segunda-feira, 21 de junho de 2010

EM MENOS DE DUAS SEMANAS...

Recentemente coloquei o contador, depois de que um dos leitores do blog (Braulio da Bahia rsrs) me chamou a atenção para este tipo de ferramenta. E eis que surge uma supresa, com menos de duas semanas olha a quantidade de visitas neste PELICULA NEGRA. Sei que tem gente que entra aqui e torce o nariz por conta da temática, mas a maioria curte o trabalho desse blogueiro de plantão. E garanto muitas supresas pela frente...
Muuuito obrigado galera pelos elogios, pelas críticas, pelos amigos add ao orkut por conta do blog, pelo apoio enfim. Valeu mesmo!!!!!!!!

O Sol Tornará a Brilhar

Oprah Winfrey, no dvd extra de A Cor Púrpura, relata a desconfiança dos diretores, produtores e atores negros norte americanos sempre tiveram em relação à Hollywood. Na “fábrica de sonhos” norte americana o racismo era lei. É só reparar nos antigos sucessos norte americanos para ver não só como a raça negra, mas como todas as raças diferentes da branca eram configuradas pelo cinema. Não que isso tenha sido extinto. O racismo cinematográfico hollywoodiano apenas mudou sua configuração, ele está lá, é só apurar os olhos e você vai enxergar tudo claramente.

Mas, existiu um movimento de contra corrente, em que atores negros norte americanos reinventavam a forma de olhar o corpo e o personagem negro. Sem sombra de duvidas, este movimento teve com um de seus grandes protagonistas o ator Sidney Poitier. Ele com certeza fez escola e é reconhecido até hoje pelos atores (brancos e negros) norte americanos como precursor do bom cinema negro norte americano. Era um ator excelente? Não! Sidney muitas vezes soava exagerado ou estava ligado no piloto automático. Mas a sua garra como profissional, envolto em filmes que colocassem o ator negro em ponto de igualdade com atores brancos é que faz de seus filmes exemplos natos de ótimos trabalhos. Ele não estava atrás apenas de papéis de destaque, mas de protagonistas desafiadores, que participassem de ótimas histórias, fazendo negros que não estavam sujeitos em hipótese alguma a subordinação. Com essa determinação participou de filmes como Adivinhe Quem Vem Para Jantar, Ao Mestre Com Carinho, No Calor da Noite e O Chacal, todos clássicos.

E apesar deste O Sol Tornará a Brilhar não ter atingido o status de clássico, por ser um filme não tão conhecido, é com certeza um de seus filmes mais marcantes. O por quê? O filme tem no roteiro, na interpretação dos atores e na direção segura seus principais trunfos. Tudo começa quando os Younger, formados pelo motorista Walter Lee Younger, seu filho Travis, sua irmã Bernie, que estuda medicina, e a mãe viúva, Lena, proprietária do imóvel, recebem um cheque de 10.000 dólares proveniente do seguro de vida do patriarca da família já falecido. Só que Walter já pensa o que fazer com esse dinheiro, abrir um bar junto com outros dois amigos, seu grande sonho. Em contrapartida a matriarca da família pensa em pegar o dinheiro e comprar uma boa casa, em um bom bairro, já que a família passa por dificuldades e isso seria garantia de uma vida melhor para eles, além que ela não suporta a idéia de ver todo esse dinheiro gasto em um “comercio de vícios”.

As dificuldades financeiras e os diferentes destinos para o dinheiro são fundo para discussões intermináveis entre os Younger. E é justamente neste ponto que o filme, baseado em uma peça teatral em cartaz na Broadway, cresce. Quase toda a trama é passada no apartamento da família e é tudo feito com tanta força e impacto que não tem como o espectador não se envolver com a historia desse clã e seus desafios, frustrações, amores, vaidades, orgulhos, vitórias, derrotas e alegrias. A trama toca ainda em temas como racismo, aborto, ateísmo, valores familiares, África, violência, vicio, intelectualidade, tudo de uma forma muito bem feita. Existem horas em que a conversa entre a família esquenta e seus dilemas tornam-se muito profundos, a ponto do espectador sentir-se atraído a voltar os diálogos de tão bem escritos. A direção do canadense Daniel Petrie é segura. E apesar de Sidney Poitier ter o personagem principal em suas mãos, são as atrizes Claudia McNeil e Ruby Dee que roubam a cena, deixando Sidney no chão.

O Sol Tornará a Brilhar de 1968 é com certeza uma das melhores coisas que já vi em minha vida. É simples, sem explosões, sem efeitos especiais, mas tocou minha alma diferente de muito filme atual. Para quem não encontrar a versão antiga, existe uma nova, feita em 2008, com Sean “Puff Daddy” Combs no papel que foi de Poitier. Não assisti ao filme, que é passado nos mesmos anos de 1950 do filme original e é comandado pelo diretor negro norte americano Kenny Leon. Fiquei curioso quando vi a capa do dvd e estou ansioso para ver esta nova versão. O de 1968 está na minha lista de grandes filmes, de grandes clássicos, que já vi na vida. Uma ótima pedida.

domingo, 20 de junho de 2010

Beyonce e Jay Z: Metamorfoses...

Não é exagero afirmar que os dois são os nomes mais falados do momento. Beyonce (mesmo estando de férias) e seu Marido Jay Z são referencias seguras não só no "mundinho" do R&B norte americano como também no mundo do entreteminento como um todo. Ela virou fenômeno com Single Ladies, veio ao Brasil causando maior loucura em várias capitais (inclusive em Salvador), é "atriz" - com aspas mesmo! - e ganhou um grande número de prêmios por seus trabalhos como cantora. Ele? Nada mais que O nome atraz do rap e R&B nos EUA, já fez parceria com quase todo cantor/cantora importante e tem uma fortuna estimada em mais de 100 milhões de dólares... Mas todo mundo, até os super stars, tem seus bons e maus momentos. Até com uso de photoshop e afins aquele astro que aparece lindo pode parecer bizarro em determinadas publicações. Dia desses navegando na net desobri dois exemplos bons e bizarros desses dois ícones e como o PELICULA NEGRA também tem seus momentos de "bom" humor, resolvi postar dois momentos de Beyonce e seu marido Jay Z aqui. Para vocês verem que a fama e o sucesso nem sempre vem para o bem...

1º - Jay Z: capa Rolling Stone. Este não tem como ficar bonito. Repare que na segunda capa - de looooonge - ele tá todo estiloso, poderoso, pondongoso. Mas na primeira, tá estranho, não?... Até hoje não entendo como uma mulher como Beyonce, linda, poderosa, RICA, foi se apaixonar por um filhotinho de Deus é mais como ele... Mistérios da paixão!...


2º - Beyonce: embranquece. Isso constantemente acontece com ela. A maior estrela negra do entretenimento é embranquecida regularmente nas publicações. Eu já postei comentário sobre isso aqui, mas essa da Marie Claire é de se espantar. Será que ela fica mais aceitável para os racistas que adoram ouvir Single Ladies e Halo?... Outro mistério...



Aperte o Play. Sara Tavares.

A cantora Sara Tavares chegou pra mim como um destes milagres da net. De blog em blog, em mais uma noite viajando no universo alheio encontrei "Sarinha" - intimo não?! - e me apaixonei. A música é simples, mas contagiante. De um balanço muito bom. Ela é filha de imigrantes cabo verdianos em Portugal, cresceu musicalmente misturando as influencias ancestrais com o toque pop do país onde vive. Está no seu terceiro album e digo por experiencia própria, suas músicas grudam que nem chiclete.


sábado, 19 de junho de 2010

Mãos Talentosas - A História de Ben Carson

Qual foi o último filme de Cuba Gooding Jr que você viu estrear nos cinemas no Brasil? Norbit, O Gangster? Os dois estrearam em 2007, ao contrário de quase todos os outros lançamentos de Cuba que foram, no Brasil, diretamente para DVD. O que aconteceu com o astro em ascensão que ganhou, nos longínquos 1996, o Oscar de melhor ator coadjuvante por JerryMaguire? O que fez ele seguir o mercado de DVDs dominado por Steven Seagals e Van Dames da vida?

Não que isso signifique necessariamente fracasso na carreira. Quase todos os meses chega as locadoras um filme estrelado por Cuba Gooding Jr e nesse caminho, por exemplo, ele já trabalhou com gente importante como Lee Daniels, diretor de PRECIOSA, e também viveu personalidades negras estadunidenses como neste Mãos Talentosas - A História de Ben Carson. Cuba tornou-se o rei do mercado DVD no Brasil e seus filmes, por algum motivo, chegam aqui somente na telinha, fazendo com que seu talento não seja reconhecido em tela grande. E os filmes dele não são todos ruins. Gente como Eddie Murphy lança ano após ano exemplares de filmes horrendos e todos (!!!) chegam ao cinemas sem dó nem piedade. Para você ver o último filme bom de Eddie nos cinemas foi DreamGirls, isso faz tempo já. Nem todo mundo tem o cacife de Denzel Washington que traz sempre exemplares bons para seu público cativo aqui no Brasil.

Voltando a Cuba Gooding Jr, este Mãos Talentosas - A História de Ben Carson também só veio ao Brasil disponível em vídeo. Infelizmente, tenho que dizer que não era digno de chegar aos cinemas, não que seja ruim, trata-se de um filme, feito para televisão bom e só. O filme conta a história do médico Ben Carson (ao lado do ator na foto postada), desde sua infância difícil em Detroit até quando faz sua grande operação mudando drasticamente o mundo da neuro cirurgia.

É um filme simples, com seu protagonista sendo interpretado de forma segura por Cuba. O roteiro na verdade passa boa parte do tempo concentrando-se na infância e adolescência do médico e no papel da sua mãe como base fundamental para seu crescimento enquanto homem e estudante exemplares. Aliás, esta personagem é o grande trunfo do filme, interpretada pela atriz Kimberly Elise (O Diário de Uma Louca/ A Bem Amada/ Sob o Domínio do Mal). A mãe de Ben brilha a cada momento. A atriz faz toda a interpretação de uma forma extremamente contida, sem precisar de exageros para sobressair-se em cena. Tem, a seu favor, as melhores frases do texto e os grandes momentos do filme também.

O filme só tem um defeito, crucial até. Não sabe se opta em contar a historia do grande médico, ou a historia dele através do ponto de vista da mãe. No primeiro ato do filme, muitas vezes dar-se atenção demais a mãe e isso não seria problema, se no segundo ato o filme continuasse assim, já vimos isso dar (e muito!) certo em Os 2 Filhos de Francisco. Mas no segundo ato a mãe do médico quase some e o filme dá mais importância nos feitos dele como cirurgião.

Mãos Talentosas - A História de Ben Carson é um filme bom. As lições da mãe de Carson são ótimas, o filme centra-se também na fé em Deus que ela passa aos seus filhos e passa voando pelas dificuldades e conflitos existentes na vida real de Carson. Se um filme simples, sem mirabolantes reviravoltas e grandiosas atuações te satisfaz, Mãos Talentosas - A História de Ben Carson é uma boa pedida. Fica também a dica para conferir a carreira de Cuba Gooding Jr em DVD, não é toda de se jogar fora.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Seria mais um homossexual hétero?...

Estreou recentemente, no horário nobre da Rede Globo, o seriado Lei e Orde... digo, o seriado Na Forma da Lei. Dirigido por Wolf Maya, claramente a micro série, com episódios que vão ao ar durante oito terças feiras, pega carona nos seriados de investigação norte americanos. Até a abertura parece saida da cabeça dos membros de produção do CSI. Não que isso seja um pecado horrível, trata-se apenas de um pecado rotineiro, já que não é de hoje que vemos a Globo imitando algo de fora para se dar bem. e mais ainda por conta que ela está perdendo terreno para os gringos imigrantes; CSI, House, Supernatural, Grey's Anatomy, estão roubando a audiencia global fazendo a alegria das emissoras, principalmente da Record.
E para você ver que trata-se de uma imitação (quase) perfeita, o personagem negro presente em todos estes seriados está lá também, o jornalista Ademir. Interpretado pelo ator Samuel de Assis. Mas, olhe bem, este tem mais um significante, Ademir é homossexual. Um personagem negro, gay na Globo? Nossa, não vejo isso desde... hum... Xô vê... pera deixa eu pensar... hum... é... pera, hum... a... hum, lembrei, A Próxima Vítima, nos longíquos 1995. É... Quase que deixo Jefferson, interpretado por Lui Mendes, namorado de Sadrinho, de fora. Se lembra dele?...
E tem mais, é um personagem negro, gay e faz parte do elenco principal. É realmente um achado. Mas não vá comemorando não, que o seriado é feito por uma televisão aberta e ainda por cima é a Globo. Por tanto, não espere um personagem com vida ativa, principalmente por que ele é gay. Desta forma, nada de beijo, nada de cena de sexo, por que os personagens gays da dramaturgia brasileira são quase que heterossexuais.
E ainda mais ele sendo negro!!! Imagine, o protótipo de virilidade brasileiro tendo comportamentos homossexuais?... Até por que o personagem da série não é efeminado. Isso é quase contraditório na televisão do Brasil, personagens homossexuais que não servem de chacota para o público rir.
Mas se não vai ser construído como palhaço, pelo menos o público homofóbico tem uma garantia: o personagem gay negro não vai ser construído completo dignamente. Levando também em conta as recentes declarações de dois autores fixos da emissora, Aguinaldo Silva e Silvio de Abreu, que deixaram claro que beijo gay na Globo nem pensar. Portanto, se estiver querendo algo mais construtivo, assista a série Noah's Arc tratando-se de homossexualidade negra vista de um prima diferente.
O personagem gay da nova série global como em toda sua dramaturgia é um quase hétero, evidenciado que é "gay" por conta de um texto sem diretriz e insinuações de um corpo subalterno que quase não tem protagonismo sobre si mesmo. Seu desenvolimento é fruto de um olhar da audiencia homofóbica. Ele progride até onde ela deixa...A heterossexualidade é igual a branquitude, só consegue enxergar ela mesma.

terça-feira, 15 de junho de 2010

O Pornô Inter-racial.

Vou logo avisando, se você for moralista não continue lendo o post, ok? Já falei de pornografia em dois momentos aqui no blog, uma sobre o mundo do obsceno como um todo e outro sobre o nome masculino mais famoso do pornô nacional Agora ela é assunto novamente aqui. Dado os devidos avisos, continuo.

Todo mundo sabe que a indústria de filmes pornográficos no Brasil deu uma catapultada nos últimos anos. O mundinho pornô brasileiro geralmente se manteve restrito a ele mesmo, mesmo depois da popularização do pornô pelo vídeo cassete, do DVD e atualmente da internet, já que ninguém precisa mais sair de casa para ir a um cinema ver pornografia. Mesmo com toda essa “discrição” e comodidade, a pornografia conseguiu sair nos últimos anos do seu mundinho e ir além. Hoje seus artistas aparecem em programas de TV aberta, falam do seu oficio em entrevistas, desmistificam muita coisa. Isso se deu com certeza também por conta da passagem de personalidades e atores famosos do maestrean nos últimos anos para o mundo da pornografia. Também os filmes pornográficos no Brasil se profissionalizaram e muito. Hoje existem produtoras que se preocupam e muito coma qualidade de suas películas e apostam na carreira dos profissionais e na rede de relações presente no pornô.

Mas, mesmo com toda esta renovação e da abertura, o pornô continua tradicional em alguns aspectos. Logo ele, que colocou para fora fantasias trancafiadas há séculos entre quatro paredes, para todos no século XX e XXI observarem atentamente. Na verdade no mundo do obsceno, realidade e “ficção” se misturam; não se sabe muito bem quem inspirou quem, se a realidade serviu de exemplo ao pornô, ou o pornô guiou a realidade. Sabe-se hoje que o pornô é um gênero fílmico consumido a exaustão, que movimenta muito dinheiro, se sustenta basicamente hoje pela net e pelos DVDs e que as fantasias expostas por suas lentes estão na cabeça de cada um dos brasileiros espalhados deste país. E como estamos no Brasil, país que é conhecido internacionalmente como (e faz até hoje propaganda desse aspecto “ímpar”) miscigenado, misturado e como aqui também, como em outros países da America, existiu todo um processo de escravidão negra, temos como característica nacional uma das fantasias mais trabalhadas pelo pornô: o sexo inter-racial.

O pornô é um estilo que é feito para expor o proibido. Sem o proibido ele não existe. E quer algo mais proibido nas Américas que uma relação inter-racial? Você pode estar achando que isso aqui no Brasil nunca foi tabu, que aqui todos se amam e tudo é liberado. Engano seu. As relações inter raciais foram feitas de formas, digamos, suspeitas. Pela exploração do corpo negro pelos brancos na época colonial, com objetivo de embranquecimento da população brasileira no final do século XIX começo do século XX (acreditava-se que a mistura entre negros e brancos com o passar das gerações fizesse do Brasil um país branco e assim ele atingiria o desenvolvimento), e no Brasil contemporâneo arraigando todos os tipos imagináveis de estereótipos ligados ao corpo negro. Portanto, o sexo inter-racial é sim uma fantasia, desde o senhor de engenho que saia sorrateiro pela casa grande para pegar as negras da cozinha ou da Senzala, até hoje. Brancos e negros, gays ou héteros, se envolvem sim, mas o corpo negro é visto como um objeto ótimo para o sexo e também um tabu. Isso também se deu em países com regimes segregacionistas ferrenhos como EUA e África do Sul, mesmo lá existindo proibição perante a lei, negros e brancos se envolviam e a miscigenação virou uma fantasia proibida no coletivo das populações.

Como as relações raciais tornaram-se tabu, o pornô fez questão de assumir e transpor em forma de filme. Primeiro que o corpo negro no pornô brasileiro é configurado de acordo com as exigências do mercado. No pornô heterossexual existem empresas que trabalham com elenco negro em sua maioria, como por exemplo, As Panteras. Já outras fazem uso do corpo negro somente em filmes inter-raciais e também em gang bangs, filmes com vários homens e uma só mulher, geralmente loira. No pornô gay brasileiro o negócio fica um pouco mais restrito, já que não existem empresas que trabalham com este arquétipo e poucos são os casos de pornôs nacionais onde o negro esteja em evidencia, mesmo com os estereótipos existentes, apesar da fileira inter-racial conseguir algum destaque nos últimos anos. No caso das travestis, a diversidade é a principal característica, louras, morenas e negras com a pele mais clara são recrutadas, mas é preciso ter em mente que muitas travestis de peles mais escuras e feições mais próximas do negro, freqüentemente transformam seu visual mediante o uso de longos cabelos louros e de cirurgias faciais.

Os corpos negros no mercado pornô são simbolicamente associados com imaginários que falam de potência sexual, de tamanho, de extrema lascívia e da virilidade no caso masculino. Já o corpo branco é um objeto do desejo, de alcance, do belíssimo, do perfeito. Juntos, o protótipo de beleza + o protótipo de lascívia dão uma boa mistura, diz o mercado. E existem técnicas especiais para lhe dar com o desempenho dos dois corpos juntos. A luz, por exemplo, é uma delas. Há certa dificuldade em filmar pornôs inter-raciais, por conta do contraste dos dois corpos e os desafios técnicos devido ao ajuste de luz. Alguns câmeramen dizem que a luz para o inter racial tem que ficar perfeita, bem mais que filmes convencionais, se não a pele branca na imagem pode estourar, ou a pele negra pode ficar feia como mancha borrada, o aumento de luz etc. estes profissionais dizem também que no contraste das peles o pênis do ator negro que fica maior do que ele é realmente.

Também a forma de distribuir o filme pornô inter-racial é bem diferente dos demais. No pornô heterossexual, por exemplo, a mulher é o grande mote e o homem um mero objeto, aparecendo em muitas filmagens parte do seu corpo, pênis principalmente. No inter-racial o homem negro também é evidenciado, na divulgação geralmente é destacada sua virilidade, com fotografias que destacam o tamanho do seu pênis. O recurso de programas como photoshop são fundamentais já que o corpo no pornô não pode parecer em hipótese alguma com o corpo “normal”. Outro fator são os títulos e as legendas, já que é por eles e as imagens que o consumidor basicamente verá o que vai levar para casa. E para atingir esta meta, tudo é valido, desde o uso de palavras chulas, até o de humor, objetivando sempre uma ação, através do exagero, outra marca básica do pornô. Como a relação inter-racial é uma fantasia, o pornô dá sua exagerada para vendê-la conforme seus padrões.

Então, não se vêem somente corpos, mas corpos incríveis, não somente loiras comuns, mas loiras que vão deixar você louco, não qualquer tipo de homem negro, mas aquele que tem um pênis gigante, grosso. E para divulgação destes corpos ilustres, envoltos nessa fantasia, como em um espetáculo circense, são de uso freqüente frases como: “as maiores picas do Brasil”, “a perfeita combinação de inocência e safadeza”, “as loiras mais perversas do cinema pornô, se mostram taradas por negros viris e extremamente dotados”, “filme imperdível, com anal inter-racial em todas as cenas, além de DPs e ejaculações faciais”, “É um pássaro, é um avião? Não, espere, é o pau gigantesco de Shane Diesel”, “Negras deliciosas mostram quanto prazer elas podem dar aos apreciadores de sexo com mulheres da cor do pecado “É um site dedicado ao sexo inter-racial. É pornô puro e duro com homens negros com picas gigantes a fuder mulheres brancas doidas por fazer mamadas e por foda”, “Muitas mulheres tem vontade de dar para um negro pauzudo e este filme vai mostrar como eles seduzem suas vitimas sexuais”. Para o titulo destes filmes, é colocado em evidencia o papel bestial que o corpo negro adquiriu ao longo da historia chamando atenção para sua virilidade e safadeza exacerbada. Títulos como Blackzila, Rola Monstro, Só Negros Comem Assim, Negras Fogosas 2, pipocam nas locadoras e nos sites de todo Brasil.

Os produtores dos filmes pornográficos consideram os múltiplos fetiches do seu mercado consumidor antes de executarem os filmes. E o fetiche do sexo inter-racial é ver o animal cheio de volúpia (negro) a fornicar o objeto perfeito do desejo sexual (corpo branco). Também os antigos papéis sócias se reafirmam, o branco como objeto perfeito do desejo está em um lugar de poder e o negro aparece somente para satisfazer a fantasia do outro por um tempo determinado. No pornô inter racial somos meros coadjuvantes disfarçados de protagonistas mambembes, voluptuosos, como fome animal por sexo, somos senhores do poder ali na cama e somente na cama. Somos tidos como os reis do sexo, pois este é o único lugar onde podemos ser reis, devidamente coroados pelos brancos, que desejam nosso corpo como fantasia. Em terra de racista, quem tem um pau negro é rei!

sábado, 12 de junho de 2010

Novidades...

Mais uma de Tyler Perry. Dessa vez ele dirige For Colored Girls Who Have Considered Suicide When the Rainbow is Enuf, filme baseado em uma série de 20 poemas que contam histórias de amor, abandono, violência doméstica aborto e outros problemas enfrentados por mulheres negras. O drama cômico é inspirado na peça de Ntozake Shange, de 1975, e consiste em uma série de poemas declamados por mulheres sem nome, conhecidas apenas por sua cor. A peça virou livro em 1977 e em 1982 um filme para televisão. A atração maior da versão cinematográfica fica por conta do elenco, que reune nada mais que Janet Jackson, Whoopi Goldberg, Phylicia Rashad, Jurnee Smollett, Kimberly Elise, Kerry Washington e Macy Gray. As filmagens já começaram no mês passado. Recentemente, a atriz e cantora Mariah Carey - que já conhecia o trabalho de Perry por conta do filme PRECIOSA produzido por ele - acabou saindo da produção. Tem gente que não está vendo com bons olhos a mão de Perry no projeto, já que a diretora Nzingha Stewart estava envolvida no filme com roteiro de sua autoria. Com certeza por conta que essa poderá ser a 4º colaboração do Perry ao estúdio que produz o filme (LionsGate) e principalmente depois de PRECIOSA ganhar 2 Oscar com produção do diretor. Alguns fãs já se mobilizaram na internet deixando claro que preferiam ter uma das poucas diretoras negras em evidencia em Hollywood comandar uma produção falando sobre mulheres negras que um diretor que pode transformar o livro em um filme piegas. É esperar para ver. O filme ainda não tem data de lançamento oficial.

Quincas Berro d'Água

Assistindo dia desses ao filme Quincas Berro D’Água, filme nacional recém chegado aos cinemas e que está fazendo sucesso nas salas do país, dei-me conta de mensagens subliminares que às vezes o cinema traduz na sua cara, mas elas continuam sendo subliminares para alguns, mesmo com todo aquele contexto sendo traduzido em imagens que você não pode deixar de ver.

Pense junto comigo. Todo conhecimento cientifico tem como objetivo virar censo comum, tipo de conhecimento tido como vulgar e prático que no dia-a-dia orientamos as nossas ações e damos rumo a nossa vida. O que é produzido pelos cientistas é feito para chegar de alguma forma (para o bem e também para o mal) a população leiga. Essa é uma das características da ciência atual de um novo paradigma que emergiu lá pelo começo dos anos 80 e, mesmo encontrando barreiras, se mantém hoje nas universidades. É algo produzido para ser libertador, tentando livrar a ciência da exclusão que antes acontecia em larga escala. Mas engana-se que a “lei” formulada acima foi introduzida somente nos últimos anos do século XX. O objetivo da ciência em traduzir-se em censo comum já é costume desde muito tempo e um desses exemplos é a propagação do racismo na cabeça de cada um de nós.

E chega de uma forma que você não repara, pois ele é dissolvido na mídia, literatura, revistas, comerciais de TV, filmes, música, fotografia, pintura. Pega você no momento mais frágil, em que você está pensando em nada e os códigos que ele quer revelar podem entrar na sua cabeça sem problema algum. Estou conspirando demais? Não mesmo!

O filme Quincas Berro D’água, que foi inspirado no livro A Morte e a Morte de Quincas Berro d'Água do escritor Jorge Amado, mostra uma Bahia, mais precisamente a cidade de Salvador, da forma peculiar como Jorge Amado sempre esteve disposto a vender. Salvador é uma cidade dividida. Uma parte, organizada, limpa, bonita e sem graça, é neste lugar que geralmente vivem o povo branco, que constituem na maioria, a burguesia da cidade com seus comerciantes, funcionários públicos, políticos e afins. A outra é uma Salvador suja, feia, desvairada, escura, periférica, recanto da boemia, da sacanagem, da descaração, roubalheira, onde residem a maioria dos personagens de Jorge, marinheiros, prostitutas, meninos de rua, moleques de recado, devotos do candomblé, bêbados, sambistas, dentre outros, na sua maioria negros.

E é curioso reparar como Jorge Amado vê a sua cidade. A Salvador suja é onde os negros e mestiços moram e esse povo em particular é louco, maltrapilho, bêbado, vigarista, que gosta de sexo, cachaça e vadiagem mais do que qualquer outra coisa. Repare, por exemplo, no delegado feito por Milton Gonçalves (sempre ótimo por sinal) e nas pérolas que ele solta. Já a cidade habitada pelos brancos é frustrada, católica, moralista e se desloca para a outra cidade pra se divertir e extravasar, na manhã seguinte retornando para o conforto do seu lar na cidade frustrada. Bom também é reparar que Quincas e Jorge Amado muito se parecem, já que o mesmo sujeito que freqüentava os puteiros da Montanha, beberitava com os marinheiros, freqüentava os candomblés nos subúrbios de Salvador era o mesmo que tinha ótimas relações com a elite da cidade e recebia gente como Sartre e Simone de Beauvoir em casa.

E o cineasta Sérgio Machado traduz a linguagem de Jorge Amado diretinho pro cinema. Estão lá os bêbados, a negra baixo astral violenta, mas que já fez homem morrer por conta do seu “rabão”, os mestiços desengonçados, as prostitutas, os travestis, os negros maltrapilhos e os brancos que se infiltram naquele mundo louco, mas quando amanhecer e tudo voltar ao normal, vão retornar para casa sem nem olhar para trás. E o filme faz isso tudo de forma muito bem feita. Não tem um ator ruim. A maioria é baiano e pra quem anda vendo as peças e programas de TV da Bahia, dos últimos dez anos vai reconhecer meio mundo de gente. Os globais também estão em ótima forma, Marieta Severo como sempre arrasando, Mariana Ximenes ótima, Milton Gonçalves interpreta como ninguém e Paulo José, que merece aplausos de pé e muitos prêmios por este papel – o homem esta lutando contra o mal de Alzheimer atuando e da melhor maneira possível exibindo energia máxima. Que continue assim! Além do elenco ótimo, o diretor Sérgio Machado (o mesmo de Cidade Baixa) parece não ter culpa de construir cinema comercial no Brasil. E isso é ótimo! O filme é comercial mesmo, não tem intuito de ser em nenhum momento filme de arte intelectualoide e isso no Brasil é ótimo por que a maioria dos cineastas tem medo, pois traduzem “comercial” congruente a produto mal feito de Hollywood.

E o filme corre bem feito, fazendo (muita) graça para o público que se diverte aos montes e come o racismo de Jorge sem problema algum. A mensagem está ali, subliminar. Principalmente na teoria da mestiçagem benéfica, celebrada em todos os livros de Amado, um discípulo óbvio de Gilberto Freire e Sérgio Buarque de Holanda . Aquela onda que todos nós nos misturamos, que aqui no Brasil não tem racismo por que o branco, o negro, o índio se resolvem, nem que este lugar seja na cama. Repare que o filme todo coloca uma Salvador que é separada, mesmo os personagens que habitam ela vivendo juntos, mas que esta separação é resolvida no final com uma boa foda! E é por conta disso que volto novamente ao conceito lá de cima, que o racismo foi algo formulado pelo conhecimento cientifico que se espalhou pelo censo comum. Ele se prolifera pela nossa cabeça e nós (brancos e negros) o espalhamos atualmente sem às vezes nem reparar no que estamos fazendo. Ate por que ele está em tudo quanto é lugar. Até quando você vai a um cinema assistir a um filme de um morto que não morreu direito...

terça-feira, 8 de junho de 2010

O Artista Branco é um "Travesti" em Potencial?

Assistindo dia desses um dos DVDs de Madonna, reparei uma coisa que no mundo onde a cultura pop domina é tido como algo de pura criatividade: a metamorfose da artista. Desde que Madonna surgiu nos anos 80 e explodiu para todo o mundo, nenhum artista deixou de imitar um conceito que foi ampliado à enésima potencia através dela, a reformulação da imagem do cantor dividindo seu conceito artístico em fases. E Madonna já teve um milhão delas; indiana, hippie, rapper, nipônica, revoltada anos 80, virgem, quase virgem, sado masoquista, cigana, espanhola, disco etc. reparando nos DVDs de Madonna algo me chamou atenção para além. A transformação “aceitável” doa artista branco naquilo que ele quiser e tiver vontade.
Não é de hoje que a televisão, o cinema, a música coloca o artista branco como um agente transformista em potencial. O artista branco tem a “capacidade” de ser além dele mesmo, ser o outro. Existem vários exemplos neste aspecto: A Cabana do Pai Tomás (1969) em que o ator Sergio Cardoso (branco) fazia o personagem principal negro, a novela Aritana (1979) em que o personagem indígena é feito pelo ator Carlos Alberto Ricelli, quadros de humor que até hoje pipocam na tv brasileira em que atores brancos se travestem de personagens negros caricatos, mais recentemente a novela das seis Alma Gêmea também tinha uma personagem indígena que era interpretada por Priscila Fantin. No mundo da musica os artistas brancos encarnam em clipes e turnês identidades múltiplas, a própria Madonna que citei acima é um exemplo até datado, mas no Brasil encontramos a cantora Daneila Mercury que encarna todos os tipos brasileiros em um corpo só. A atriz Elizabeth Taylor imortalizada até hoje como Cleópatra fazendo um papel que deveria ser de uma atriz negra.
Mas porquê isso? O porquê o artista branco é requisitado para ser o Outro? E o pior, por que o publico aceita este tipo de coisa como se fosse algo normal? Primeiro por que a figura do homem/mulher branco é tida como universal. Robert Stam e Ella Shohat ressaltam que durante muito tempo os artistas brancos foram requisitados para representar todas as raças em Hollywood. Como se a brancura pudesse ser adaptada para qualquer tipo físico e cultura. Outro ponto que chamo atenção é que indígenas ou negros sempre tiveram seu lugar na mídia, um lugar meio que de lado, mas estavam lá. Por exemplo, para representar um papel indígena principal é requisitado um artista branco, mas os coadjuvantes/figurantes são feitos por atores indígenas ou até indígenas não atores. Para representar o papel do negro protagonista bonzinho foi requisitado um ator branco que era pintado de negro, colocavam nele uma peruca de cabelos crespos, e alargavam seu nariz com rolhas, mas os papéis de negros fujões, revoltados, quilombolas eram representados por negros mesmo. Um ator branco representando outra raça encarna com mais perfeição a visão pretensamente positiva que os brancos poderiam ter das outras raças, já que os brancos no mercado cultural são vistos como artistas que vão além da etnicidade.
A facilidade de Daniela Mercury de falar/cantar de assuntos completamente diferentes como cultura afro, cultura indígena, em um de seus DVDs ela vem com o conceito de “mulatismo”, de mistura de raças, de candomblé, nordeste, é por que ela é branca. Ela tem a capacidade de ser várias coisas por que tem a pele clara. Então se o público encontrar ela no Projeto Por do Sol dia primeiro do ano, no Farol da Barra, vestida de índia Pataxó cantando um axé em tupi, a maioria vai achar lindo, ousado, performático, tendencia, digno de uma diva. Quando a novela com a índia Serena que queria ir incansavelmente pra “Sam Paolo” estreou, lembro que o Vídeo Show fez questão de mostrar o laboratório da atriz Priscila Fantin em território indígena e como ela fazia para manter o cabelo liso daquela forma. E o público achou normal, tanto que a novela foi um sucesso na época e também quando foi reprisada à tarde. Por quê? Por conta da “universalidade” que a pele clara atingiu no imaginário coletivo brasileiro.
Gente famosa como William Shakespeare, Bertolt Brecht, Madonna, Weber, Marx, Jostein Gaarder (autor de O Mundo de Sofia), as quatro amigas do seriado Sex and The City, Sartre, Virginia Woolf, os personagens de Jose Saramago, as sinfonias de Beethoven, entre outros são considerados figuras da cultura universal. Mas na verdade, seus trabalhos tratam de cultura local expandida como se atingissem toda humanidade. Não que esses trabalhos na verdade não atinjam as populações, atingem sim. Mas o que quero problematizar é por que atingem com muito mais facilidade do que um livro de Alice Walker, por exemplo e suas personagens negras? Por que o negro e outros é tido como local e o branco como universal?
A metamorfose da pele branca acontece na hora em que o sujeito branco bem quiser e entender, pois a brancura é legitimada como universal. O artista branco pode na arte (será isso também fora dos palcos?) ser quem ele quiser, negro, indígena, africano, cigano, mouro, japonês, aborígene e até ele mesmo... Existe há muito tempo, por conta de intenso trabalho dos movimentos negros, uma reformulação da identidade artística do negro no Brasil. Mas outras raças continuam invisiveis, além do próprio negro que ainda encontra barreiras no mercado publicitário brasileiro e também na dramaticidade. A brancura da arte ainda é um desafio a ser quebrado.

domingo, 6 de junho de 2010

FILMES COM TEMÁTICA NEGRA PARA BAIXAR.

Madrugada adentro pela net, acabo me deparando com um blog com postagens de filmes com temática negra ou com artistas negros. Este Filmes Balck Gratis é um achado que somente a net pode nos dar. Por conta disso e da dificuldade que passo por querer assistir bons filmes com meu povo e minha cultura aqui está o endereço dele:

http://filmesblack.blogspot.com/

Ótima iniciativa e aproveitem, pois algumas produções nem chegaram aqui no Brasil.

Por Que Eu Me Casei?

Inicio este post com uma pergunta: Quando teremos a oportunidade de assistir a um produto de Tyler Perry nos cinemas brasileiros? Geralmente os filmes norte americanos que chegam aqui no Brasil somente em vídeo é por que não deram certo por lá. Algum gênio das distribuidoras deve achar que se algo deu errado na terra do Tio San aqui também não deve dar boa coisa. Por conta disso, muitos filmes que os iaques vêem nos cinemas, nós temos somente a oportunidade de ver na telinha. Às vezes isso acontece com filmes ruins, às vezes não. E o caso dos filmes de Tyler Perry é justamente o de filmes que chegam aqui (quando chegam!) somente em DVD. Mas ao contrario dos outros produtos os filmes desse desconhecido diretor são um incrível sucesso nos EUA. Então por que seus filmes não chegam aqui nos cinemas brasileiros, ou melhor atingem carreira internacional? Ganha um doce que souber o porquê.
Tyler Perry é um diretor, produtor, dramaturgo, roteirista, ou seja, um homem envolto em setores de comando dentro do cinema. Além de tudo ele é negro. E isso torna-se um diferencial grande a partir do momento em que ele é um diretor negro que fala em seus filmes sobre as relações entre homens e mulheres negros nos EUA. Não da forma como Spike Lee fala, digamos que Perry fala de forma mais amena, com toques de comedia e muita, mas muita emoção no recheio dos seus filmes. A critica nos EUA – e no Brasil também – odeia Perry. Dizem que seus filmes são vazios, ruins, mal construídos e por ai vai. Na verdade, os filmes de Perry não são grande coisa, parecem mais filmes de auto ajuda disfarçados de comédias românticas feitos para a classe média negra norte americana evangélica. Não são trabalhos primorosos, mas sim bons filmes. A musica sobe na hora certa para emocionar, todos os personagens tem algo difícil para superar, uma grande lição é passada no final. E só. Mas ai vem uma outra pergunta: a gente já não vê um monte de filmes com brancos dessa forma e nem reclamamos tanto? Por que com personagens e produção negra, dando ênfase a aspectos próprios da população negra o povo reclama tanto?...
Esse Por que eu Me Casei? segue direitinho as regras dos filmes de Perry contando a história de casais de amigos que uma vez por ano se reúnem para renovar os votos de seu casamento. Só que desta vez, uma jovem solteira entra no bolo criando situações inusitadas para eles com revelações de segredos que jamais deveriam ser contados. E é esse o fiapo de roteiro. E é justamente por conta disso que o filme funciona tão bem. Destaque para a cena em que os segredos são revelados, com a personagem Ângela (Tasha Smith ótima!) “boca solta” dando inicio a baixaria dentro da casa. O resto é aquela comédia romântica simples que vai te fazer sorrir, com gente bonita pra tudo quanto é canto, as mulheres são lindas, os homens são charmosos, todos bem sucedidos, muito bem vestidos, a produção é simples e impecável. Claro o filme tem seus defeitos, não tem profundidade, mas confessemos que não é isso que se procura quando o assunto é comedia romântica.
O melhor em Perry é que os negros se enxergam em suas produções. Mesmo eles seus personagens sendo mega ricos, diferente da maioria da população negra mundial, o espelho desta vez não parece tão distante. Você se vê refletido nos dramas dos personagens. Eles são negros, bem resolvidos, que enfrentam o racismo com a cabeça erguida, que tem suas frustrações, suas vitorias, seus amores. Ou seja são humanos e não marionetes.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

POSTAGEM Nº 100!!!!!!!!

Em 26 de agosto de 2007, um Domingo desses quaisquer, coloquei na cabeça que iria fazer um blog. Um blog sobre cinema negro. Algo diferente, pois blog sobre cinema tem um monte por aí, mas sobre cinema negro não, que agregava duas paixões minhas: o cinema e a negritude. Meu primero post foi sobre o musical DreamGirls que tinha chamado minha atenção naquela época. Desde então não me limitava somente as criticas de filmes, mas também falava sobre o contexto do cinema mundial atrelado ao viés da negritude.

E o blog foi dando certo, com uma postagem aqui outra ali, até que um dia resolvi expandir a temática. Falando sobre cinema acabei me dando conta que era apaixonado também por outras mídias, artes e que o universo negro era vasto até não querer mais. Juntei ao cinema minhas percepções sobre música, televisão, teatro, fotografia e também passei a fazer entrevistas. De professor “ozado” tirado a blogueiro, passei a ser professor “ozado” blogueiro crítico entrevistador e quase jornalista. Loucura total! E o blog foi crescendo, conheci muita gente por conta dele (gente que gosta (maioria) gente que faz bico quando vê), ganhei muitos elogios, gente de outras cidades que fala comigo dando sugestões etc.

Nessas tantas conversas, vez ou outra sou indagado sobre como escolho os assuntos abordados no meu blog. É sobre arte negra? É sobre artistas negros e sua produção? É sobre negritude? É sobre o que realmente? Odeio essas definições, acho que elas muitas vezes limita a gente, mas eu respondo. O Película Negra é sobre cultura pop só que com o viés da negritude. Simples. Assim posso falar de arte negra feita por negros, de artistas negros, problematizar a arte dominante branca, como os negros são vistos por esse tipo de arte e o que nós negros fazemos para combater a arte dominante que nos torna subalternos e/ou invisíveis. Falo de artistas bons e ruins. Tudo com muito bom humor, até por que falo muitas vezes não só da arte em si, mas também dela agregada ao ou contra o racismo. E deixo aberto que não é qualquer tipo de humor, mas um humor negro, já que não dá para falar de cultura negra esbravejando o humor branco que ronda pelas mídias brasileiras e de outras beiras...

São quase três anos de blog, cem postagens, filmes comentados, espetáculos teatrais, entrevistas com artistas de diversas áreas, musica, revistas em quadrinhos, cds, até sobre o mundo porno ja falei (duas vezes aliás). O blog já presenciou nos seus comentários gente racista se manifestando, por conta disso acabei tirando os comentários. Mas agora resolvi retornar com eles depois de tanto tempo.

Pois então, se você gosta de cultura, da negritude, da junção entre as duas, se é a favor das cotas (sim já me posicionei sobre isto aqui também), se admira artistas negros, se é contra o racismo, se é um branco bem resolvido ou um negro de responsa, seja bem vindo ou continue acompanhado o Película Negra. E agora pode comentar a vontade. Obrigado.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Brenda Fassie - A Diva Pop da África do Sul.

Conheci Brenda Fassie através da teimosia. Lembro até hoje o dia em que ouvi pela primeira vez o som da diva pop Sul Africana. Era algo diferente, muito diferente de tudo que tinha visto. Mas ao mesmo tempo, por mais que isso seja louco para você que está lendo, aquele som “estranho” aos meus ouvidos era ao mesmo tempo íntimo. Senti-me confortável com aquela mistura de inglês sul africano e línguas nativas das etnias da África do Sul.

Fui a uma loja de CDs em um shopping e na seção de World Music fui pesquisando artistas negros, pois já tava de saco cheio dos R&B e hip hop norte americanos que a toda hora zoavam nos meus ouvidos. Encontrei coisas até então somente interessantes, até que vi um cd de uma mulher negra com um adorno na cabeça preto, vermelho e branco, ela com um microfone na mão, apontando para o público enquanto cantava. No CD estava escrito: The Quenn of African Pop – Brenda Fassie – 1964/2004 – Greatest Hits. Fiquei louco sem nem ouvir nada. Fui direto para a parte em que poderia ouvir trechos do cd e curti bastante o pouquíssimo que ouvi. Parecia que tinham virado de cabeça pra baixo a música pop que ouvia até então. O problema era o preço salgado do CD: R$ 43,00.

Voltei na loja um mês depois (demorou eim?) com dinheiro na mão. Mas um problema, nada de encontrar o cd na mesma prateleira. Será que tinham levado aquela que poderia ser a maior relíquia da minha coleção?... Posso dizer que fiz tanta pressão que até um vendedor acabou revirando a loja inteira, telefonado para as filiais na cidade, atrás do bendito até que encontrou... Nossa! Que alívio. Desembolsei a quantia e fui para casa ouvir aquele som diferente de forma completa. Quando coloquei o cd no diskman (nossa que antigo!) acabei comprovando tudo que imaginava. Brenda tinha um som pop, mas ao mesmo tempo misturava e muito bem sons que só o país e continente dela possuem.

Acabei descobrindo que Brenda na África do Sul era tida como uma diva pop pelo seus fás, já que foi uma artista que lutou contra o apartheid e também pela libertação de Mandela. Tem uma faixa do álbum que retrata muito bem isso a “Black President”. Falava muito da vida do povo sul africano nas suas canções, sofrimentos, angustias, medos, mas também a alegria, a festa, a coragem e o desejo de libertação frente ao regime segregacionista.

Como toda diva teve seus problemas. Tinha um gênio forte, acho maior que toda África e também se envolveu em problemas diversos por conta do vicio em cocaína. Chegou a ir a clinicas de reabilitação mais de 30 vezes em toda sua carreira. Em 9 de maio de 2004 veio a falecer, com 39 anos, por conta que seu corpo já não mais agüentava as doses da droga. Mas este é apenas um capitulo na sua maravilhosa carreira. Enquanto era viva fez e aconteceu no seu país e no seu continente. Ela foi eleita a 17 no Top 100 Grandes Sul-africanos, teve mais de 15 álbuns lançados, teve um de seus álbuns como o mais vendido em 1998, ganhou Gramys, a maioria de seus álbuns se tornaram multi-sellers platina na África do Sul, tinha um público cativo e tem seguidores até hoje na África do Sul e em toda África, foi comparada a cantoras como Madonna pela sua popularidade, participou da campanha presidencial de Nelson Mandela e suas performances presentes no You Tube são até hoje referencia na cultura pop negra e visitadas por muita (muita mesmo!!!) gente.

Brenda hoje está em um lugar maravilhoso com certeza. Mulher de voz forte cantava pela alegria do seu povo. Está longe de toda nossa ignorância. Viva Brenda Fassie!

terça-feira, 1 de junho de 2010

A Copa.

E tá chegando a Copa do Mundo. Pipoca a toda hora noticia das seleções, dos jogadores, dos treinadores, jornalistas. Por aqui tudo está ficando dia após dia cada vez mais verde e amarelo; o asfalto que é pintado com a bandeira nacional, a rua decorada com plásticos da cor da mesma, gente usando a camisa da seleção, bolas de futebol decorando as ruas, promoções de diversos produtos de varias marcas dando prêmios aos ganhadores dos mais variados tipos. E o patriotismo? Como o brasileiro não tem como se orgulhar muito do seu país, sistema político, econômico, social, racial, etc ele resolve se converter a “religião pátria” na época de copa do mundo. É só por trinta dias, passa rápido e na maioria das vezes tá todo mundo bêbado mesmo, não custa nada na hora que o carinha lá da seleção fazer o gol ele (ou ela) gritar Brasillll...

Mas esta copa tem um diferencial. Ela vai acontecer na África do Sul. Não em qualquer outro país da Europa, mas sim na África do Sul. Aquele país que anos atrás o regime do apartheid dominava a população negra. Por conta de Mandela e também da luta do povo negro sul africano que há anos sofria com o regime o apartheid acabou. Acabou? Ah tá! Vai ver onde os negros estão situados no país, repare nas reportagens em que postos eles estão, em que bairro moram... O Apartheid acabou no papel, ok? E isso é fato.

Mas é copa do mundo, vamos celebrar a alegria do povo africano e também suas excentricidades! Afinal de conta reportagem da Globo e de qualquer outra emissora serve para isso. E bombardeia o espectador com reportagem sobre a violência das cidades do país africano, de que quando anoitece você não pode sair a rua (aqui no Brasil em alguns lugares também tem o toque de recolher, sabia?!), das malas extraviadas no aeroporto internacional pelos sul africanos, do povo revoltando antes da copa começar pois os trabalhadores que construíam os estádios fizeram greve por conta dos baixos salários, do povo revoltado com a presença da cantora colombiana Shakira cantando na abertura, pois queriam uma cantora local se apresentando (pena que Brenda Fassie morreu anos atrás), que Mandela vai acompanhar os jogos de casa mesmo por conta de sua frágil saúde, dos ingressos pela internet não vendidos, do povo sul africano lotando os estádios, os safáris com animais enormes exóticos, leões, elefantes, macacos e tantos outros. Fora a dança da copa, com seus passinhos imitando embaixadinhas, todo o mundo imitando e uma multidão fazendo ao mesmo tempo. Lindo!

Ah! Também esta vai ser a copa com o percentual mais baixo de presença européia. Os nossos irmãos do “velho continente” não quiseram se deslocar para se divertir no território que antigamente eles dominaram, massacraram, humilharam, exploraram. Logo na época em que a maioria do continente europeu está em férias. Dizem que a COPA é feita nesta época para pegar os europeus em férias e trazer o dinheiro desse povo rico em busca de lazer... Mas eles não vão para a África. Por que será, eim? Hum... O lado bom disso tudo? Abaixaram os ingressos dos jogos e os estádios vão estar lotados do povo nativo, que é em sua maioria negra e adora fazer festa, uma festa bonita e grandiosa.

Para mim é a copa que mais está me chamando atenção. Por motivos óbvios. Confesso que tem momentos que mudo de canal quando ouço a palavra futebol, ou o termo copa do mundo, por que satura, enjoa. É a copa em que acompanhando todas as notícias, para saber como estão falando do país mais desenvolvido do continente africano e de seu povo. Às vezes falam bem, muitas de forma estereotipada e na maioria mal, mas nunca deixo de acompanhar.