a ter sua produção também indicada à melhor filme – não entrega o filme de forma fácil, não digere o filme para o espectador, não faz nada, somente apresenta a historia. E dá socos e ponta pés no publico não perdoando ninguém. Ele não quer saber se você é branco ou negro ou vai aprender alguma lição com o filme, ele tem uma forte historia nas mãos e vai despejar na sua frente sem dó nem piedade. Só isso. Se você conseguir tirar alguma lição do que viu, não foi propósito dele E é por isso que Preciosa funciona tanto como filme. Durante suas duas horas de projeção o tempo não agrada e nem desbanca para um final extremamente resolvido. Ele apenas acontece... E se você tem coragem, veja Preciosa! O tempo não para...

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

CARNAVAL 2010. Dê-me um ouvido seletivo agora!

O Carnaval de Salvador é realmente uma festa bonita. Disso ninguém pode falar. Este ano saí um pouco para me divertir com amigos em uma das maiores – se não a maior – manifestações populares do Brasil. É gente de todo canto, de todos os estilos, e com o passar do tempo o Carnaval vem ficando mais eclético, mais diversificado, performático e também mais dançante. Tem pra tudo quanto é gosto, do axé tradicional ao rock alternativo. É só escolher, de fora é que você não vai ficar.

Mas... Sempre ele não é mesmo?... Por mais que a gente se esforce e vá para a rua somente com sentido de se divertir certas coisas acontecem para deixar a língua e ouvidos de qualquer um (ou pelo menos dos mais atentos) coçando. Sempre tem um comentário chato, ou algo que você vê que não agrada aos olhos, tem vezes que você torce para ter ouvido seletivo, mas infelizmente não tem. Sim, neste carnaval ouve pérolas das mais distintas. Diverti-me claro e muito, mas como não sou idiota também reparei em muita coisa por trás da premissa de festa da diversidade como o Carnaval é vendido para turistas e baianos.

Tem coisas que de tão no lugar todo ano já se tornam clichês do carnaval soteropolitano. O racismo é uma delas, cordeiros quase que totalmente negros, se espremendo na corda e dando proteção (em alguns blocos) a uma maioria branca dentro da corda. Turistas de fora indo atrás da cultura do “nego do pau grande” e da “nega fogosa”. Tinha gente que não agüentava e gritava aos quatro cantos “Eu quero um negão! Só presta se for negão!”. Vi isso uma dezena de vezes. Tornou-se quase um movimento cotidiano, quase que invisível, como uma estatua que fica na praça, é presente, mas todos que passam não dão a mínima para ela. Gente branca chegando perto de pessoas negras e dizendo que o clima ali não estava mais legal, que ali só tinha ladrão, que tudo estava pesado e que queriam ir embora. Chega a ser louco o medo que a população branca tem da negra, que expelem seu racismo de uma forma tão aberta sem nem reparar quem transformam em vilão.

Também tem a máxima: “É bom ter carnaval em Cajazeiras. (subúrbio de Salvador) Gosto da idéia. É bom que mantém aquele povo lá longe. Não vem pra cá. Aqui fica mais tranqüilo”. O “aqui” seria a Barra, local onde se concentram a população mais abastada da cidade e onde tem mais turista também. O objetivo da prefeitura foi reparado por aquele que vai usufruir daquilo que ela tanto quer mostrar. A prefeitura afasta o povo “baixo astral” e os cidadãos de bem agradecem... Dentro desse patamar racista, o Carnaval de Salvador também abre janelas para outros conceitos bem formulados: homofobia, sexismo, preconceito de classe, preconceito contra pessoas com deficiência física etc etc etc...

Sim, eu me diverti e muito. Dancei do axé mais louco á marchinha de carnaval mais antiga. Mas não vou ficar imune as coisas que ouço ou fechar os olhos as coisas que o mundo insiste em me mostrar. Carnaval é dançante, mas como todo mundo ta na folia, meio alto na maioria das vezes, tudo se torna mais explicito.

Mas ás vezes... Somente as vezes... E o carnaval é uma ótima época pra isso... As pessoas esquecem suas diferenças e toleram certos tipos de comportamento que são proibidos depois da quarta feira de cinzas. Quer um exemplo? Nunca vi tantos homossexuais se beijando na rua, realmente aumentou o nº de casais gays que se beijavam livremente independente do bloco ou de onde estavam. Um estudo mais detalhado sobre isso, pra quem se interessar, procure os trabalhos do brasilianista James Green. Homem com homem e mulher com mulher não viram jacaré no carnaval, mas vai fazer isso em uma praça de alimentação de um shopping depois pra ver se acham bonito, vai!...

A beleza da mulher baiana é ressaltada a toda hora. E as mulheres dos blocos afros são cobiçadas como pepitas de ouro. Lindas, maquiadas, negras, com adornos na cabeça, um orgulho de ser mulher... Chove homem ressentido doido para pegar as deusas do ébano, usá-las como objeto sexual e status e depois largá-las sem que nem pra que... A garota que “tem cara de empregada doméstica” é cobiçada de uma forma incrível. Até por que na maioria das músicas ela é descrita como um tesouro. E ai o turista quer saber que tempero é esse que inspira tantos artistas...

Fui para me divertir e acabei encontrando mais do mesmo. Sabe aqueles velhos clichês, os velhos dizeres das cartilhas preconceituosas de todos os anos, os policias batendo na população suspeita – dou um doce pra quem adivinhar a cor dessa gente – é sempre a mesma coisa. Gente se divertindo e voltando em buzu amarrotado, taxista que se recusam a fazer corrida rápida, policia violenta alegando proteger a população, cantor em cima do trio dizendo que o Carnaval é lindo e que não viu uma briga (!!! Ligue não, artistas geralmente são cegos!), turista sedento por carne negra, muita festa, camarotes cada vez mais altos, muita festa, muita alegria, trios revisitando clássicos do axé...

Acho que se fosse um imbecil meu carnaval teria sido maravilhoso, tipo cinco estrelas. Sim. Se olhasse para as coisas e não ligasse e achasse tudo lindo, bonito, divertido, dinâmico... Carnaval é uma festa que tem tudo pra ser a melhor coisa do ano realmente, mas as pessoas... Meu Deus ela conseguem reverter à ordem das coisas. Dancei muito, brinquei muito, dei muita risada, mas ouvido seletivo ainda não aprendi a ter...

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

PRECIOSA.

Preciosa não é um filme qualquer. Não tem como você sair imune deste filme. Sabe aquele filme que te pega e te vira pelo avesso? Aquele que te dá um golpe certeiro na garganta e te deixa quieto, pensativo, triste, mas ao mesmo tempo esperançoso? A ultima que me senti assim foi em Distrito 9 (que como Preciosa também concorre ao Oscar de Melhor Filme este ano) e o documentário Olhos Azuis. Preciosa também me fez chorar (de tristeza mesmo! Além de fazer chorar quem estava do meu lado no cinema), me fez ficar congelado de tensão, mas o mais importante, por mais que o filme exprima dor ele nunca faz você ficar em revolta ao ponto de estar desinteressado por ele. Preciosa cativa.

O filme dirigido por Lee Daniels primeiro cineasta negro a ter um filme seu concorrendo ao Oscar, além de também concorrer na categoria de direção – conta a historia de Preciosa, uma garota negra, obesa, pobre, analfabeta, que sofre de violência domestica pela mãe, tem 16 anos e está já na sua segunda gravidez, sendo que a primeira filha tem síndrome de down e vive de planos de assistência do governo, isso tudo em 1987 nos EUA. Preciosa é tímida ao extremo, completamente um burro de carga dentro de casa, sendo obrigada a comer compulsivamente comidas nada agradáveis pela mãe, é humilhada em todo canto que chega. Uma outra característica que chama atenção é o fato dela olhar sempre pro chão, nunca para frente de cabeça erguida evidenciando o grau de submissão perante a sociedade. Preciosa não enfrenta as circunstâncias, não tem forças para isso, muito pelo contrario, ela se entrega totalmente e torna-se um protótipo de solidão, amargura e estima baixa. Para escapar da vida horrível que leva Preciosa sonha com um mundo da fama cheio de acontecimentos e com um namorado de pele clara. E sim, existem outros problemas que Preciosa vai enfrentar que não me atento contar aqui...

Mas não se engane, Preciosa não é do tipo de filme de um personagem “Zé ninguém” que consegue dentro de duas horas se safar de todos os problemas existentes e dar uma lição ao publico de que tudo de ruim pode ser superado. Preciosa encanta justamente por trazer o contrario. O que ela ensina a nós publico é uma outra lição, não vou entregar o filme – você vai ter o prazer de ver essa maravilhosa produção – mas como já diz o cartaz, “A mais longa jornada começa com o primeiro passo.”.

Produzido pelos dois Midas norte americanos, Oprah Winfrey e Tyler Perry, que dispensam apresentações, o filme está concorrendo a seis Oscar, filme, direção, atriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado e edição, todas as indicações são merecidas. O de filme Preciosa não leva infelizmente, pois tem candidato mais forte/mais cara da academia este ano concorrendo junto com ela, além que tem Avatar que não deveria ganhar, mas pode dar o ar de sua graça com o premio principal. Apesar do belo trabalho, Lee Daniels pode não ganhar para o ótimo trabalho de Quentin Tarantino com Bastardos Inglórios. A estreante Gabourey Sidibe apesar de interpretação avassaladora pode não ganhar para o furacão papa premio Sandra Bullock com Um Sonho Impossível. Já com o premio de Atriz Coadjuvante a comediante Monique pode levar o Oscar, sua intepretacao é muito bem feita, tem só em Vera Farmiga de Amor Sem Escalas uma grande concorrente. No caso de roteiro adaptado o academia também pode dar a Geoffrey Fletcher o premio sem problemas, é de longe o melhor dos concorrentes.

Mas independente dos prêmios que ganhar ou não, e olha que já ganhou uma infinidade, Preciosa vale muito a pena pelas lições que projeta no espectador. Não é um filme de lições de moral, mas para cada pessoa vai inserir um sentido diferente. Mesmo que você seja completamente diferente da protagonista. O filme vale muito a pena, é bonito, não cai no melodrama fácil, não é em nenhuma parte um filme didático, é seco, difícil de engolir, mas mesmo assim é a experiência cinematográfica mais feliz que tive em anos. Perdoem o trocadilho, mas Preciosa é um filme precioso, realmente.


Show de Beyonce em Salvador...

OK, Ok. Demorei de postar algo sobre o show de Beyonce. Demorei, mas a postagem está aqui. Foram cinco horas na fila, mais três horas e meia esperando o show principal começar, some também cinqüenta mil (!!!!!!) pessoas no parque de exposições separados em pista vip, pista normal e dois camarotes. Existem outros números é claro, ingressos vendidos exorbitantemente a preços que variavam entre R$ 60 (primeiro lote) e R$ 370 reais, água mineral (no local do show, copo aberto com 400 ml) a R$ 4,00, camisas feitas com tecidos fubengas pela “bagatela” de R$ 20,00, entre outros absurdos... Mas no final das contas tenho a certeza que quem foi (independente de onde estivesse no Parque de Exposições) não se arrependeu e adorou o show da diva e inesquecível cantora Beyonce.

Aqui em SSA foi o ultimo show da turnê I AM... Tour! no Brasil. e depois de tanta espera, do show ter passado por três capitais, sendo que no Rio de Janeiro foram duas apresentações, a vontade de ver a mulher do ano eleita pela Billboard norte americana só aumentava. Mas o dia chegou e sem exageros nunca vi nada como o show de Beyonce. A produção, a banda, os dançarinos, os fãs, o som, aquele telão gigante reproduzindo imagens gravadas e ao vivo. Impressionante! Tudo no show da cantora é grandioso, e a diva que nos CDs faz musicas esplendidas, ao vivo torna-se quase como uma deusa. Canta muito, dança de forma fenomenal, é simpática (algo necessário atualmente para sobreviver no concorrido mercado da música atual. Nada de chiliques, ok?) e dá para ver que adora o que faz e não é mais uma diva fabricada.

O show começou atrasado, depois da pontual abertura de Ivete Sangalo, meia hora. O que no meio de uma platéia de mais de 5000 pessoas, números da pista vip, não era nada confortável esperar. Mas depois de tanto aperto o show começa de forma brilhante, abrem-se as cortinas e a silhueta da cantora aparece em meio a som de passos a lá Michael Jackson (que vai ser referencia mais três vezes durante o show), ela canta a introdução de Deja Vu, musica de seu segundo cd, e logo depois engata o seu primeiro sucesso solo Crazy In Love, no meio da música um pedaço de Work It Out – também do primeiro cd - com direito a saxofones enfurecidos. Chega a superar a introdução do Show Experience, não sei se por conta que dessa vez vi ao vivo ou por que é realmente melhor...

Depois da esplêndida introdução, Beyonce destila sucessos como Naughty Girl, Freakum Dress e Get Me Bodie não deixando a platéia tomar fôlego e entregando tudo de uma vez só, sem perdão. A banda nessa hora se destaca com grande competência e também as Suga Mamas, trio de backs com potente voz. Também tem destaque o telão disposto atrás da banda, lindo, exibindo imagens com alta resolução. Simplesmente impressionante.

Logo depois vem a parte mais calma do show, Beyonce canta as baladas Smash Into You (iumpressionante!!!), Ave Maria (a troca de roupa feita no palco é fantástica), Broken-Hearted Girl, além de If I Were A Boy que no show assim como Freakum Dress ganha uma batida rock bem pesada. Além disso, Alanis é citada durante a música com You Oughta Know.

Para introduzir seu terceiro ato, Beyonce canta Baby Boy próximo dos fãs e chega a um palco no meio da pista vip. É lá que sua carreira como Destiny Child vai ser relembrada. Muito do álbum Survivor – que dizem as más línguas é na verdade o primeiro álbum de Beyonce solo com apoio de suas backs Michelle e Kelie – é revisto e também do segundo cd do grupo. É nesta hora também que acontece uma das partes mais aguardadas pelos fãs de Salvador. Em Say My Name a cantora chega para um fã pergunta seu nome e canta o nome do dito cujo para todos ouvirem. Muita loucura, pois todos na hora queriam virar objetos do gogó poderoso da cantora, mas foi o Cauê quem ganhou o grande presente.

Depois Beyonce retorna ao palco principal e destila mais sucessos desta vez do terceiro cd em um quarto ato maravilhoso que culmina na musica mais esperada ao vivo naquele dia, Single Ladies o incrível sucesso com coreografia copiada em várias partes do mundo. Experimente colocar o nome da musica no you tube, tem material para você ver durante uma semana ou mais e algumas coisas são realmente boas. Todo este sucesso foi sentido pela produção e pela cantora que resolveram repercutir isto no show com uma introdução/vídeo com varias pessoas dançando e cantando Single Ladies pelo mundo a fora. É a parte mais criativa do show e divertida também. Com direito a Obama dançando o já famoso “oh oh oh”. Depois da introdução vêm os primeiros acordes da musica a explosão da canção com sua coreografia famosa. Sim, aquele agachamento é real!!!!...

Um pouco depois do “final” Beyonce canta “Halo” em homenagem a Michael Jackson, lindo exibido no telão em pose estilosa e antológica. Despede-se dos fãs cantando parabéns pra você – ela queria alguém que fizesse aniversario naquele dia, mas todo mundo dizia que estava fazendo aniversario. A cantora riu com a loucura dos fãs, mas acaba cantando a musica mesmo assim.

Foi um show muito bom. Tecnicamente potente, perfeito, a banda formada só por componentes femininas é maravilhosa, as Mamas são um encanto, os dançarinos e dançarinas TODOS são lindos e dançam muito. Ok, mesmo para padrões soteropolitanos o ingresso custou caro, os produtos vendidos dentro do espaço do show eram ruins, o atendimento horrível, a organização bem precária, mas a qualidade do show valeu cada centavo. Realmente um momento que faço questão de lembrar sempre. Sou admirador do trabalho desta maravilhosa cantora. Inesquecível!









quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

SEGUINDO EM FRENTE...


Tem muita coisa ainda por vir este ano quando o assunto é cinema negro. Recentemente fiz uma postagem sobre algumas produções que chegarão proximos meses aqui no Brasil. Para somar a lista anterior temos mais dois filmes, um que vamos ver o resultado dele no oscar - Um Sonho Possivel - já que sua atriz principal, Sandra Bulock, está concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz e o outro sobre a vida da Mike Tyson, já no poster a pressão da presença do grande homem e também uma frase de efeito prometendo trazer toda a verdade sobre o lutador. É aguardar para ver.

CABARÉ DA RAÇA.

Das três vezes que assisti Cabaré da Raça nunca me senti satisfeito com tudo que vi no palco. O que sentia era que faltava alguma coisa... O espetáculo do Bando de Teatro Olodum que já tem mais de dez anos, encenado em várias partes do mundo, é uma revista musical que foi feita inteiramente para provocar. Independente como isto chegue ao público o primeiro objetivo do espetáculo é a provocação. Isso fica nítido nas interrogações propostas a platéia pelos atores. E as perguntas/provocações não são poucas, já que Cabaré da Raça fala sobre racismo no Brasil, abordando muitos dos subtextos que este tema pode abrir como, presença do negro na mídia, identidade racial, religião, abolição da escravatura – 13 de maio, cotas nas universidades, mito do negro como objeto sexual e situações de discriminação no dia-a-dia, entre outros. Tudo com muita música, muito bom humor e muita (muita!) provocação.

E das três vezes que vi este Cabaré presenciei espetáculos completamente diferentes. Desde o figurino que mudava a cada temporada (vi um com todos os atores com roupas que caracterizavam seus personagens, outra com todos vestidos de branco – o melhor até hoje – e um vermelho não muito bom), até atualizações no roteiro e na forma como abordavam a platéia. Também as músicas mudavam vez por outra, uma coisa que via de uma forma em um ano, no outro estava bem diferente. Cabaré tem este ponto a favor, como trata de um assunto que se reesignifica como o racismo, existem possibilidades do espetáculo também se transformar. O espetáculo mistura canto, dança, interação com a platéia e tudo mais que o caldeirão do Bando de Teatro Olodum quiser misturar.

Mas o que me incomodou tanto das três vezes que vi Cabaré da Raça? O texto! O texto para mim é um problema. Não que seja ruim, mas nunca me contemplou. O texto do espetáculo – uma parceria entre Marcio Meireles e o próprio Bando – oferece lacunas demais, existem buracos enormes. Neste ponto o texto deveria ter mais foco, não oferecer tantas perguntas e sim respostas. Cabaré provoca, mas ao mesmo tempo não informa em muitas das suas passagens. Deixa coisas como o mito do negro como objeto sexual ao desleixo, sem desenvolver um assunto que gera prostituição em zonas, por exemplo, como o Pelourinho, entre outros lugares.

O texto muda, ele não se mantém estático no tempo. O Bando sabe muito bem que o racismo e a luta contra ele se transforma e fala por exemplo de cotas nas universidades. Mas a abordagem é rasa, as perguntas são muitas e no final a provocação sem conteúdo fica no lugar da informação que aguça. Outro ponto são os brancos da platéia – que vão em massa ver o espetáculo (ainda bem!) – eles saem do teatro satisfeitos. O texto fala sobre racismo, mas não atinge seu inventor e principal beneficiado, o branco. Não digo que os atores deveriam ofender e fazer um complô contra o publico branco que está na platéia, mas este mesmo publico se diverte, ri e parece nunca se incomodar com a forma que o assunto é tratado. Existe uma parte que sempre me marcou, uma das ultimas passagens de Cabaré da Raça em que os atores recitam frases que degradam o negro que são clássicas como “Negro quando não caga na entrada caga na saída”. Das três vezes reparei que a platéia se divide em aqueles que riem – na sua grande maioria brancos – e aqueles que se calam e se revoltam , na maioria negros.

Os personagens também beiram ao caricato quando não se entregam de vez a ele. Principalmente o personagem homossexual, que mais parece um hetero imitando um gay bastante efeminado, o clássico personagem gay pintoso que o teatro homofóbico consegue enxergar e adorar. É curiosamente um dos personagens que mais tem falas que informam sobre racismo, mas a seriedade daquilo que fala é cortado pelo tom com que este personagem chega a platéia. É uma alegoria, um palhaço de luxo. Surge a pergunta: Quando o teatro baiano vai aprender a fazer personagens homossexuais que não sejam meros imbecis para heterossexuais rirem?...

No final fica a sensação de vazio. E também de esperança. De que informem sobre racismo e não só provoquem. Cabaré da Raça é divertido, é alegre, tem musicas lindas, tem questionamentos muito válidos, mas a sensação de vazio mesmo depois da terceira vez continua no peito. Fica faltando alguma coisa, fica parecendo àquela conversa de bar que não se completa, não atinge um sentido. E o racismo tem sentido e objetivo muito vivos.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

INVICTUS.

Clint Eastwood nunca foi para mim exatamente um grande diretor. A critica se derrete a cada filme que ele lança, são elogios e mais elogios, junto a todo reconhecimento dos especialistas em cinema vem os prêmios e mais prêmios conquistados em anos de carreira. Dos que vi, e não foram muitos, os filmes dele que me tocaram foram o “antigo” As Pontes de Madison que vi muito mais por conta de Meryl Streep que por ele e este Invictus.

É um filme simples, como tudo na carreira de Clint. Trata-se de um filme contido que vai crescendo dentro de você. Portanto não espere por grades planos, uma reviravolta contagiante, pois não existe esse tipo de coisa aqui. As vezes o filme se aproxima muito de filmes feitos para televisão de tão simples que é. Sim, Mandela merecia um filme maior, mas este, considerando a cinebiografia do ativista, já esta com um tamanho bom. Não é um filme surpreendente, mas se mantém correto do início ate o final sem muitos alardes.

A primeira coisa que gostei do filme é não falar da vida de Mandela desde o inicio. Eu realmente odeio filme de origem. E afinal de contas Mandela não precisava disso, já que todo mundo sabe de alguma forma o que aconteceu com ele, que ele ficou na prisão durante anos, isso pelo cinema já foi explorado. O filme pega outra porção do grande líder Mandiba, explora a situação depois da sua posse como presidente da África do Sul onde negros estavam com sede de vingança e os brancos receosos... Como um homem poderia governar com uma bomba relógio na cabeça prestes a explodir. Isso sim é um bom mote para o filme.

E é através do rugby – símbolo da política racista segregacionista da África do Sul – que Mandela vai tentar unir o país em uma democracia. O filme vai se concentrar em torno desta passagem, do esforço que ele faz em convencer a população tanto negra quanto branca que precisam estar juntos em uma nova situação em vigor. E o filme explora bem esta mistura de constrangimento com fúria, raiva, medo, sede de vingança da população em geral sul africana. O clima do filme fica tenso em varias cenas e estas são as melhores do filme. Como por exemplo, as cenas da pequena sala de segurança da presidência onde guarda-costas negros e brancos são obrigados a trabalhar juntos no novo regime.

O filme tem muito a seu favor no carisma de Mandela encarnado maravilhosamente por Morgan Freeman, também foi o próprio Mandela que incentivou durante anos que o ator fizesse seu papel no cinema. Está perfeito e digno de prêmios e muitos aplausos. Além disso, o elenco coadjuvante esta perfeito. Sem tirar nem por. Na proposta do filme esta maravilhosos. O filme também resolve discutir, e isso é um fator esplêndido, o clima tenso com bom humor, principalmente o de Mandela que encarna todas as dificuldades de forma bastante positiva.

Claro, o filme tem seus problemas. O regime do Apartheid nunca foi simples, as relações entre negros e brancos apesar da lei de segregação não estar mais em vigor continuaram existindo no país, por mais que o filme queira convencer o espectador a esquecer simplesmente. Outra coisa é que o filme muitas vezes é piegas: Mandela saiu da prisão onde passou mais de 30 anos pronto para governar e perdoou aqueles que o colocaram lá. Ele perdoou, mas a população não. E por mais que o filme no final incentive a paz e o sucesso da política do “paz e amor” sabemos que o jogo de rugby só serviu para amenizar as coisas. Era esse o real objetivo de Mandela no começo, amenizar o conflito e ter brancos e negros quietos para que ele pudesse governar em paz. Este aspecto do filme é abordado é uma pequena cena, entre Mandiba e sua secretária. Aliás, o filme fala muito sobre como governar. Como governar a diversidade. Como governar minorias e maiorias. Tudo isso explodindo frases de efeito de Nelson durante todo o filme.

Um outro ponto que me chamou atenção foi que o diretor e roteirista dão pequenas pinceladas, mas não exploram a vida pessoal de Mandela. Que depois de 30 anos de exílio e de sua família ter se desequilibrado totalmente e seus filhos não sabem direito que é o pai verdadeiramente, pois só tem a visão do herói que levantou o país. Isto daria um ótimo filme e que infelizmente é uma realidade de outros líderes ativistas. Alguns esquecem e são obrigados a deixar de lado a ida pessoal por conta da militância. Dramático? Não sei. As vezes pode ter sido uma fuga, sei la. O documentário A Caminhada de Nelson Mandela mostra que a vida do grande presidente da África do Sul nunca foi um mar de rosas...

O filme está concorrendo a dois Oscar. Morgan por ator e Matt Damon por ator coadjuvante. Enquanto o primeiro só sofre com a concorrência de George Clonney que esta ótimo em Amor Sem Escalas (um ótimo filme também) o segundo faz uma interpretação correta apenas e o único esforço que fez demais foi ter ficado marombado para caracterizar bem um jogador de rugby, mas nada de esplêndido, é a zebra do ano. Mas independente dos prêmios, o filme é simples e bom de ser visto e deve gerar uma boa conversa de mesa de bar quando acabar, pois levanta muitas questões e inquietações, mesmo que o objetivo real do diretor fosse colocar panos quentes em toda aquela bomba relógio.

domingo, 31 de janeiro de 2010

BLU-RAY, CODINOME PERIGO?...

Não sou a favor da pirataria. Sou a favor que os produtores de cinema, teatro, musica e que formulam outras artes vedam suas obras a um custo accessível à população em geral. A velha desculpa que um cd custava tão caro por conta de todo o arsenal que é preciso para produzi-lo veio a baixo com o crescimento da pirataria e as lojas de departamento (no começo) e também as lojas especializadas em dvds/CDs/livros vendendo tudo a um custo baixíssimo.

Mas foi preciso que a pirataria crescesse substancialmente para que a população em geral tivesse contato com a cultura. Hoje tudo pode ser conhecido como cultura de massa, mesmo que não seja exatamente feito para este objetivo. Está tudo ali, ao alcance das mãos, somente um click e pronto. Mas como nem tudo são flores e a indústria desenvolve tecnologias a todo momento para se recompor dos prejuízos causados pela pirataria, existe uma luz no fim do túnel – para eles os produtores – e o final para nós consumidores. O blu-ray.

Ok, ele tem mais qualidade de imagem, mais qualidade de som que uma mídia de dvd comum. Ok, ele é mais resistente que o as mídias que circulam no mercado nos dias de hoje, mas ele também está sendo incentivado a compra não somente por conta de seus atributos ao consumidor e sim pelo auxílio que vai dar a quem produz e a industria como um todo.

Primeiro que o aparelho de blu Ray não lê filme pirata. Ele lê também o dvd, mas a mídia que os camelos e afins usam para gravar seus filmes não se acopla ao sistema do novo aparelho. Segundo, já reparou que o aparelho de dvd ta barato?... tem deles que chega a custa menos de 100 reais. Instantaneamente o blu-ray também esta baixando de preço e você em breve – como aconteceu com o vídeo cassete – vai precisar comprar outro aparelho, pois locadoras e lojas vão se adaptar – garanto que com um sorriso no rosto – a nova mídia. Terceiro como o blu-Ray (ainda!!!) não é “pirateável”, garanto que o preço da cultura e da informação vai começar a subir dentro em breve. Não duvido nada que a industria cultural vai começar a separar seus produtos em categorias, subir os preços e a informação novamente vai pegar no bolso do brasileiro.

Será que em breve filmes, musicas, livros não vão ser mais acessíveis? O blu-Ray fará sentido e a população que nunca teve contato com a cultura por conta do preço vai ficar a mercê?... Não sabemos. Enquanto posto aqui para vocês, meu visinho ouve nas alturas um cd de mp3 da Banda Reflexo – banda oitentista de musica afro daqui da Bahia. Advindo de um camelo que comprou a idéia de um cara que juntou todos as musicas que encontrou na net e comercializou tudo por R$ 4,00! Fico pensando... Se alguma produtora atualmente resolvesse fazer algo ao menos parecido, no mínimo ele teria que embolsar uns R$ 30,00 para adquirir o mesmo feito. Com certeza ele não estaria ouvindo...

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

DISCO MUSIC É MÚSICA PRETA??????

Sim, é! E todo mundo sabe disso. Apesar de não haver um consenso de onde exatamente teria surgido a disco music – alguns dizem que o africano Manu Dibango gravou o primeiro exemplar de disco music em 1972, outros que antes disso já haviam músicas disco rolando pelos bairros negros sem grande alarde – todos sabem que foi a partir das batidas do soul e do funk (ritmos negros) que nasceu esse incrível fenômeno que perdura até hoje nas canções de muitos artistas. Além disso, a disco foi difundida primeiramente entre os negros norte americanos e latinos, e foi feita para animar e esquecer dos problemas que amargavam tanto estas duas comunidades no EUA. Mas por que a disco ao contrário do samba rock, do regaae, do soul, não repercute tanto quando o assunto é retratar/representar a comunidade negra? Por que a musica negra e vertente disco transita por outros aspectos um pouco diferentes.

O primeiro ponto é que a disco é um ritmo que exclusivamente não retrata a comunidade negra de uma forma bastante segmentada. A musica foi criada para divertir um povo que queria entrar na dança e esquecer, pelo menos durante uma noite, um final de semana, as agruras do racismo, do preconceito social, do machismo, da homofobia etc. Este fenômeno quase não lamenta e sim celebra constantemente. E celebra o que? Que ainda bem que é sexta feira e vou dançar até não querer mais. Na segunda-feira volto a pensar nas burrices que o mundo formula e entro na regras da sociedade novamente... A celebração dá corda para que outros povos – outros fragmentos da comunidade negra que geralmente não aparecem com tanta ênfase (mulheres e gays, por exemplo) tenham a sua vez e mostrem sua existência através da dança.

Também é um dos ritmos que se embranqueceram mais rápido que os outros ritmos negros. Não que outros ritmos como o rock não tenham seus exemplares brancos também, mas o rock formulado por Jimmy Hendrix e o feito por Elvis são coisas completamente diferentes. A disco feita por Donna Summer, Imagination, pelo grupo Chic ou Odyssey e construída pelo ABBA ou pela dupla italiana Baccara é quase que a mesma coisa. Falam geralmente sobre a noite de sábado, sobre alguém que arrasa na pista e sobre celebração. Nada muito, além disso. A disco music não tem letras extremamente demarcadas, territórios restritos, ela é black e celebra a atitude negra de se revigorar, o povo negro dança, celebra, brinca, se liberta através das batidas.

A disco acima de tudo é um fenômeno gay! E este ponto é algo bem demarcado quando se compara ela com outros tipos de musica negra que são extremamente heteronormativos. Ok, não existe nenhuma placa, nenhum aviso dizendo que é proibido uma pessoa homossexual celebrar com o soul, por exemplo. Mas é com a disco que cantores negros gays como, alguns ate assumidos como Sylvester, fazem sucesso e passam a cantar em todas as pitas. Além disso, era nas pistas de dança disco que os homossexuais (femininos e masculinos) poderiam se “libertar”, nem que fosse um pequeno espaço de tempo em que a boate estava aberta durante a noite. E cada minuto para quem não tem nada durante a semana é muito valioso.

Em minha opinião a DISCO é o fenômeno que mais abrange a diversidade da comunidade negra. Mulheres, homens, héteros e homossexuais, crianças, velhos, todos foram feitos para celebrar. Por conta de toda essa celebração virou sucesso no mundo inteiro, tem vertentes nos mais variados países – alguém se lembra da Eurodisco e das Frenéticas aqui no Brasil? – e foi o primeiro ritmo negro a ter grande alcance pop por todo o planeta. A alegria pura e simples é muito mais fácil de vender também.

Hoje a disco ainda está na cabeça de muita gente. Artistas como Madonna, Donna Summer, Kelye Minogue, Bee Gees, Ne-yo, entre outros reinventam referências que surgiram lá no meio da década de setenta. E viva a disco, viva a celebração! Dance, dance, dance...