quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Destaque Para a Pele Negra.

Como disse anteriormente, mexi um pouco aqui no Blog Percorro agora novos caminhos ampliando o sentido de mídia negra... de arte negra... E para começar nesta nova estrada conversamos com o fotógrafo Saulo Salles (ao lado), sobre o seu ofício, suas visões sobre o mercado e arte negra em Salvador e também sobre “Peles Pretas” seu último trabalho, que já foi exposto também em São Paulo e tem dado bons frutos para este fotografo mais que talentoso e inteiramente compromissado com o seu trabalho.

Película Negra – Começando pelo começo... Quando iniciou o interesse pela fotografia e por que logo ela e não uma outra arte visual?...


Saulo Salles – O meu pai já era fotógrafo e de modo geral e involuntário tenho a tendência natural de copiar as suas ações Acho a fotografia um tipo de arte menos autentica, porque em geral, ela por si só, não faz arte e sim retrata realidade. E criar arte da realidade é o q me fascinou.


Película Negra – Existem fotógrafos que em seus trabalhos pretendem evidenciar a realidade através do mundo visto pela fotografia। Mostram o que existe de belo e triste em camadas diferentes da sociedade através das fotos. No “mundo” construído pelas lentes de Saulo Salles o que o público pode esperar?...


SS – Beleza por onde sempre passaram e nunca notaram, pelo menos é esta a minha pretensão.


Película Negra – Reparei dois pontos curiosos em alguns de seus trabalhos। A primeira é o uso de modelos negros e a segunda o uso do preto e branco. Só vi até agora uma fotografia colorida. O porquê dessas duas escolhas? Elas se completam de alguma forma?


S.S – Eu comecei a estudar fotografia em Florença na Toscana, a beleza e as cores daquela região italiana são intraduzíveis, e acho que nada teria o mesmo sentido sem elas. Já em Peles Pretas, o preto ( cor e raça ) é a “bola da vez”. E o meu exagero de contrastes é justificado pela proposta do trabalho q é a valorização da beleza negra, nada mais aqui deve ter destaque se não a pele dos modelos. Não teria esse mesmo efeito em cores. Quero o preto e não o marrom ou qualquer outra cor dessa mesma variável


Película Negra – Hoje na mídia em geral há uma valorização maior e também a problematização das questões que norteiam a negritude। A identidade negra, sua cultura, religião vem sendo reformuladas a cada momento. Você se considera de alguma forma, com seu trabalho, também repensando a visão do povo e da cultura negra em geral?


SS – Sim. E um sim bem grande rsrs. PELES PRETAS propõe uma releitura de padrões de beleza e de conceitos em relação aos afro-descendentes, já que, até o início do século, os objetos das fotos desta exposição não eram ou não podiam ser vistos como belos.O projeto faz referencia ao aspecto ETNICO para designar a presença das varias etnias negras que formam o povo brasileiro, e evidencia a necessidade de ações proativas para a comunidade negra, em particular, atividades de ampliação de auto-estima, valorização e preservação das tradições culturais negras.


Película Negra – Tem alguma técnica especifica que desenvolve para o seu trabalho?


SS – Sim, mas isso eu não conto.


Película Negra – Poderia citar algumas das suas referências como fotógrafo e o que elas te ensinaram para dar um “up” na sua técnica no modo como encara a fotografia?


SS – Admiro muitos fotógrafos, os portugueses principalmente. Tenho amigos-ídolos em Portugal, adoro isso. Nenhum deles, porem, me ajudou na definição de minha técnica, cheguei a ela a muito pouco tempo e ao improviso. As minhas primeiras fotos de “peles” não têm a mesma cara das ultimas, isso graças ao “acidente”.


Película Negra – Dá para viver de fotografia em Salvador? Existe mercado para este tipo de arte visual na cidade? Por quê?


SS – O mercado de arte é pequeno em Salvador como um todo, fotografia ainda mais. Viver de fotografia de arte é pra poucos. Mas quem faz essa opção deve está atento a ações culturais antes de tentar vender. Vender fotos é uma decisão q só pode ser tomada na hora certa, se for antes do ponto, vc tá fadado ao fracasso e se for depois quer dizer q o fracasso já chegou a vc. O fotógrafo precisa de um bom produtor ou ser um bom produtor.


Película Negra – Para você quais os prós e os contras do “bum” que a fotografia teve com as câmeras digitais?


SS – Eu acho q ficou mais prática, e mais fácil a ação de fotografar. Sou da teoria da constante evolução. Não vejo contras nisso.


Película Negra – O que falta para a fotografia tornar-se uma arte mais consumida, mais valorizada pelo público। Digo valorização fora do senso comum. Que seja apreciada como arte. Ou já existe esta valorização?


S.S – O mesmo q falta às outras artes, educação da população. Não acho q a musica de qualidade seja apreciada pela maioria, ou o cinema realmente bom, por exemplo Chamamos filmes horríveis de

filmes de terror, e há quem acredita q vê Cinema, vendo aquilo. Assim é também na fotografia. Realmente não acho q as pessoas compram revistas pornográficas para lerem seus textos. As pessoas compram fotos porque somos todos muito visuais. Se não fosse assim, as revistas teriam textos em suas capas. O q falta é cultura de arte visual e cultura geral.


Película Negra – E como anda a repercussão do seu trabalho a partir do público? Você também já fez exposições fora da Bahia। Fale um pouco dessa experiência.


S.S – Isso é algo que seu próprio público vai poder responder ao ver minhas fotos. Já minha mostra em São Paulo foi discreta, em um local bacana, o Espaço Cultural Juca Chaves na João Cachoeira, Itaim Bibi, como todas as anteriores, nunca fiz grandes alardes ou gastos excessivos com publicidade, acho q não é o momento, tenho apenas 4 anos de fotografia e menos de 2 em Peles Pretas।


Película Negra – Como hoje alguém que quer se enveredar pelo mundo da fotografia pode dar os primeiros passos aqui em Salvador?


S.S – Primeiro passo em minha opinião é fotografar varias coisas diferentes e só depois perceber o q vc fotografa melhor, passar para o processo de descarte, sabe?. Vc pode ter variações de gênero fotográfico, mas ter uma base de referencia profissional é fundamental para um artista. Acho importante fazer um curso, e estudar a arte, por que não se deve fundamentar algo em pura intuição. Definir uma técnica própria, ou copiar uma técnica e por características suas é fundamental para não ser mais um no mercado. E por fim, o mais importante, TER UM BOM PRODUTOR, SEM PRODUTORES ARTISTAS SÃO SONHADORES, E POR MAIS BELOS Q SEJAM OS SONHOS,ELES SÃO APENAS SONHOS।


quinta-feira, 3 de setembro de 2009

A VIDA SECRETA DAS ABELHAS.

Vamos logo direto ao ponto... Chorei duas vezes vendo este A Vida Secreta das Abelhas... Por isso se quiser continuar a ler esta critica considere que vai se deparar com alguém que se deixou levar e mergulhou junto com a historia das personagens. Uma outra coisa gosto muito de filmes com elenco majoritariamente feminino। Quatro Amigas e Um Jeans Viajante, Divinos Segredos, A Cor Púrpura, entre outros são filmes fortes, que lhe ensinam muito, mas ao mesmo tempo transitem uma doçura incrível.

Produzido pelo casal Smith (Will e sua esposa Jada) o filme conta a saga de uma garota branca, Lily Owes, (surpreendentemente mal encarnada pela excelente Dakota Fanning) na Carolina do Sul, EUA, vivendo sua adolescência no começo da década de 60, época da luta pelos direitos civis, em meio ao trauma de ter matado sua mãe quando era pequena, um trágico acidente causado por ela. Lily, então decide fugir das agruras do pai com sua empregada Rosaleen (Jennifer Hudson). Ela foge almejando conhecer o passado de sua mãe e tirar a culpa que ronda seus pensamentos e Rosaleen quer um mundo de plenos direitos. Em uma cidadezinha as duas conhecem as irmãs Boatwright, vividas por Queen Latifah (Chicago), Alicia Keys (A Cartada Final) e Sophie Okonedo (Hotel Ruanda)।

A partir daí o filme da diretora Gina Prince-Bythewood de desenvolve com roteiro simples, sem grandes desenvolvimentos, sem pretensão de ser “O” clássico negro dos anos 2000 – como quiseram ser Amistad e A Bem Amada nos anos 90 – com atuações contidas e ao mesmo tempo brilhantes. A primeira coisa que chama atenção é o quarteto de atrizes negras. Jennifer está contida, bem diferente de sua interpretação em DreamGirls, Queen durana e doce como sempre – o papel caiu como uma luva para ela – Alicia interpreta uma mulher linda e fria e convence na atuação e Sophie Okonedo que dá um show a parte, os momentos em que a atriz está não conseguia olhar para as outras। Quanto a surpresa é presenciar Dakota, atriz maravilhosa (que já roubou a cena de gente como Denzel Washington e Tom Cruise) dar uma interpretação tão pequena a uma personagem tão rica e bem escrita... Uma pena!

Do mais esperem por reviravoltas surpreendentes, frases chocantes (principalmente saída da boca da personagem de Alicia), racismo tratado de forma coerente pelo cinema e uma trilha sonora de tirar o chapéu!!!!!!!!! Sou suspeito para falar, me deixei envolver por um filme simples (estes sempre me pegam!!!), mas A Vida Secreta das Abelhas é aquele tipo e filme para rever novamente sem compromissos, leve e que vai deixar você com um sorriso no rosto apesar das tristezas do mundo!... Pelo menos foi o que aconteceu comigo quando sai do cinema...

domingo, 30 de agosto de 2009

INVEJA DO PODER NENHUM... OU DO PODER QUALQUER

Essa semana ouvi de uma professora, atuante no movimento negro há anos, segundo ela mesma, suas opiniões sobre o poder negro no território brasileiro. Ela dizia que os negros aqui no Brasil não tem poder efetivo, que são representações mixurucas e conversa vai conversa vem inventou de comparar o poder negro com a visibilidade que homossexuais tem na mídia brasileira.

Ela dizia mais ou menos assim, “a parada gay leva 3 milhões de pessoas para a s ruas... vê se na marcha zumbi dos palmares leva a mesma quantidade? Não leva! Os gays nas novelas tem representação. Os negros não tem”. Na verdade, não é a primeira vez que ouço isso aqui na Bahia. Já ouvi alguns militantes de diversas causas opinando primariamente sobre o “poder” do movimento homossexual e da não visibilidade sobre seus respectivos movimentos...

Para eles, a Parada Gay de São Paulo leva três milhões de pessoas (não sei ao certo se eles pensam que essas três milhões de pessoas são homossexuais mesmo) por conta a organização que a comunidade LGBTT tem e do seu alto poder de persuasão perante ao país. A mídia passa para eles (de forma bastante equivocada, diga-se de passagem) que homossexuais tem dinheiro, que podem fazer e acontecer, que estão nas novelas, são autores da Globo etc etc... Quando comparam com seu mundo, vêem que não tem possibilidade e se inserir nos lugares da mesma forma. Pelo menos da maneira como eles pensam.

Senti um rancor vindo da comparação feita pela professora. Uma inveja absoluta e profunda de um poder que todos (pelo menos os que se informam direito) sabem que não é efetivo. Afinal de contas do que adianta Aguinaldo Silva (gay) ser autor de novela das oito de sucesso e não poder concretizar um personagem homossexual principal em sua trama, ou pelo menos um personagem homossexual que tenha vida ativa da mesma forma que seus personagens heteros tem? – leia “vida ativa” como beijar, cenas de sexo, convivência normal.

Que poder é esse que tanto é invejado pela professora?... Um poder nenhum? Ou um quase-poder? Será que a comunidade LGBTT presa em guetos e não podendo exercer sua sexualidade livremente tem um poder efetivo. Será que estar em postos altos significa estar inserido de forma verdadeira? Quantas perguntas... Para todas há uma resposta, deixar o achismo invejoso de lado e passar a se informar direito, com referencias que valem à pena. E acima de tudo, aprender que inserção definitivamente não significa poder real!...

domingo, 23 de agosto de 2009

UM NOVO TEMPO!!!!!!!!!!!

Esta semana o Blog vai passar por uma nova reformulação. O motivo? Comemoração dos dois anos de Película Negra e muita satisfação de escrever sobre a sétima arte. No começo tudo tinha um tom meio de brincadeira, mas se tornou um vicio. Posso passar algum tempo sem postar, mas mantenho vivo meu bloguinho que tanto já me deu elogios, amigos, oportunidades de conhecer e compartilhar conhecimento com novas pessoas.
Resolvi iniciar o blog depois que vi o filme DreamGirls e fiquei a apaixonado por ele. Até hoje é o meu musical preferido e também o único filme histórico que não coloco defeito nenhum, pois é perfeito. Da pra dar uma aula sobre movimento dos direitos civis com ele, além que tem Beyonce e os alunos se divertem. Logo depois fiz uma postagem sobre o filme PROVA DE FOGO com o eterno Morpheus, Laurence Fishburne. Falei um pouco da visão estereotipada que os filmes norte americanos tem da África (aquele país como diz o infame Bruno!!!), e em uma noite de insônia resolvi assistir ao documentário mais impactante que vi na minha vida, Olhos Azuis, vi e não consegui mais tirar o filme da minha cabeça. Ai inventei de falar e homossexualidade negra, postagem que deu seguidores bons a este blog. Massa os comentários e as respostas de todos em orkut e também na universidade (ainda esta na UNEB fazendo meu belo curso de história).
Inventei também de expor minha opinião sobre Filhas do Vento horrível filme dramático feito aqui no Brasil, primeiro com atores negros. A Cor Púrpura, clássico do cinema negro também ganhou seu lugar aqui no Blog, elogios e mais elogios claro, não posso falar nada de ruim daquele filme. Os filmes pornôs (que pode até virar assunto novamente aqui no Blog) deram também o que falar aqui no Película Negra, ai veio uma das postagens que deu mais trabalho pra fazer, Novas Identidades Negras e a Nova Mídia... Levei dois dias pra construir o texto.
E em 23 de agosto, faltando 3 dias para completar um ano de blog, resolvi repetir o assunto, homossexualidade negra, afinal de contas é um assunto vasto e o que me deu mais cometarios... Foi novamente uma polemica louca! Ai logo depois, dias depois um comentário quase me fez desistir do Blog:

Anônimo disse...VOCÊS MACACOS NÃO APRENDEM NUNCA! JAMAIS IRÃO SER IGUAIS AOS BRANCOS, POIS VCS SÓ SABEM DESTRUIR E SE PROCRIAR! SENZALA PARA MACACO JÁ COTAS PARA MACACOS NAS PRISÕES!25 de Setembro de 2008 01:०३

Pensei em desistir por conta do racismo virtual que não tem coragem e mostrar a cara, mas segui em gente e resolvi usar uma ferramenta para me proteger... Nada de comentários desde então! Bloqueei tudo! O fenômeno O Pái ó também marcou presença! E depois enchi o saco e resolvi responder algo que inquietava alguns a um tempinho... Se CINEMA NEGRO realmente existia. Assuntos como se somos responsáveis pela comunidade negra pelo fato de sermos negros e o amor interracial, morte de Michael Jackson, preconceito contra a diversidade, cotas (não posso deixar de falar delas já que sou a favor), ancestralidade, também foram abordados aqui. Para terminar nossa postagem anterior acabou tendo como assunto a série Noah Arc.

Escrevi sobre tudo? Não mesmo! Tem muita coisa ainda para falar, de várias formas disso tenho certeza. E com o tempo a minha percepção sobre a negritude, ou melhor as negritudes, vai se aperfeiçoando, vou conhecendo novos cenários, figurinos, modos de interpretar... Em dois anos aprendi muito! Vou continuar escrevendo, ou seja aprendendo...

MEU DEUS EXISTEM GAYS NEGROS 3!!!!!!!!!

Me dei conta um dia desses, vendo postagens do blog antigas, que já tinha postado, mais de uma vez, comentários sobre Noah Arc, mas nunca tinha dedicado um espaço inteiro somente para uma das séries que apesar de ter durado tão poucas temporadas tem o seu devido lugar no patamar de series revolucionárias de todos os tempos. O por que? Pelo obvio, a comunidade negra nos EUA no cinema já não é bem encarada, apesar de sustentar boa parcela dos ingressos vendidos em Hollywood, quanto mais a comunidade negra homossexual... É quase um chavão falar sobre isso, mas Noa apesar de seus vários defeitos é ousada e considerada revolucionária por conta disso e somente isso.
Coparam muito esta serie de gays negros a uma outra de gays brancos (sim, a comunidade homossexual é mais segregada do que pensam...) a famosa e hipercultuada Queer As Folk. Não concordo, acho NoaH Arc bem mais parecida com Sex And The City, famosa série estadunidense que gerou seis temporadas e ainda um filme, com continuação em curso para 2010. Noa fala sobre sexo, discute sexo com muito bom humor, mas mostra de forma sensual sobre aquilo que tanto fala: sexualidade homossexual negra. É mas o quarteto de mulheres despojadas de Nova York que o quinteto de gays que são loucos em posar na Babylon.
Mas não deixa de ter suas particularidades. Noah Arc conta historia de um grupo de cinco homens negros gays, Noa (o grande herói pois toda série tem um), Alex (o efeminado do grupo), Rick (o estereotipo do homem gay promiscuo (Brian de Queer As Folk dá de dez a zero nele...), Chance, responsável pai de família e professor universitário, e o afair de Noa durante as duas temporadas Wade, nas suas desventuras, seus amores, as responsabilidades e também de homofobia. Tudo “fechado” na comunidade negra norte americana. Ao longo dos capítulos a série vai desenvolvendo em meio a história principal que circula entre os relacionamentos do quinteto, particularidades dos homens negros gays. De forma bem leve e com muito bom humor.
Uma dessas particularidades é a forma como o homem negro gay se porta frente a masculinidade dentro da comunidade negra, já que o homem negro é ligado diretamente a um papel sexual extremamente viril, um machão estereotipo, com gingado próprio e apetite sexual incalculável. A série problematiza de forma bem leve como esta masculinidade afeta os homens negros e como ela afeta também homens negros gays. Como seria para um gay negro, por exemplo, desmunhecar? Que implicações teria nisso. Tudo de forma despretensiosa, sem precisar citar frases de protestos clichês. Ou seja, faz você pensar, mas não é chato.
Em apenas duas temporadas, a série permeia por assuntos como casamento entre pessoas do mesmo sexo, pais homossexuais e a vida com seus filhos e filhas, promiscuidade, AIDS (um diferencial da série que faz campanha junto aos homossexuais negros para que façam exame, sem medo e com bastante conscientização), ciúmes, homofobia em Hollywood, no mundo do rap, no mercado de trabalho entre outros. Noa também tem seus defeitos, por exemplo de ter uma duração curta demais – geralmente 22 a 25 minutos cada capitulo – e de ter um roteiro não muito elaborado, - e isso acontece com quase todos os capítulos.
Depois de fazer barulho frente ao canal fechado Logo, a série foi cancelada, mas rendeu um filme Noah Arc – Jumping The Broom que passou nos cinemas e obteve relativo sucesso. Para quem se sentiu curioso tem três maneiras de conseguir ver a série. Para quem sabe inglês e tem dinheiro pra gastar (rsrs) através dos DVDs comprados em site especializados em produtos importados, baixando no Orkut por meio das comunidades de Noa Arc ou comunidades de filmes GLS e também pelo blog http://www.gayload.blogspot.com/ destinado a séries, filmes e livros para a comunidade LGBTT. As formas de baixar são fáceis e todos os capítulos estão devidamente legendados. A segunda opção do blog é a melhor de todas. A única coisa depois de assistir as duas temporadas é sentir um aperto no peito, pois ela poderia ter durando mais e rendido mais assuntos e entendimento para toda a comunidade नगर.

domingo, 16 de agosto de 2009

Bruno

Vamos direto ao assunto: o que faz um filme ser interessante para você?... Estou falando em um filme que sirva para você de algum jeito, não mero entretenimento apenas, mas que toque você de algum jeito. Precisa dele ter alguma relação com algum momento da sua vida? Precisa te abrir os olhos para algo extremamente diferente? Ou quem sabe tocar em uma ferida ainda não cicatrizada pelo tempo?...
Independente de como o cinema toca qualquer ser humano, do mais chorão ao mais (aparentemente) insensível. A sétima arte é extremamente poderosa. Certo que alguns filmes não são feitos para exercer este tipo de fundamento em nós, meros espectadores, mas tem gente como o ator Sasha Baron Cohen que faz cinema sempre propositalmente para provocar. E provocação na categoria politicamente incorretissima! Seu novo filme, Bruno, segue o mesmo esquema de Borat, mais uma vez um documentário falso, mais uma vez com cenas chocantes, mais uma vez Baron vem pra desestabilizar o espectadores, ou seja, é mais do mesmo só que de outra forma...dessa vez Bruno vai atirar para todos os lados com o mundo das celebridades...
E tem um ponto no filme que chama atenção por vários fatores. A cena que mais me chamou atenção foi a de um programa de auditório estilo Márcia (!) com uma platéia praticamente formada de pessoas negras onde o Bruno do titulo vem para tentar mais uma vez ficar famoso de qualquer forma (!!), com o detalhe que ele vem mostrar seu filho adotado negro, sendo que o menino vem da África (!!!), segundo o próprio Bruno um país (!!!!), pois é moda entre as celebridades atuais adotar meninos da África órfãs (!!!!!) para serem mais visados pela mídia.
A cena é de uma escrotice imensa! Baron mostra de forma gritante como a mídia explora crianças e celebridades brancas podres de rica vão a África como se estivessem olhando para um cachorro faminto no quintal de casa. A cena choca, pelo tom em que o ator faz as coisas e convence todas as pessoas ali presentes que aquiele menino é seu filho e é plenamente usado para divulgação da sua própria imagem.
Mas como Sasha não é besta nem nada, ele incita o publico do programa a colocar seu ódio para fora de outras formas... É curioso como o publico reage ao personagem quando este chega ao palco, que todos acreditam que não se trata de um personagem e sim mais uma pessoa que se apresenta no programa, através de risinhos, com comentários e olhares sarcásticos. Bruno é gay e muito afetado! É mostrado ai dois pontos: que efeminados são quase tidos como palhaços que surgem como alicio cômico e que o ser humano é muito mais complexo do que se pensa...
Bruno, o filme, não é o tipo de produção feita para um Domingo a tarde e puro relaxamento. Não é. Ele vai explorar o quanto a mídia atual e as pessoas são ruins e hipócritas por dentro. E que atualmente se faz tudo pela fama! Mas principalmente que o ser humano não está imune a preconceitos, ninguém esta, por que a maioria dos liberais frustrados não se dão o trabalho de conhecer, não se dão o trabalho de chegar junto, de conviver, só espalham em uma auto proclamação que são desprovidos de preconceitos... Bruno prova justamente o contrario...
Você pode ser mulher, sofrer com o machismo desse mundo masculino cão, ser até feminista quem sabe, mas pode ser muito bem racista! Por que não? Pode ser um homem branco que consegue conviver bem com negros, mas não com gays... Pode ser tanta coisa, já vi liberal de discurso inflado e tudo se contorcendo quando via junto a ele um portador de síndrome de down. O ser humano é muito mais complexo do que nós imaginamos. Além de discursos de conferencias, seminários, congressos, universidades, mídia, muito além... Estamos preparados sim para conviver e não compartilhar ou problematizar nosso “poréns”... A conviver pelo politicamente correto e não aquilo que é verdadeiro... A sociedade nos ensina a sermos homofóbicos, racistas, machistas, insanos enfim... Depois aprendemos também a sermos hipócritas. Ninguém é mais neste país racista, homofóbico, racista etc etc... Pra que falar disso não?...
Por isso Bruno incomoda a platéia. Por isso também em incomodou... Gostei de vê-lo criticando, mas certas vezes também fui criticado... Bruno achou uma parte feia em cada espectador daquele cinema... E você, onde esconde a sua?...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

O Futuro 2

Você conhece Tyler Perry?... Com certeza muitos brasileiros não conhecem este cineasta/produtor/dramaturgo, mas nos EUA pelo menos a comunidade negra norte americana o adora. Perry é podre de rico e sabe fazer cinema para o “povão” como ninguém. Seus filmes são sempre sucesso por lá levando milhares de pessoas ao cinema. É um cineasta correto, não chega a perfeição de Spike, mas faz cinema para toda a família corretamente entregando doses de humor e drama exatas aos filmes que faz. A critica? O odeia! Como faz com todos os cineastas que não oferecem um rompante de inteligência a cada filme que faz. Este ano, ele está de volta com sua mais famosa personagem Madea, que lhe rendeu já uma serie cinematográfica – algo que todo cineasta que se preze e queira sobreviver em Hollywood tem que ter – e já foi vista em O Diário de Uma Louca. O novo filme que estréia em Setembro nos EUA e não deve chegar aqui nos cinemas brasileiros nunca chama-se I Can Do Bad All By Myself. A baixo os três posters revelados do novo filme de Tyler Perry... nos próximos meses é so ficar de olho nos lançamentos das locadoras para ter a única chance de ver seus filmes de alguma forma...

domingo, 2 de agosto de 2009

O Futuro!

Parece que 2009 é o ano da urucubaca cinematográfica. Os cinemas estão recheados de grandes produções sem conteúdo nenhum (Transformers 2), super heróis em adaptações frustrantes (Wolverine o filme) e continuações ou prelúdios (nova moda de Hollywood) sem pé nem cabeça (Velozes e Furiosos 4, Halowen o inicio). Claro tem coisa que se salva, não é um ano de todo ruim... Mas presencio nas salas de cinema um grande vácuo. Se não quiser, por exemplo, assistir o mais novo “buum hollywoodiano” do momento fico quase sem opção. Afinal de contas, por exemplo, ninguém é louco, só para citar um fenômeno recente, de estrear na mesma semana de Harry Potter, você com certeza vai sofrer das duas uma; ou quase ninguém vai te ver, por conta de que toda a imprensa fala sobre o outro filme ou a exibição do seu filme acontece de forma bem restrita, já que quase todas as salas estão tomadas de copias dubladas e legendadas do bruxinho mais poderoso do mundo.
Se no “cinema branco” o ano de 2009 não promete grandes coisas imagine no cinema negro... O Cadilac Records mesmo tendo Beyonce e outros atores famosos no elenco nem chegou aos cinemas aqui... Quase da mesma forma foi o Milagre em Santa Ana que passou de raspão pelas salas soteropolitanas... A Vida Secreta das Abelhas tem estréia sempre mudada pela distribuidora, era para estrear em abril e até agora...
O jeito então é pensar no futuro e ele parece de grades possibilidades...
Parece que este mês estrearão dois bons filmes: o primeiro O CONTADOR DE HISTORIAS que narra a trajetória de Roberto Carlos Ramos. Já tinha visto sua historia contada pelo próprio em entrevista anos atrás no Programa do Jô, acredite não tem como não se encantar com nada mais nada menos que um dos maiores contadores de historia que já vi na minha vida. A produção é dirigida por Luiz Villaça, vi o trailer, parece ser bem interessante. O outro, já citado ai em cima, A Vida Secreta das Abelhas com elenco feminino fenomenal e produzido pelo casal Smith, parece finalmente estrear no Brasil em agosto. Só escorregando de vez para colocar um elenco desse em um resultado ruim. Sou fã de quase todo mundo, são lindas e ao mesmo tempo ótimas atrizes, Jennifer Hudson, Queen Latifah, ate a cantora Alicia Keyes está no elenco e a historia sobre conflitos femininos sempre dá um bom caldo.
De mais espero anciosamente o novo filme produzido por Oprah (A Bem Amada, Aos Olhos de Deus) e Tyler Perry (O Diário de Uma Louca), dois produtores que são verdadeiras febres nos EUA, corrijo, são dois Midas, tudo que fazem e tocam vira ouro. O elenco é cheio de grandes surpresas Miriah Carey (no trailer parece estar perfeita!) e Lenny Kravitz, além de Gabourey Sidibe que faz o papel da protagonista, menina negra e gorda que é ridicularizada pela mãe e pela sociedade, que também parece estar incrível. A produção já esta cotada a ser finalista do Globo de Ouro e do Oscar e certamente vão estar entre as categorias principais. Tem tudo pra trilhar este caminho e espero que ganhe mais prêmios além da mostra Um Certo Olhar no Sundance Festival, pois é garantia que estréiem por aqui no Brasil e não vá diretamente para vídeo ou passe rapidamente nos cinemas como aconteceu com alguns exemplares do cinema.
Em um ano de vacas magras estes exemplares podem servir para salvar o cinema do ostracismo que tem acontecido fim de semana após fim de semana. Que venha o futuro!

sábado, 18 de julho de 2009

Família Alcântara

Alguns filmes entram na nossa vida de maneiras bastante curiosas. Esse Família Alcântara (Brasil, 2005) foi descoberto por mim vagando por uma daquelas livrarias enormes que vendem de tudo. Entre boxes de séries norte americanas e dvds de astros da música nacional eis que descubro esta pequena pérola. Capa nada chamativa, uma árvore de Jatobá refletida em um lago, contra capa com apenas pequenas figuras... Nada de muito atrativo... Mas algo me puxava para aquele filme (isso de vez em quando acontece comigo!) e resolvi olhar com mais atenção para aquele filme. Então, chamou-me atenção uma frase na capa do DVD: “O que o negro trouxe quando foi arrancado da África? Nada. A bagagem dele era mente!”
Acabei comprando o filme e o vi recentemente. Não me arrependo. O documentário dos cineastas Daniel e Lílian Sola Santiago é curto (cerca de 56 minutos), tem uma montagem leve e te cativa a cada minuto que passa. Apesar do mérito em certa parte de contar a história da família do titulo ser também dos cineastas o que interessa mesmo são os membros da Família Alcântara.
É impossível não ser cativado pela força dessa família, pela alegria de cada um de seus membros, a cada frase de orgulho de pertencer a um clã que se originou em Angola há mais de 240 anos... O filme tenta, a partir de depoimentos dos familiares reconstruírem a história dos Alcântara, vendo toda sua trajetória desde quando seus ancestrais vieram da sociedade wasili, na África, relata o inicio da família no Brasil em Minas Gerais, escravizada nas lavouras de cana de açúcar e o processo de retomada de sua identidade negra, através da evidencia de sua cultura para o mundo.
E de tão simples o filme é lindo. Mas ao mesmo tempo forte. É bonito ver as gerações mais novas em harmonia com as mais velhas, os mais novos preocupados com o que pode acontecer a família e sua cultura quando os mais velhos morrerem. A força para manter o coral aceso e cantando e também como a família enfrentou e ainda enfrenta o racismo ao longo de 4 gerações.
Família Alcântara é um daqueles filmes feitos para assistir com toda a família. Se você for negro então, coloque todo mundo pra ver imediatamente. Apesar da família não ser a minha, estar em um outro estado e pertencer a um outro contexto, assisti tudo aquilo como se visse a minha família na tela. Como se minha avó estivesse comigo ao colo, contando histórias dos antepassados bem baixinho no meu ouvido e eu devagar adormecendo, a sonhar durante a noite com a mãe África...
Um Filme Obrigatório.

Família Alcântara. Direção: Daniel e Lílian Sola Santiago. Brasil. Documentário. 56 minutos. 2005.

terça-feira, 7 de julho de 2009

UMA RESPOSTA...

Sou um homem racista... O argumento é mais ou menos o seguinte... Sou um homem racista, pois escrevo um Blog sobre cinema negro. Já que cinema negro não existe, pois cinema é cinema em qualquer lugar do mundo e eu estou com esta “categoria” inventando algo para separar a sétima arte. Um outro caminho para afirmar minha personalidade racista são minhas referencias... Leio Fanon, Biko, Carneiro, Sudbury, Nascimento, pessoas que escrevem sobre racismo e se leio eles também sou racista. Uma outra coisa, não ando me deslumbrando por qualquer coisa que a Europa faça. Acho o continente mais um no meio dos outros... E isso realmente é um absurdo, pois é de lá que vêem a o berço da cultura mundial. Eu deveria dar valor aos europeus, mas não dou. Sou racista por isso também. Tem mais coisa... Sou racista por não querer ouvir coisas do tipo, nigrinho, denegrir, mulato, pardo, o lado negro de tal coisa e outras terminações, o argumento é que estas categorias foram feitas ou não a partir de minha raça e estou criando assim um preconceito comigo mesmo... Ou seja, se está aqui lendo tudo isso e compartilha das minhas idéias, você leitor também é um racista!
O desejo de escrever sobre cinema não é de hoje, sempre gostei dessa coisa de critica, para que serve a critica, a boa e verdadeira critica de cinema. Quer queria ou não, apesar de o publico decidir o que vai ver no final das contas é pela critica que uma grande massa decide ver ou não tal filme. Imagine se você chegasse ao cinema, com 14 filmes diferentes passando e não soubesse nada sobre a produção e escolhesse tudo na sorte, pelo cartaz ou pelos atores que estavam no cartaz? A critica da o mínimo de garantia para o publico que está interessado nela. Escrevo sobre o cinema negro, pois acredito que o cinema tem o seu lado divertido e também político, não necessariamente militante, mas político (ver postagem sobre cinema negro mais abaixo). Um cinema pan africanista é político, cinema não precisa citar referencias, estatísticas, ele não deve ser feito para imitar conceitos acadêmicos, mas para fazer realidade ou fabricar a realidade ou destorce-la, você que é espectador quem sabe...
Há tempos não me deslumbro mais pela Europa. Sei hoje, até pela área em que sou formado, que África e Ásia e até mesmo a América, denominada de novo mundo, contribuíram e muito para a construção do mundo e reconstrução da Europa que precisava (e precisa!!!) se evidenciar como superior em meio aos outros! Movimento ridículo, mas real.
E tinha tudo para ser um homem deslumbrado. Fui criado em uma favela, mas por ser filho único, pude freqüentar os melhores colégios da minha cidade, meus colegas eram na maioria brancos e me inseriam em eu mundo aparentemente sem preconceitos. Tinha tudo pra ser um daqueles caras pobres, negros, que se acham maiorais por que de alguma forma estão dentro do mundo dos “civilizados, educados, bem vestidos”. Que volta para a favela no fim do dia, mas que apesar de lá estar não se mistura junto aos seus. Felizmente não sou assim. Não sou nenhum exemplo de “militância do gueto”, mas sei muito bem o meu lugar privilegiado, como negro que teve uma educação esplendida ao longo da vida (muito diferente de outros irmãos negros ao meu redor), que freqüenta lugares que alguns no lugar onde vivo só ouvem falar e às vezes nem isso, não tenho contato com a marginalidade etc etc... Também sei o meu lugar desprivilegiado nisso tudo: sou negro e por mais que tenha diploma, boas roupas, emprego e outras coisas, sou interpretado como negro, sendo negro sinônimo de exotismo, marginalidade, preguiça e apetite sexual fora do comum.
A poucos descobri um cinema que quando assisto bons exemplares seus fazem minha pele arrepiar, um cinema que me representa, um cinema que coloca todas as minhas convenções sobre a sociedade no lixo, um cinema que me desafia, que me orgulha, que faz minha mãe (que odeia cinema) às vezes chegar junto a tv e aprender junto comigo, filmes que me fazem ter esperança no mundo que estou, que constroem minha realidade, que desconstroem, que fabrica minha ilusão. Um cinema negro! E é sobre este cinema que vou continuar escrevendo...
Continuo lendo Fanon, Biko, James Baldawin, Walker meu povo que sempre tive de ler em movimento autodidata, pois as instituições nunca deram valor ao meu povo que escreve. Vou continuar ficando louco a cada lançamento de Spike Lee, de Joel Zito Araújo e de outros que ainda descobrirei... A Europa? Ah sim! Eles fabricam bons filmes...Mas não vou tratar o cinema inglês ou francês ou de outra parte da Europa com toda essa pompa só por que é europeu. Não faço a linha alternativa, não faço linha nenhuma. Gosto de cinema, se me tocar profundamente falo ate dizer chega! Sou apaixonado e todo o cinema, mas escrevo sobre o negro, pois é o negro que me representa!...

sábado, 4 de julho de 2009

Sob o Signo da Justiça.

Vamos falar sobre algo proibido na nação brasileira. Que existe, mas geralmente não se discute pelo nível polêmico dado à questão. Algo que não faz parte da boa linguagem em qualquer lugar que for pronunciado seu nome. Não, não vamos falar sobre sexo, nem política, nem de divergências religiosas! Vamos falar de algo muito complicado, pelo menos para a cabeça da nação brasileira, hipócrita como ela só, acostumada a jogar para debaixo do tapete quase toda questão que envolva assuntos terminantemente proibidos, que tenham uma carga polêmica em seu conteúdo e dê muito trabalho. Vamos falar de cotas raciais!
É um assunto desde sempre polemico! Desde quando ele veio à tona pela primeira vez na Índia (os dalitis foram os primeiros beneficiados), passou por vários continentes ganhando formulações diferentes até chegar ao Brasil. É a formação desta idéia no Brasil, mais precisamente na UNB (Universidade de Brasília) que o curta documentário Sob o Signo da Justiça (disponível no you tube) vai mostrar.
Em 1999 Arivaldo Lima um estudante negro de doutorado em antropologia da Universidade de Brasília foi reprovado em uma disciplina obrigatória. Tratava-se do primeiro estudante negro a participar do programa e também o primeiro caso de reprovação daquele doutorado. O episodio ficou conhecido como CASO ARI e motivou o processo de cotas para negros na UNB. Não se tratava apenas de um estudante negro reprovado e por conta disso a atitude de reprovação seria considerado racismo. Mas tudo o que estava por trás disso e não vinha a tona neste processo. Somente dois anos depois e a partir do desenvolvimento de um intenso processo a reprovação do estudante – que tinha publicações em revistas internacionais – foi cancelada. Este episodio motivou a elaboração do projeto de cotas na UNB.
Através de entrevistas com pessoas envolvidas direta ou indiretamente no processo de implementação de cotas raciais na Universidade de Brasília os diretores Carlos Henrique Romão e Ernesto Carvalho vão traçando o caminho – muitas vezes tortuoso – de quem apoiava o sistema de cotas raciais em uma universidade brasileira. Ícones desta luta como o próprio Ari Lima, abrindo o curta com uma frase esplendida, Sales Augusto, José Jorge Carvalho, Rita Segato deixam seus depoimentos traçados com entrevistas de estudantes que acompanharam de perto a dificuldade de se falar de racismo em uma universidade majoritariamente branca.
O curta é muito bem feito. É simples, direto, sabe provocar na medida certa (observe a parte em que uma reportagem do Jornal Nacional é posta na integra) o espectador e apresenta posições contundentes de todos os entrevistados. Tudo isso em questão de pouco menos de 22 minutos. O filme cumpre com sua missão, com uma montagem ágil, de mostrar um pouco do processo de implementação de cotas raciais na UNB, para estudantes e professores. Como o documentário é somente uma porta para o assunto, para o começo de uma discussão seria bom que o espectador utilizasse de outras fontes para saber mais deste assunto tão polemico e o porquê ele levanta tanta polemica. A resposta no fundo no fundo cada espectador sabe qual é exatamente, independente de que ele seja negro ou branco...

Para mais informações leia: de Ahyas Siss – AFRO-BRASILEIROS, COTAS E AÇÃO AFIRMATIVA: RAZOES HISTORICAS. Da editora QUARTET.

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Absoluto!

O Rei morreu! Michael Jackson morreu aos 51 anos ontem a noite... Fiquei triste, fiquei chocado. É engraçado como a morte apesar de ser uma das poucas coisas absolutas neste mundo me provoca ainda o choque. O astro morreu com um vasto currículo de maravilhosa arte e escândalos ao seu redor. Se ele piscava virava notícia. Era um homem que não precisava muita coisa para fazer você pensar... No ruim e no bom sentido! Suas músicas (seu principal legado) e seus vídeos foram e sempre serão revolucionários!!!!! Quando me pegava hipnotizado por um clipe dele hoje em dia vinha em mim uma ótima sensação que tinha no passado quando minha casa parava (eu, meu pai e minha mãe) para ver o clip do negão no Fantástico. Sim, negão!!!!!! Por que Michael nunca deixou de ser negão pra mim, apesar de sua feição ter mudado drasticamente ao passar dos anos. Era um símbolo de como o racismo introjetado pode pirar a cabeça de alguém... Mas também era símbolo de luta, cria de Quincy Jonnes (a melhor diga-se de passagem!) e de ótima musica... Do que seriam dos artistas atuais se não fosse por Michael... Nem preciso falar das suas crias brancas e negras que pipocam todos os dias no mundo da música. Mas Michael para sempre vai ser incomparável! Era igual a James Brown... O MÁXIMO!

Deixo aqui como lembrança a capa de uma revista na época que ele lançou o meu clip preferido REMEMBER THE TIME com um Egito negro e lindo, dirigido pelo esplendido Spike Lee... Michael foi o primeiro a fazer isso! O Egito era negro!

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Decepção

Bem, to aqui decepcionado... Comigo mesmo. Não vi meu filminho que há tento tempo espero. Milagre em Santa Ana chegou silenciosamente em Salvador em um cinema que nem todo mundo vai (em um shopping em uma área nobre de Salvador). Ficou só uma semana! E depois desapareceu, como alguém que é seqüestrado por um óvni. Quando fui ver já tinha o tal do BUDAPESTE no lugar. E nenhuma sala a mais exibiu o filme. Veio, ficou uma semana, saiu... Agora só em dvd... Ai ai...

sábado, 23 de maio de 2009

O DESAFIO QUASE INSUPORTÁVEL DE CONHECER O OUTRO...

Contar minhas experiências aqui no Blog não é coisa que faço com muita freqüência... Fiz o Blog para divulgar e criticar o cinema negro. Mas a partir do momento que minhas experiências transitam também pelo mundo da sétima arte e me provocam (adoro provocações!) trago elas para este espaço sem nenhum problema.
Bem, participei recentemente, como organizador, de um evento de cinema Queer, como sou professor e gosto de levar meus alunos para um encontro com a diversidade fiz uma das aulas neste festival. Pense nisso: Alunos heterossexuais em uma sala onde seria exibido um filme com temática homossexual, acompanhados de lésbicas, gays e transexuais... Diversidade pura! No começo tudo de bom, apresentações primeiras, aplausos, tudo ocorrendo normalmente. A sessão começou, a película que estava sendo exibida , um capitulo da serie lésbica The L World, burburinhos na platéia, uma cena de sexo aqui, um beijo entre duas mulheres acolá, depois uma conversa sobre lésbicas que querem ter um filho, mais burburinhos na sessão. E o filme acaba. Mais aplausos, mais explicações, há um debate e pronto. Chegamos ao fim com aparente sucesso do evento.
Nos dias seguintes um feed back com os alunos foi feito. O que eles tinham achado, qual a opinião deles e a pergunta principal se eles queriam continuar vindo para as sessões seguintes. A resposta foi certeira: NÃO!
Por que não? Por que a serie era pornográfica? Por que o capitulo era ruim? por que o texto era chulo? Por que? Exemplificando melhor segundo um dos alunos da turma “Aquilo não faz parte do meu mundo!”... Encontrei a resposta. Era um “outro mundo” e este outro mundo ofendia a moral e os ensinamentos que tiveram. Curioso não como um filme (mais precisamente um capitulo de uma série lésbica) com menos de uma hora e meia machucava tanto uma identidade aparentemente tão forte quanto a identidade heterossexual.
O mundo apresentado, que diziam não ter nada haver ao deles, diferia por ser o mundo do outro. Tinha um monte coisas no fundo dessa questão e das falas dos alunos: Primeiro, o mundo homossexual estava aparecendo sem querer ser tolerado ou aceito, estava dizendo EU EXISTO independente de você querer ou não, outro fator é que a série mostra as lésbicas como pessoas normais que lutam para ter dignidade e querem ser felizes como todos nós. Querem mais fatores? As lésbicas da série são iguais em nível de feminilidade as meninas da platéia, ou seja, o mito de que toda lésbica é masculinizada ou mais precisamente ‘diferente de mim’ é testado e apagado. Sendo mais explicito; o diferente, apensar de ser díspar pode não ser tão distante assim. Quando vemos que o outro não se pinta como coitadinho, uma vitima em potencial e que ele(a) vive independente do olhar do dito dominante isto choca. Não existe um algoz temido, mas uma pratica que é combatida diariamente de varias formasse que estas pessoas também vivem desejos, angustias, alegrias que são próprias também do nosso mundo.
Mas o que o mundo lésbico apresentado tem haver com o nosso blog? Sim tem haver! Estou falando de diversidade e falar dela, palavrinha tão simples, é algo extremamente difícil e dolorido, pois prova para você que não é o centro do universo e as praticas que tem em maio a sociedade nem todo mundo compartilha da mesma idéia. E reconhecer os universos distintos da nossa sociedade é um desafio e tanto. Uma receita que para sair no ponto certo precisa de entrega, auto conhecimento, disponibilidade e humildade. E reconhecer também que conceitos formulados como racismo, machismo, heterossexualismo dentre outros são aprendidos e também podem ser problematizados com um bom esforço.
No caso dos meus alunos a resposta inicial foi não. Um bom e sonoro NÃO. Avaliou-se a possibilidade deles não participarem mais do projeto, mas depois com o tempo verificamos que estávamos fazendo cidadania! Não dependia somente do querer ou não. O filme não estava sendo passado por passar somente. Tinha um propósito, haveria debate logo depois. Nem todo mundo gosta de matemática, mas mesmo assim sabemos que ela é imprescindível para a construção de um bom profissional, mesmo que ele quase nunca utilize a matemática como eu que sou da área de historia. Com os alunos era a mesma coisa... Nem todo mundo gostaria de conhecer o outro e se debater retirando a linha tênue que separa brancos e negros, heteros e homos, mulheres e homens etc, mas é preciso conhecer o outro suas angustias e alegrias. E estava fazendo minha parte. E trabalhando contra a homofobia estava trabalhando contra o racismo, o machismo... o seu, o deles e o de toda humanidade...


sexta-feira, 22 de maio de 2009

Insatisfeito!

O novo filme de Spike Lee já, e há muito tempo, chegou aos cinemas brasileiros. Tem umas três semanas que o filme aportou nas telonas brazucas... Mas nada do filme chegar aqui na Bahia. Saiu criticas em revistas, em sites, até no you tube tem critico comentando. Algumas criticas são favoráveis, outras esculhambam o filme de cabo a rabo... Mas eu quero ver o filme e tirar minhas próprias conclusões. Até hoje, semana após semana espero o filme chegar aqui em Salvador. Nada ainda. Espero que saia nos cinemas e não somente aporte aqui em DVD.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

O Amor...

Bem, vamos falar do amor. Este sentimento que emana pela humanidade desde o nascimento dela. Como este é um blog que trata sobre cinema negro, vamos é claro traçar filmes que abordem romances e temáticas raciais. E se você tem algum conceito formulado contra o amor é melhor aparar por aqui. Nas linhas que se seguem romance vai ser o principal ingrediente da postagem.
Mas não são filmes quaisquer. Se você estiver realmente interessado em comedias românticas com personagens negros ou filmes dramáticos que falam sobre relacionamento entre negros, vá à locadora e alugue um monte deles. Lá tá cheio. O que pretendo falar é sobre um tipo mais “complicado” de amor neste nosso mundo cheio de práticas duvidosas; o amor interracial.
Não é de hoje que o cinema faz este tipo de abordagem. O negócio é mais antigo que clichê de filme de “professor super herói”, Hollywood (sempre ela!) invoca o tema desde a era de ouro dos antigos filmes até hoje. É por isso que escolhi três filmes, de diferentes épocas, gêneros e diretores. Vão do drama a comédia pastelão, mas nenhum dos três deixa o debate morrer no meio do caminho. Não dissolvem a questão em simples “o amor vence a tudo”. Os filmes, cada um de sua forma, discutem com muita verdade o que está acontecendo entre os casais e como a sociedade reage a esta iniciativa de um casal muito diferente entre si.
Os filmes são: Adivinhe Quem Vem Para Jantar, de Stanley Kramer do longínquo 1967, Febre na Selva de Spike Lee de 1991 e Uma Coisa Nova – As Surpresas do Coração de Sanaa Hanri de 2006. são filmes que abordam de forma corajosa uma questão que pensam estar ultrapassada, mas que ainda provoca debates e questionamentos por onde passa.
O primeiro é um marco do seu tempo. Na época falar disso nos EUA era um tabu dos diabos e diretor, roteirista e elenco tiveram coragem para tratar de um tema tão controverso em uma época tão violenta e de tantas revoluções como o final dos anos 60. a historia é simples, moça branca que chega de viagem tem que apresentar sua grande paixão a sua família aparentemente liberal, um rapaz negro com quem tem certeza absoluta que quer casar imediatamente. A partir dessa premissa básica o filme se desenvolve com excelentes diálogos que são o grande marco do filme. Principalmente no que tange o liberalismo da família branca da garota (vivida pela apática Katharine Houghton), os pais que se consideravam extremamente libertos de quaisquer preconceitos vêem-se envoltos na armadilha hipócrita que próprio criaram. Para a época era um bac ver o filme tanto para brancos liberais quanto para os racistas assumidos. Além disso Katharine Hepburn está ótima no papel e Spencer Tracy, debilitado por conta de problemas de saúde, deixa sua marca do jeito que pode ao filme. Sidney Poitier vocês já sabem o que penso dele, sempre ok e só. Dá um charme todo especial ao personagem, mas não rende uma maravilhosa interpretação. Na verdade o elenco está muito bem, mas o filme tem dois outros grandes marcos: o roteiro enxuto, que mais aprece uma peça de teatro, que deixa seus personagens a vontade em meio ao tema tratado de distintas formas e a atriz Beah Richards que faz a mãe do personagem de Sidney e entrega a personagem força, carisma e carinho na medida certa. Fiquei boquiaberto de ver sua interpretação, colocando em poucos minutos e com excelentes passagens o elenco todo na bandeja. Uma outra coisa a salientar é a hipocrisia do roteiro. Apesar de um marco da época o filme não expande limites e o casal principal não se beija nem sobre pressão.
O segundo, Febre na Selva, é um filme de Sipke Lee, traduzindo, não é um filme qualquer e que vai tratar o tema de forma simplória। Como sempre o elenco, escolhido a dedo, é maravilhosamente bem trabalhado pelo roteiro fabuloso. As tramas paralelas também estão no lugar como em qualquer filme de Sipke. O que peca um pouco é o casal chave vivo do por Wesley Snipes e Annabella Sciorra e Spike querendo tirar onda de ator novamente. O casal apesar de muito bonito não tem aquela química e o espectador não se interessa muito neles e o tema acaba ficando maior que os personagens. Isso realmente deixa o filme em alguns momentos chato. Destaque para os atores que fazem os pais do personagem de Wesley, Ossie Davis e Ruby Dee, simplesmente fantásticos e são donos das cenas mais marcantes do longa.
Já Uma Coisa Nova – Surpresas do Coração é a típica comedia romântica que o cinema americano sabe tanto fazer. Tudo está em seu devido lugar, a fotografia que faz todo mundo ficar lindo, os diálogos engraçados presentes em toda comedia romântica, a transformação dos personagens e o roteiro tipicamente sonhador. O destaque do filme é o casal chave, o único dos três filmes que realmente dá certo e coloca o espectador em um ponto de interesse com eles. O elenco está afiadíssimos e também muito bem escolhido. E a questão interracial é atualizada aos novos contextos de uma nova sociedade. Mas o filme na deixa de ser um romance água com açúcar em nenhum momento, ok?...
Os três filmes tentam passar um marco chave: que a relação interracial precisa ser problematizada para que uma das partes não fique superior a outra, no caso quase sempre o branco superior ao negro. E os personagens estão a fim de discutir de verdade todos os entraves que uma relação deste porte tem. Nada é escondido. E a sociedade de abre de maneira impactante com seus conceitos pré formulados. Para um relacionamento desse porte, a negritude e a branquitude de cada sujeito tem que estar muito bem resolvida para que isso não possa interromper com o andamento do relacionamento. Digo isso em questão dos personagens que problematizam os entraves das suas raças por conta do amor que sentem um pelo outro.
Uma outra coisa vista em alguns filmes, nestes e que também reparei em outros, é até onde negros precisam casar com negros e brancos precisam casar com brancos para serem mais bem resolvidos e terem seu mundo sem abalos? Até onde as pessoas não se deixam levar por conta de uma identidade cômoda? Até onde não é cômodo e seguro não ter sua identidade abalada por conta de uma pessoa junto a você que pertence a um outro contexto? Até onde vale a pena ter um amor da mesma cor, enquanto que este homem ou mulher perfeita não é necessariamente o que queremos, mas o que os outros tem como exemplo de relação? Amor não tem cor, em que mundo estamos vivendo de tanta hipocrisia? Estas e outras perguntas surgem com o passar do tempo, principalmente se estiver vendo os filmes em curto espaço de tempo. Nenhum deles pretende responder tais perguntas, as vezes tudo é jogado na tela e o espectador tem que resolver suas questões pra si. Mas dizer que a temática seja passada de forma absolutamente rala isso não pode ser dito com estes três bons exemplos.
Aprendi que o amor tem cor sim, até por que você não namora com sujeitos incolor. Mas ele não se resume a isso e como toda e qualqer coisa no mundo deve ser problematizada.