Certa vez ouvi uma critica dizer que existem dois tipos de atores/atrizes em Hollywood. O primeiro é o tipo de ator que se transfigura, se metaforiza, se reconstrói, deturpando sua figura a favor do personagem. Por mais famoso que seja, ele (a) se esconde em uma interpretação tão bem feita que deixa sua figura pública de lado, fazendo com que o público que vê seus filmes realmente só veja o/a personagem e não somente o famoso na tela. O segundo tipo de ator/atriz é aquele que por mais esforço que faça sua vida pessoal se sobressai ao seu personagem, seja qual for ele. O publico acaba reparando muito mais no sorriso dele (a), como está magro (a) ou não, que roupa está vestindo etc.
Dentro desses dois patamares no primeiro encaixam-se profissionais como Meryl Streep, Robert de Niro, Denzel Washington, Johnny Deep, Forest Whitaker, Juliane Moore. Do outro lado estão Martin Laurence, Van Dame,Sarah Jessica Parker, Robert Pattinson... Recentemente um que pertencia ao segundo lado e passou para o primeiro foi Leonardo DiCaprio que tinha tudo para ser o eterno Romeo e Jack de Titanic, mas catapultou seu nome para o primeiro time em Hollywood.
Nesta segunda categoria de atores que ofuscam seus personagens com sua figura pública está sem sombra de dúvidas Beyonce. Ela que já protagonizou filmes como Carmen: A Hip Hopera, Austin Powers e o Membro de Ouro, Resistindo às Tentações, A Pantera Cor-de-Rosa, Dreamgirls, Cadillac Records, portanto já tem uma vasta carreira em frente às telas, mas por mais esforço que faça deixa o nome Beyonce “em cima dos créditos” de seus personagens. Tudo bem que seus filmes nunca foram grande coisa, excluindo os dois últimos da lista acima. A própria cantora disse em entrevista que só começou a atuar para valer quando fez DreamGirls. Concordo com Beyonce em parte, pois por mais infinitamente melhor que seja em comparação a seus outros filmes DreamGirls, com seus atores majestosos, consegue ofuscar a figura de Beyonce fácil, fácil.
Com este Obsessiva não acontece diferente. Ela “interpreta” – com aspas mesmo! - Sharon Charles dona de casa típica do sonho americano que vê seu casamento ameaçado pela psicopata secretaria do seu marido. Trata-se de mais um filme de mulheres com mente doentia, que fazem tudo para conquistar e também para manter um homem perto dos seus domínios... Isso já foi feito no cinema americano um milhão de vezes e essa cópia de Atração Fatal bem produzida (pela própria Beyonce e seu pai) não passa de mais um produto genérico. Beyonce faz a protagonista, mas não consegue colocar no público a certeza de que ali na tela está uma mulher comum e não a cantora dona de cifras gigantescas que engata um sucesso atrás do outro. E olha que ela tenta!...
Obsessiva não é um filme ruim. Está muito longe de ser. Trata-se de mais uma cópia bem feita até... E ninguém vê filmes como os genéricos de Alien e Indiana Jones esperando presenciar uma obra prima... O que falta nele é justamente o apagamento da cantora pop mais famosa da década... Que não acontece... Infelizmente.
Existem artistas, que a todo momento mostram coisas novas, seja cds ou escândalos novos , já outros demoram anos para mostrar novos trabalhos. Estes últimos não se dão conta que o seu público fiel, que ele conquistou com tanto esforço, sente saudades e quer ter sua voz sempre por perto, representada em novas canções.
Um desses casos é Sade. Depois de 10 anos, isso mesmo, dez anos de puro ostracismo (!!!) a cantora volta com um cd recheado de boas intenções... A capa do CD é linda! E quer saber?... A espera valeu a pena. A minha canção preferida é a que dá nome ao novo álbum. Ela nao se reinventa, continua mostrando suas baladas, seu soul, sua influencia com a bossa nova, um pouco de r&b talvez também é bom... Sade voltou e continua diva!
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Casa Grande e Senzala faz mais de 30 anos que foi publicado. É considerado um dos marcos da antropologia no Brasil e também um ponto “fundamental” na literatura sobre o negro no Brasil colônia. É contestado por alguns, ovacionado por outros. Mas acima de tudo, onde esteja provoca polêmica entre seus leitores. Nunca vi um livro que mesmo depois de tanto tempo publicado, gerado outros estudos sobre o mesmo assunto, ainda provoca polêmicas e dissabores. Daqueles de causar inimizade mesmo, que esquenta o ambiente – geralmente acadêmico – ou mesa de bar, ou banco de praça, seja onde for o debate esquenta.
Semana passada, presenciei mais um debate. Sala de aula cheia, de um lado Nina Rodrigues e sua teoria da miscigenação negativa e Gilberto Freire com sua idéia de valorização da mistura entre as raças. Estes dois autores na verdade, são os dois “pólos” sobre miscigenação e sobrevivências negras no Brasil, antes da grande virada que o movimento negro vai propor sobe uma concepção de ser negro durante a década de 70. depois de todos na sala serem contra Nina Rodrigues aconteceu a explanação sobre Gilberto e seus feitos... Ai o circo pegou fogo!...
Gente que defendia sua obra como “homem de grande valor e defensor da cultura negra”, ou aqueles que não leram a obra e sim gente que fez comentários sobre ela, ou pessoas que leram capítulos da mesma, ou gente que leu teóricos que leram outros teóricos que leram Casa Grande e Senzala. Do outro lado, estudantes contra Gilberto Freire e seus escritos e os neo-freireanos que fizeram nascer o conceito de “democracia racial brasileira”. E conforme o debate vai aumentando, as pessoas começam a falar mais alto e mais alto e o ambiente começa a ficar confuso a ponto de ninguém mais saber o que é debate acadêmico e racha entre grupinhos e seus valores ideológicos.
Gilberto e sua “obra fundadora” edificaram muitos conceitos e serviu para o alívio de uma burguesia sedenta de revoluções negras nulas, de uma não consciência negra, da negação do ser negro como objeto e sujeito da sua história. Da interpretação dos seus discípulos sobre Casa Grande Senzala e outros livros escritos por ele, nasceu o mito da democracia racial, o famigerado “jeitinho brasileiro” e a noção que os negros e indígenas sobreviveram por conta do heroísmo branco português. Independente de qualquer coisa é uma obra que deve ser lida, deve ser debatida em suas minúcias e suas várias armadilhas. Tudo por que Gilberto aidna sobrevive. É uma das poucas obras acadêmicas que conseguiram perpassar todas as barreiras da intelectualidade, da universidade e atingir a rua, as pessoas, mesmo aquelas que nunca ouviram falar em um livro... O vampiro do senhor de engenho, branco, descendente de portugueses, heterossexual, cristão e dono de seu pequeno império ainda continua vivo...
O clip é "velho", 2006, mas muito bem feito e mágico também. Além que a música é também muito legal. É só ouvir. Mistura muita coisa ao mesmo tempo, mas mantem-se original. A voz de Algebra é tranquila e suas músicas contagiam. E a última cena do clip é muito legal...
Bem... Neyma é uma cantora de Moçambique... fez um clip da sua nova música Kina Marrabenta.
Mais uma cantora que repete a receita das divas de r&b norte americanas, cabelo escovado que voa + visual perua rapper + corpão + simpatia para "esconder" a voz mediana... Repare no momento da chuva... sem comentários!!!
1) É um filme emocionante. Simples e incrivelmente bem feito. Direção firme, roteiro muito bem escrito, interpretações seguras, produção perfeita. Apesar de te dar pancadas no estômago a todo o momento, trata-se de um grande filme justamente por trazer o drama de uma menina com inúmeros problemas sem ser piegas.
2)Traz Mariah Carey como nunca se viu no cinema americano. Sem o glamour de diva que estamos acostumados, sem maquiagem, com direito a bigodinho e cabelo despenteado. Além dela e de sua interpretação primorosa, traz também Lenny Kravitz no papel de um enfermeiro que cuida de Preciosa no hospital quando esta tem o seu segundo filho.
3 ) O filme é produzido por Oprah Winfrey e Tyler Perry. Não preciso falar muita coisa a mais sobre isso.
4)O filme concorreu a 6 Oscar. Filme, direção, roteiro, atriz, atriz coadjuvante e edição. Sei que o Oscar não é mais medidor de filme bom há muito tempo, mas tem ainda sua respeitabilidade.
5)Dos seis Oscar que concorreu, ganhou duas estatuetas. A de melhor roteiro adaptado e também a de melhor atriz coadjuvante. Muito merecidos por sinal.
6)Apesar de não ter ganhado o Oscar de melhor atriz a interpretação de Goubourey Sidibe é maravilhosa. Estreante com tipo de veterana na arte de atuar. Passa direitinho a horror e a esperança de Preciosa.
7)Sim, é um filme de professor que ajuda o estudante desalmado a ser alguém na vida. Mas é totalmente diferente daquilo que você já viu ate hoje. Eu te garanto!
8)É baseado em um livro semi biográfico, escrito em primeira pessoa, de uma autora chamada Sapphire. O livro é muito bem escrito e também bem humorado.
9)Apesar da historia se passar em 1987, o filme simplesmente não esta parado no tempo. É grande o suficiente para abranger os assuntos que trata em todas as épocas.
10)Eu já escrevi tanto sobre este filme aqui... Por que ainda você não viu?..
Loucura, loucura... O Oscar esse ano eu gostei. Vi em TV aberta, ou seja, fiquei mais uma vez puto da vida por conta da Globo dando espaço a inutilidade do Big Brother... Fazer o que!... Preciosa levou dois! Melhor atriz coadjuvante para Monique, simples maravilhosa e também roteiro adaptado. Adorei ter ganhado estas duas categorias. E Tyler Perry? Negão todo charmoso, muito bonito, começou bem, jogando veneno, dizendo que nunca mais iria estar ali no Oscar, já que ele não é quisto pela critica hollywoodiana, infelizmente depois desatou em piadinhas sem graças. Mas tá perdoado produziu Preciosa. Hehehe.
Na homenagem póstuma, apresentada por Demi Moore, o lugar de Michael Jackson, mesmo tendo feito filmes horrendos, estava lá, outra presença marcante foi a de (infelizmente) Patrick Sweyzer na mesma homenagem. Gostei também da apresentação de dança de rua misturada com balé e dança contemporânea para apresentar o prêmio de melhor trilhar sonora. Muito boa mesmo. E ainda bem que tiraram a cantoria provinda do prêmio de melhor canção. Anos atrás acompanhar música por música era um porre, esse ano foi rápido a apresentação e também a entrega do prêmio.
A apresentação dos indicados a melhor ator e atriz foi ímpar. Lindo mesmo! Todos os profissionais sendo homenageados por atores que dividiram a tela com eles. Muito bem feito. E na hora em que Oprah subiu ao palco eu realmente me arrepiei da cabeça aos pés com ela falando sobre a protagonista de Preciosa, Gabourey Sidibe. Lindo de morrer!
Não vi também Guerra ao Terror ainda, mas uma mulher ganhando a estatueta dourada mais cobiçada do cinema foi inacreditável, ao mesmo tempo em que também tem cheiro de campanha de marketing de última categoria para a Academia, o mesmo aconteceria com Lee Daniels, diretor de Preciosa, que seria propagado como primeiro negro vencedor do Oscar... ai ai... Ah! Sandra Bullock ganhou. Adoro ela, não vi o filme, que nem chegou aos cinemas aqui no Brasil e já esta disponível nos camelôs de Salvador... Das que vi preferia Gabourey Sidibe, obvio! Interpretação impecável... Mas Sandra foi melhor aos olhos da academia, que sabe não foi mesmo?...
E filme?... Dez filmes?... O que Distrito 9 e Up estavam fazendo ali?... Bastardos Inglorius levando muito pouco para o grande filme que é... E eu com medo de Avatar ganhar... E graças a Deus não ganhou!Sim, não vi Guerra ao Terror, estava torcendo para Preciosa, mesmo sabendo que não iria ganhar, mas pela garra da diretora e pela coragem da produção de bancar um filme criticando a guerra e dele ser bem feito, mereceu!
É isso. O Oscar foi legal! Não ganhou Avatar, que como José Wilker falou já ganhou o prêmio a que era predestinado – maior bilheteria da história. Preciosa ganhou dois, estou satisfeitíssimo, a Academia não fez a mesma besteira de anos atrás com A Cor Púrpura, graças a Deus! A crítica somente vai para a Globo, horrível como sempre. Sinceramente preferia os anos que o SBT comprava os diretos de exibição do Oscar e passava tudo conforme o combinado. Além que no SBT não tem Big Brother... E que venham mais filmes bons e mais prêmios! Até o próximo ano.
Essas é um daqueles exemplares que você lê em uma sentada. Não se engane caro leitor, isso não é um propriamente um elogio! Criado pelo cartunista Flávio Luiz Aú, o capoeirista conta a história de um garoto, como o próprio titulo entrega, capoeirista que mora em Salvador, mais precisamente no Pelourinho, tem como fiel companheiro um macaquinho de estimação chamado Licuri e vive mil e uma aventuras junto com suaturma pela cidade de Salvador.
Aú é o típico “pelôboy”, negro, dono de um corpo definido, exibe um sorriso farto, é hospitaleiro com os turistas, chama atenção das gringas que passam por ele, sabe mais de um idioma – fruto da convivência com pessoas de todas as partes do mundo no Pelourinho – é capoeirista (tem algo menos clichê não?) e tem uma mãe quituteira de mão cheia. A Salvador em que Aú vive é hiper colorida, com Sol brilhante sempre, cheia de turistas fotografando cada detalhe, movimento contínuo, quase um O Pai Ó.
A historia é super simples. Aú e sua turma são ameaçados por um mafioso tipo gangster italiano (!) chamado Aramando Confusionni (!!) por conta de um casarão em que o bandido está interessado em transformar em hotel. Tramando um incêndio para acelerar seus planos de tomada do casarão os capangas de Confusionni acabam sendo vistos por Nathalie, uma adolescente francesa que é raptada pelos mesmo para uma ilha particular. Do mais a historia se segue como típica caçada ao vilão pelo mocinho, nada demais.
Au, apesar da publicação ser de 2008, foi criado em 1992 pelo cartunista Flávio Luiz feito para a exposição Bandes Dessinée – Quadrinhos Franco-belgas, em parceria com a Aliança Francesa, em Salvador. Depois de muitos estudos, esboços etc etc chegou-se ao personagem principal e seus companheiros. A historia passa fácil, é simples, conta com personagens realmente carismáticos. Mas o que incomoda mesmo são os clichês. Não sei como será a visão do público alvo, mas a historia do “peloboy” que salva a francesinha indefesa do mafioso com ares italianos não encheu meus olhos. Além disso, a francesinha não é um interesse romântico central de Aú, mas uma baiana, negra, chamada Bezinha que é descrita no site da revista (http://www.auocapoeirista.com.br/) como “namorada” de Aú. Quando li a historia não entendi bem o que havia entre eles dois e achei que Nathalie seria o par romântico do capoeirista, mas no final nem bezinha namorada entre aspas, nem a francesa indefesa.
A revista, com 48 páginas, coloridissima, no formato 21,5 x 29 cm, com capa dura custa a bagatela de R$ 48,00 (!!!). Com certeza acessível a todas as crianças e pré-adolescentes baianos, soteropolitanos, brasileiros etc... Fica a pergunta para que construir um herói popular se o publico que é parecido com ele não irá desfrutá-lo. Parece uma tentativa de divulgar a cultura baiana, o Pelourinho, a cultura negra até, mas para quem acontece esta divulgação?... Por R$ 48,00 fica difícil!... A revista é super bem estruturada, a qualidade é impar, mas faltam uma história com menos chavões e um preço mais acessível para a maioria das pessoas pelo menos. Aú salvou o dia... somente dentro da sua revista e poucos irão ver.
Não gosto nem de publicar isso aqui no blog, mas... Mais um filme de Tyler Perry que com certeza pode não chegar aos cinemas brasileiros. Se a locadora que você pega DVDs é muito boa, quem sabe tenha um exemplar e olhe lá... Quem sabe também depois do fenômeno Preciosa os filmes deste diretor negro norte americano chegue aqui ao Brasil com mais divulgação. Enquanto meu sonho não se realiza fica a imagem do que pode ser uma boa comédia romântica...
O tempo é um fator mágico que existe no cinema. É incrível que problemas ou questões que levariam muito tempo, anos até para serem resolvidas, em questão de pouco mais de duas horas são definidas de uma forma deixar tudo em ordem, sem grandes traumas, sem feridas e o principal, servindo sempre de exemplo, pois todo problema, fazendo uma força pode ser resolvido. Cortes, musica certa, roteiro enxuto, tudo perfeito para fazer o tempo algo bom de ser vivido.
Isso seria óbvio até. Uma das funções do cinema é nos passar lições, às vezes sermões, sobre determinadas dificuldades e como podemos superar tudo da melhor forma possível. E dentro de duas horas o cinema constrói a ilusão, convence você de que de alguma forma tem algo haver com aquilo – se identificando muita das vezes com os personagens da tela – resolve tudo em um piscar de olhos e o convence de que alguma forma pode fazer igual também. Além é claro de fazer você, depois de muito tempo acompanhando o sofrimento alheio, sorrir, sair do cinema coma cabeça fresca, fria, leve, tendo a certeza que tudo em fim acabou bem.
Um cinema Ph. D em fazer isso? O americano. Filmes de superação já deviam estar nas prateleiras das locadoras separados em gênero fílmico. Sessão de filmes dramáticos, de filmes de comedia e em algum lugar, talvez ao lado dos filmes de ação, os filmes de superação. Posso listar inúmeros. Uma lista interminável.Mas parece que com as crises (financeira e do terrorismo) que abalaram os EUA, os filmes deste porte vem ganhando uma atenção desmedida em Hollywood.
Estes filmes passam em pouco tempo um problema que pode (aparentemente) não ser solucionado de forma alguma, o sofrimento dos personagens para atenuar as situações e um final estupendo que faz tudo em questão de minutos ficar pronto e perfeito. Claro que um personagem principal cativante ajuda e muito ao público que às vezes realmente precisa de um ponta pé inicial, ou um filme de auto-ajuda.
Dentro deste “gênero” a maioria das produções do cinema negro está contida. Existe o racismo, grande vilão a ser combatido e o negro, visto como herói, guerreiro, lutador constante, que somente por ser negro, ou por acordar e não se deixar apagar pelo que a segregação te proporciona, tem que lutar e ser o bam bam bam da vez . Existem vários exemplos, a Celie de A Cor Púrpura, Sethe de A Bem Amada, o Mandela de Invictus, Effie de DreamGirls, o Biko de Um Grito de Liberdade, a menina que é fã de Nelson Mandela em Sarafina, o Chris Gardner em A Procura da Felicidade, a Tiana de A Princesa Sapo, a Rosalem de A Vida Secreta das Abelhas, quase todos os personagens de Spike Lee, a família Younger de O Sol Tornará a Brilhar, a Akeelah de Prova de Fogo, a Tina Turner de Tina – O Filme, quase todos os personagens de Sidney Pointer, a Irmã Deloris de Mudança de Hábito 2 etc... A lista é grande. Todos (veja que em sua maioria TODAS) movidos contra o racismo, que no cinema, às vezes, parece algo muito simples de ser resolvido (Invictus), ou até algo divertido (Hairspray). Todo mundo sabe que o racismo é algo muito difícil de ser solucionado, mas dentro de duas horas de filme, traumas, feridas, humilhações, violências, problemas, tudo é resolvido, para alivio do espectador aflito na sala de cinema em busca de uma resposta.
Mas qual espectador fica aliviado?... Que tipo de espectador fica aliviado com os caminhos escolhidos pelos roteiros de Um Grito de Liberdade ou Hairspray ou até mesmo o Invictus... Não vou falar da cor de determinado público agora, mas sim o espectador que quer manter-se de olhos bem fechados. Independente de sua cor, mas da forma como ele encara os problemas do mundo. Desta forma, para quem quer manter-se em decisões e debates ralos o tempo ilusório que o cinema propõe é mais do que o suficiente para tudo estar resolvido. O mesmo cinema que provoca, instiga, e abre a ferida, também fecha todos os martírios com chave de ouro.
Uma das poucas vezes, se não a única vez que não vi isto é com o concorrente a melhor filme ao Oscar deste ano, Preciosa – Um Historia de Esperança. Lee Daniels – segundo negro a ser candidato ao Oscar de diretor e primeiro a ter sua produção também indicada à melhor filme – não entrega o filme de forma fácil, não digere o filme para o espectador, não faz nada, somente apresenta a historia. E dá socos e ponta pés no publico não perdoando ninguém. Ele não quer saber se você é branco ou negro ou vai aprender alguma lição com o filme, ele tem uma forte historia nas mãos e vai despejar na sua frente sem dó nem piedade. Só isso. Se você conseguir tirar alguma lição do que viu, não foi propósito dele E é por isso que Preciosa funciona tanto como filme. Durante suas duas horas de projeção o tempo não agrada e nem desbanca para um final extremamente resolvido. Ele apenas acontece... E se você tem coragem, veja Preciosa! O tempo não para...
O Carnaval de Salvador é realmente uma festa bonita. Disso ninguém pode falar. Este ano saí um pouco para me divertir com amigos em uma das maiores – se não a maior – manifestações populares do Brasil. É gente de todo canto, de todos os estilos, e com o passar do tempo o Carnaval vem ficando mais eclético, mais diversificado, performático e também mais dançante. Tem pra tudo quanto é gosto, do axé tradicional ao rock alternativo. É só escolher, de fora é que você não vai ficar.
Mas... Sempre ele não é mesmo?... Por mais que a gente se esforce e vá para a rua somente com sentido de se divertir certas coisas acontecem para deixar a língua e ouvidos de qualquer um (ou pelo menos dos mais atentos) coçando. Sempre tem um comentário chato, ou algo que você vê que não agrada aos olhos, tem vezes que você torce para ter ouvido seletivo, mas infelizmente não tem. Sim, neste carnaval ouve pérolas das mais distintas. Diverti-me claro e muito, mas como não sou idiota também reparei em muita coisa por trás da premissa de festa da diversidade como o Carnaval é vendido para turistas e baianos.
Tem coisas que de tão no lugar todo ano já se tornam clichês do carnaval soteropolitano. O racismo é uma delas, cordeiros quase que totalmente negros, se espremendo na corda e dando proteção (em alguns blocos) a uma maioria branca dentro da corda. Turistas de fora indo atrás da cultura do “nego do pau grande” e da “nega fogosa”. Tinha gente que não agüentava e gritava aos quatro cantos “Eu quero um negão! Só presta se for negão!”. Vi isso uma dezena de vezes. Tornou-se quase um movimento cotidiano, quase que invisível, como uma estatua que fica na praça, é presente, mas todos que passam não dão a mínima para ela. Gente branca chegando perto de pessoas negras e dizendo que o clima ali não estava mais legal, que ali só tinha ladrão, que tudo estava pesado e que queriam ir embora. Chega a ser louco o medo que a população branca tem da negra, que expelem seu racismo de uma forma tão aberta sem nem reparar quem transformam em vilão.
Também tem a máxima: “É bom ter carnaval em Cajazeiras. (subúrbio de Salvador) Gosto da idéia. É bom que mantém aquele povo lá longe. Não vem pra cá. Aqui fica mais tranqüilo”. O “aqui” seria a Barra, local onde se concentram a população mais abastada da cidade e onde tem mais turista também. O objetivo da prefeitura foi reparado por aquele que vai usufruir daquilo que ela tanto quer mostrar. A prefeitura afasta o povo “baixo astral” e os cidadãos de bem agradecem... Dentro desse patamar racista, o Carnaval de Salvador também abre janelas para outros conceitos bem formulados: homofobia, sexismo, preconceito de classe, preconceito contra pessoas com deficiência física etc etc etc...
Sim, eu me diverti e muito. Dancei do axé mais louco á marchinha de carnaval mais antiga. Mas não vou ficar imune as coisas que ouço ou fechar os olhos as coisas que o mundo insiste em me mostrar. Carnaval é dançante, mas como todo mundo ta na folia, meio alto na maioria das vezes, tudo se torna mais explicito.
Mas ás vezes... Somente as vezes... E o carnaval é uma ótima época pra isso... As pessoas esquecem suas diferenças e toleram certos tipos de comportamento que são proibidos depois da quarta feira de cinzas. Quer um exemplo? Nunca vi tantos homossexuais se beijando na rua, realmente aumentou o nº de casais gays que se beijavam livremente independente do bloco ou de onde estavam. Um estudo mais detalhado sobre isso, pra quem se interessar, procure os trabalhos do brasilianista James Green. Homem com homem e mulher com mulher não viram jacaré no carnaval, mas vai fazer isso em uma praça de alimentação de um shopping depois pra ver se acham bonito, vai!...
A beleza da mulher baiana é ressaltada a toda hora. E as mulheres dos blocos afros são cobiçadas como pepitas de ouro. Lindas, maquiadas, negras, com adornos na cabeça, um orgulho de ser mulher... Chove homem ressentido doido para pegar as deusas do ébano, usá-las como objeto sexual e status e depois largá-las sem que nem pra que... A garota que “tem cara de empregada doméstica” é cobiçada de uma forma incrível. Até por que na maioria das músicas ela é descrita como um tesouro. E ai o turista quer saber que tempero é esse que inspira tantos artistas...
Fui para me divertir e acabei encontrando mais do mesmo. Sabe aqueles velhos clichês, os velhos dizeres das cartilhas preconceituosas de todos os anos, os policias batendo na população suspeita – dou um doce pra quem adivinhar a cor dessa gente – é sempre a mesma coisa. Gente se divertindo e voltando em buzu amarrotado, taxista que se recusam a fazer corrida rápida, policia violenta alegando proteger a população, cantor em cima do trio dizendo que o Carnaval é lindo e que não viu uma briga (!!! Ligue não, artistas geralmente são cegos!), turista sedento por carne negra, muita festa, camarotes cada vez mais altos, muita festa, muita alegria, trios revisitando clássicos do axé...
Acho que se fosse um imbecil meu carnaval teria sido maravilhoso, tipo cinco estrelas. Sim. Se olhasse para as coisas e não ligasse e achasse tudo lindo, bonito, divertido, dinâmico... Carnaval é uma festa que tem tudo pra ser a melhor coisa do ano realmente, mas as pessoas... Meu Deus ela conseguem reverter à ordem das coisas. Dancei muito, brinquei muito, dei muita risada, mas ouvido seletivo ainda não aprendi a ter...
Preciosa não é um filme qualquer. Não tem como você sair imune deste filme. Sabe aquele filme que te pega e te vira pelo avesso? Aquele que te dá um golpe certeiro na garganta e te deixa quieto, pensativo, triste, mas ao mesmo tempo esperançoso? A ultima que me senti assim foi em Distrito 9 (que como Preciosa também concorre ao Oscar de Melhor Filme este ano) e o documentário Olhos Azuis. Preciosa também me fez chorar (de tristeza mesmo! Além de fazer chorar quem estava do meu lado no cinema), me fez ficar congelado de tensão, mas o mais importante, por mais que o filme exprima dor ele nunca faz você ficar em revolta ao ponto de estar desinteressado por ele. Preciosa cativa.
O filme dirigido por Lee Daniels – primeiro cineasta negro a ter um filme seu concorrendo ao Oscar, além de também concorrer na categoria de direção –conta a historia de Preciosa, uma garota negra, obesa, pobre, analfabeta, que sofre de violência domestica pela mãe, tem 16 anos e está já na sua segunda gravidez, sendo que a primeira filha tem síndrome de down e vive de planos de assistência do governo, isso tudo em 1987 nos EUA. Preciosa é tímida ao extremo, completamente um burro de carga dentro de casa, sendo obrigada a comer compulsivamente comidas nada agradáveis pela mãe, é humilhada em todo canto que chega. Uma outra característica que chama atenção é o fato dela olhar sempre pro chão, nunca para frente de cabeça erguida evidenciando o grau de submissão perante a sociedade. Preciosa não enfrenta as circunstâncias, não tem forças para isso, muito pelo contrario, ela se entrega totalmente e torna-se um protótipo de solidão, amargura e estima baixa. Para escapar da vida horrível que leva Preciosa sonha com um mundo da fama cheio de acontecimentos e com um namorado de pele clara. E sim, existem outros problemas que Preciosa vai enfrentar que não me atento contar aqui...
Mas não se engane, Preciosa não é do tipo de filme de um personagem “Zé ninguém” que consegue dentro de duas horas se safar de todos os problemas existentes e dar uma lição ao publico de que tudo de ruim pode ser superado. Preciosa encanta justamente por trazer o contrario. O que ela ensina a nós publico é uma outra lição, não vou entregar o filme – você vai ter o prazer de ver essa maravilhosa produção – mas como já diz o cartaz, “A mais longa jornada começa com o primeiro passo.”.
Produzido pelos dois Midas norte americanos, Oprah Winfrey e Tyler Perry, que dispensam apresentações, o filme está concorrendo a seis Oscar, filme, direção, atriz, atriz coadjuvante, roteiro adaptado e edição, todas as indicações são merecidas. O de filme Preciosa não leva infelizmente, pois tem candidato mais forte/mais cara da academia este ano concorrendo junto com ela, além que tem Avatar que não deveria ganhar, mas pode dar o ar de sua graça com o premio principal. Apesar do belo trabalho, Lee Daniels pode não ganhar para o ótimo trabalho de Quentin Tarantino com Bastardos Inglórios.A estreante Gabourey Sidibe apesar de interpretação avassaladora pode não ganhar para o furacão papa premio Sandra Bullock com Um Sonho Impossível. Já com o premio de Atriz Coadjuvante a comediante Monique pode levar o Oscar, sua intepretacao é muito bem feita, tem só em Vera Farmiga de Amor Sem Escalas uma grande concorrente. No caso de roteiro adaptado o academia também pode dar a Geoffrey Fletcher o premio sem problemas, é de longe o melhor dos concorrentes.
Mas independente dos prêmios que ganhar ou não, e olha que já ganhou uma infinidade, Preciosa vale muito a pena pelas lições que projeta no espectador. Não é um filme de lições de moral, mas para cada pessoa vai inserir um sentido diferente. Mesmo que você seja completamente diferente da protagonista. O filme vale muito a pena, é bonito, não cai no melodrama fácil, não é em nenhuma parte um filme didático, é seco, difícil de engolir, mas mesmo assim é a experiência cinematográfica mais feliz que tive em anos. Perdoem o trocadilho, mas Preciosa é um filme precioso, realmente.
OK, Ok. Demorei de postar algo sobre o show de Beyonce. Demorei, mas a postagem está aqui. Foram cinco horas na fila, mais três horas e meia esperando o show principal começar, some também cinqüenta mil (!!!!!!) pessoas no parque de exposições separados em pista vip, pista normal e dois camarotes. Existem outros números é claro, ingressos vendidos exorbitantemente a preços que variavam entre R$ 60 (primeiro lote) e R$ 370 reais, água mineral (no local do show, copo aberto com 400 ml) a R$ 4,00, camisas feitas com tecidos fubengas pela “bagatela” de R$ 20,00, entre outros absurdos... Mas no final das contas tenho a certeza que quem foi (independente de onde estivesse no Parque de Exposições) não se arrependeu e adorou o show da diva e inesquecível cantora Beyonce.
Aqui em SSA foi o ultimo show da turnê I AM... Tour! no Brasil. e depois de tanta espera, do show ter passado por três capitais, sendo que no Rio de Janeiro foram duas apresentações, a vontade de ver a mulher do ano eleita pela Billboardnorte americana só aumentava. Mas o dia chegou e sem exageros nunca vi nada como o show de Beyonce. A produção, a banda, os dançarinos, os fãs, o som, aquele telão gigante reproduzindo imagens gravadas e ao vivo. Impressionante! Tudo no show da cantora é grandioso, e a diva que nos CDs faz musicas esplendidas, ao vivo torna-se quase como uma deusa. Canta muito, dança de forma fenomenal, é simpática (algo necessário atualmente para sobreviver no concorrido mercado da música atual. Nada de chiliques, ok?) e dá para ver que adora o que faz e não é mais uma diva fabricada.
O show começou atrasado, depois da pontual abertura de Ivete Sangalo, meia hora. O que no meio de uma platéia de mais de 5000 pessoas, números da pista vip, não era nada confortável esperar. Mas depois de tanto aperto o show começa de forma brilhante, abrem-se as cortinas e a silhueta da cantora aparece em meio a som de passos a lá Michael Jackson (que vai ser referencia mais três vezes durante o show), ela canta a introdução de Deja Vu, musica de seu segundo cd, e logo depois engata o seu primeiro sucesso solo Crazy In Love, no meio da música um pedaço de Work It Out – também do primeiro cd - com direito a saxofones enfurecidos. Chega a superar a introdução do Show Experience, não sei se por conta que dessa vez vi ao vivo ou por que é realmente melhor...
Depois da esplêndida introdução, Beyonce destila sucessos como Naughty Girl, Freakum Dress e Get Me Bodie não deixando a platéia tomar fôlego e entregando tudo de uma vez só, sem perdão. A banda nessa hora se destaca com grande competência e também as Suga Mamas, trio de backs com potente voz. Também tem destaque o telão disposto atrás da banda, lindo, exibindo imagens com alta resolução. Simplesmente impressionante.
Logo depois vem a parte mais calma do show, Beyonce canta as baladas Smash Into You (iumpressionante!!!), Ave Maria (a troca de roupa feita no palco é fantástica), Broken-Hearted Girl, além de If I Were A Boy que no show assim como Freakum Dress ganha uma batida rock bem pesada. Além disso, Alanis é citada durante a música com You Oughta Know.
Para introduzir seu terceiro ato, Beyonce canta Baby Boy próximo dos fãs e chega a um palco no meio da pista vip. É lá que sua carreira como Destiny Child vai ser relembrada. Muito do álbum Survivor – que dizem as más línguas é na verdade o primeiro álbum de Beyonce solo com apoio de suas backs Michelle e Kelie – é revisto e também do segundo cd do grupo. É nesta hora também que acontece uma das partes mais aguardadas pelos fãs de Salvador. Em Say My Name a cantora chega para um fã pergunta seu nome e canta o nome do dito cujo para todos ouvirem. Muita loucura, pois todos na hora queriam virar objetos do gogó poderoso da cantora, mas foi o Cauê quem ganhou o grande presente.
Depois Beyonce retorna ao palco principal e destila mais sucessos desta vez do terceiro cd em um quarto ato maravilhoso que culmina na musica mais esperada ao vivo naquele dia, Single Ladies o incrível sucesso com coreografia copiada em várias partes do mundo. Experimente colocar o nome da musica no you tube, tem material para você ver durante uma semana ou mais e algumas coisas são realmente boas. Todo este sucesso foi sentido pela produção e pela cantora que resolveram repercutir isto no show com uma introdução/vídeo com varias pessoas dançando e cantando Single Ladies pelo mundo a fora. É a parte mais criativa do show e divertida também. Com direito a Obama dançando o já famoso “oh oh oh”. Depois da introdução vêm os primeiros acordes da musica a explosão da canção com sua coreografia famosa. Sim, aquele agachamento é real!!!!...
Um pouco depois do “final” Beyonce canta “Halo” em homenagem a Michael Jackson, lindo exibido no telão em pose estilosa e antológica. Despede-se dos fãs cantando parabéns pra você – ela queria alguém que fizesse aniversario naquele dia, mas todo mundo dizia que estava fazendo aniversario. A cantora riu com a loucura dos fãs, mas acaba cantando a musica mesmo assim.
Foi um show muito bom. Tecnicamente potente, perfeito, a banda formada só por componentes femininas é maravilhosa, as Mamas são um encanto, os dançarinos e dançarinas TODOS são lindos e dançam muito. Ok, mesmo para padrões soteropolitanos o ingresso custou caro, os produtos vendidos dentro do espaço do show eram ruins, o atendimento horrível, a organização bem precária, mas a qualidade do show valeu cada centavo. Realmente um momento que faço questão de lembrar sempre. Sou admirador do trabalho desta maravilhosa cantora. Inesquecível!
Tem muita coisa ainda por vir este ano quando o assunto é cinema negro. Recentemente fiz uma postagem sobre algumas produções que chegarão proximos meses aqui no Brasil. Para somar a lista anterior temos mais dois filmes, um que vamos ver o resultado dele no oscar - Um Sonho Possivel - já que sua atriz principal, Sandra Bulock, está concorrendo ao Oscar de Melhor Atriz e o outro sobre a vida da Mike Tyson, já no poster a pressão da presença do grande homem e também uma frase de efeito prometendo trazer toda a verdade sobre o lutador. É aguardar para ver.
Das três vezes que assisti Cabaré da Raça nunca me senti satisfeito com tudo que vi no palco. O que sentia era que faltava alguma coisa... O espetáculo do Bando de Teatro Olodum que já tem mais de dez anos, encenado em várias partes do mundo, é uma revista musical que foi feita inteiramente para provocar. Independente como isto chegue ao público o primeiro objetivo do espetáculo é a provocação. Isso fica nítido nas interrogações propostas a platéia pelos atores. E as perguntas/provocações não são poucas, já que Cabaré da Raça fala sobre racismo no Brasil, abordando muitos dos subtextos que este tema pode abrir como, presença do negro na mídia, identidade racial, religião, abolição da escravatura – 13 de maio, cotas nas universidades, mito do negro como objeto sexual e situações de discriminação no dia-a-dia, entre outros. Tudo com muita música, muito bom humor e muita (muita!) provocação.
E das três vezes que vi este Cabaré presenciei espetáculos completamente diferentes. Desde o figurino que mudava a cada temporada (vi um com todos os atores com roupas que caracterizavam seus personagens, outra com todos vestidos de branco – o melhor até hoje – e um vermelho não muito bom), até atualizações no roteiro e na forma como abordavam a platéia. Também as músicas mudavam vez por outra, uma coisa que via de uma forma em um ano, no outro estava bem diferente. Cabaré tem este ponto a favor, como trata de um assunto que se reesignifica como o racismo, existem possibilidades do espetáculo também se transformar. O espetáculo mistura canto, dança, interação com a platéia e tudo mais que o caldeirão do Bando de Teatro Olodum quiser misturar.
Mas o que me incomodou tanto das três vezes que vi Cabaré da Raça? O texto! O texto para mim é um problema. Não que seja ruim, mas nunca me contemplou. O texto do espetáculo – uma parceria entre Marcio Meireles e o próprio Bando – oferece lacunas demais, existem buracos enormes. Neste ponto o texto deveria ter mais foco, não oferecer tantas perguntas e sim respostas. Cabaré provoca, mas ao mesmo tempo não informa em muitas das suas passagens. Deixa coisas como o mito do negro como objeto sexual ao desleixo, sem desenvolver um assunto que gera prostituição em zonas, por exemplo, como o Pelourinho, entre outros lugares.
O texto muda, ele não se mantém estático no tempo. O Bando sabe muito bem que o racismo e a luta contra ele se transforma e fala por exemplo de cotas nas universidades. Mas a abordagem é rasa, as perguntas são muitas e no final a provocação sem conteúdo fica no lugar da informação que aguça. Outro ponto são os brancos da platéia – que vão em massa ver o espetáculo (ainda bem!) – eles saem do teatro satisfeitos. O texto fala sobre racismo, mas não atinge seu inventor e principal beneficiado, o branco. Não digo que os atores deveriam ofender e fazer um complô contra o publico branco que está na platéia, mas este mesmo publico se diverte, ri e parece nunca se incomodar com a forma que o assunto é tratado. Existe uma parte que sempre me marcou, uma das ultimas passagens de Cabaré da Raça em que os atores recitam frases que degradam o negro que são clássicas como “Negro quando não caga na entrada caga na saída”. Das três vezes reparei que a platéia se divide em aqueles que riem – na sua grande maioria brancos – e aqueles que se calam e se revoltam , na maioria negros.
Os personagens também beiram ao caricato quando não se entregam de vez a ele. Principalmente o personagem homossexual, que mais parece um hetero imitando um gay bastante efeminado, o clássico personagem gay pintoso que o teatro homofóbico consegue enxergar e adorar. É curiosamente um dos personagens que mais tem falas que informam sobre racismo, mas a seriedade daquilo que fala é cortado pelo tom com que este personagem chega a platéia. É uma alegoria, um palhaço de luxo. Surge a pergunta: Quando o teatro baiano vai aprender a fazer personagens homossexuais que não sejam meros imbecis para heterossexuais rirem?...
No final fica a sensação de vazio. E também de esperança. De que informem sobre racismo e não só provoquem. Cabaré da Raça é divertido, é alegre, tem musicas lindas, tem questionamentos muito válidos, mas a sensação de vazio mesmo depois da terceira vez continua no peito. Fica faltando alguma coisa, fica parecendo àquela conversa de bar que não se completa, não atinge um sentido. E o racismo tem sentido e objetivo muito vivos.